A criança tem necessidade de se exprimir, sendo a Expressão Plástica uma disciplina em que pode fazê-lo. Com ela pode exprimir sensações corporais, sentimentos, desejos, factos emotivos que ela não consegue formular por palavras, porque estão ao nível do inconsciente.
A mente possui estruturas cognitivas pelas quais os indivíduos se adaptam intelectualmente e organizam o meio em que vivem. Ou seja, através de acomodações e de esquemas, o indivíduo constrói o seu conhecimento a respeito do mundo.
A palavra apenas pode exprimir o que se encontra ao nível do consciente infantil, daí que a criança tenha necessidade de outras formas de expressão para extravasar tudo o que se passa nela. É desta forma que a criança procura na expressão uma segunda linguagem, tendo em conta que a linguagem do inconsciente vem completar a linguagem falada. A criança vai exprimir-se através de uma linguagem feita de formas e cores. Quando ela desenha, pinta, recorta, cola, molda, entre outras técnicas exprime-se revelando ao mundo adulto o seu próprio mundo infantil, isto é, revela o seu interior, com os seus problemas, as suas tristezas, as suas alegrias, enfim, transmite- nos o seu pensar e agir.
Deste modo, a expressão é a forma que as crianças encontram para, através dela, libertarem as suas energias, contribuindo particularmente para o seu desenvolvimento harmonioso.
Por sua vez, Gonçalves (1991:12) sublinha que através da expressão plástica a criança
não só desenvolve a imaginação e a sensibilidade, como também aprende a conhecer-se e a conhecer os outros (…), como cada um se exprime de acordo com as suas ideias, sentimentos e aspirações. Assim, a expressão plástica não pretende formar artistas, mas criar e estimular nas
crianças uma sensibilidade plástica mais apurada, uma experimentação mais variada e um conhecimento de si e de quem o rodeia. Ela é fundamental, isto porque todo o indivíduo deve conseguir exprimir-se de modo a que consiga comunicar e não fique isolado do mundo. “A
expressão revela o ser” (Rodrigues, 2002: 210). Deste modo, deve permitir à criança que esta
construa um modo de pensar divergente, intuitivo, subjetivo e inovador, o que a leva a estimular a imaginação e criatividade, fazendo atuar, sentir e realizar de diferentes formas as diversas tarefas.
A criança deve ter acesso, regular e naturalmente, à prática de expressões, uma vez que estas são fundamentais para o seu desenvolvimento global e equilibrado, favorecendo assim a sua aprendizagem e interiorização. É necessário ter em atenção que cada criança é diferente e tem distintas potencialidades, pelo que tem de se procurar estratégias diversificadas e adequadas.
Segundo Eurico Gonçalves (1976:167), O mundo plástico da criança é estruturado de
maneira diferente do dos adultos, têm valores e leis particulares e caraterísticas próprias. Obedece a fases evolutivas, ou seja, avança através de etapas. Para a criança, a alegria de pintar vive intimamente associada à alegria de ver, observar, rir, admirar, falar, contar e mesmo emocionar.
No nosso entender, a escola apresenta estas mesmas fases de evolução, devendo por isso trabalhar as expressões desde o jardim de infância, para que as crianças comecem a desenvolver competências de nível cultural e artístico, onde ela transmita as suas emoções, os seus desejos e impulsos, porque a arte é um meio de expressão e de libertação por excelência: ajuda a criança a desenvolver a inteligência, a motricidade global, fina e o sentido estético.
Portanto, pode-se simplesmente deixar a criança criar ou pedir-lhe que desenhe o que a está a deixar triste ou o que ela mais gosta. Por meio da experiência artística, ela consegue demonstrar ideias, mostrar como vê a vida ou criar algo, obtendo, um bom resultado artístico. Na maioria das vezes, a criança não produz um desenho, não molda um pedaço de barro com intenção de transformá-lo numa obra de arte a ser colocada em exposição, ela desenha, molda, pinta, porque foi orientada a fazê-lo ou porque deseja representar livremente no papel aquilo que lhe apetece ou se sente inspirada a fazê-lo. Assim, o sentimento expresso pela arte, tanto pode ser um momento de imaginação, bem como uma forma de comunicação, uma
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exteriorização dos desejos e emoções das crianças. Ainda que a expressão plástica possa apresentar desafios ou dificuldades do dia a dia, não podemos, como educadores/professores, impedir a criança de realizá-la mas sim oferecer a esta a oportunidade dessa expressão.
Segundo o documento do Ministério da Educação, Organização Curricular e Programas
– 1º Ciclo do Ensino Básico (2004), os seus princípios organizadores descrevem a manipulação
da seguinte maneira: “experiência com novos materiais, com as formas e com as cores permite
que, a partir de descobertas sensoriais, as crianças desenvolvam formas pessoais de expressar o seu Mundo interior e de representar a realidade (…). Este refere também que a possibilidade de a criança se exprimir de forma pessoal e o prazer que manifesta nas múltiplas experiências que vai realizando são mais importantes do que as apreciações, feitas segundo moldes fixados ou de representação realista (Ministério da Educação, 2004:85).
Assim, é importante trabalhar as técnicas próprias da expressão plástica (modelagem, pintura, colagem, montagem, desenho), pois quanto maior for o reportório de experiências artísticas, mais autonomia as crianças terão ao lidar com a arte, desenvolvendo habilidades motoras além do aprimoramento das suas representações ao longo dos anos. No entanto, a arte enquanto linguagem não deve restringir-se à simples reprodução de modelos padronizados, antes deve ser tratada como um momento de criação e expressão infantil, respeitando a sua singularidade e cultura. É através das técnicas e dos materiais que a criança poderá expressar-se e criar. Tal como a linguagem e as palavras são importantes para a expressão verbal, assim as técnicas e os materiais o são para a expressão plástica. Estas técnicas foram desenvolvidas e postas em prática ao longo da PES, destacando com maior evidência neste percurso, a Modelagem e a Escultura, através de atividades de manipulação e exploração de diferentes materiais moldáveis (pasta de papel, pasta de açúcar, massa Das2, plasticina, entre outros) em que as crianças amassavam, separavam, esticavam, alisavam, proporcionando-lhes explorações sensoriais importantes, como a libertação das tensões e o desenvolvimento da motricidade fina. O prazer de dominarem a plasticidade e a resistência de materiais leva-os progressivamente a utilizá-los de forma pessoal envolvendo-se numa atividade criadora. Deste modo, é fundamental que as crianças explorem e manuseiem os materiais livremente de modo a explorar a sua forma e a sua plasticidade, sempre com um caráter lúdico para que se envolvam nas suas atividades com empenho, liberdade e criatividade. O desenho e a pintura foram também técnicas bastantes apreciadas e desenvolvidas ao longo do estágio, proporcionando nas crianças o prazer pelo desenrolar do traço, suscitando-lhes a representação de sensações, experiências e vivências. Estas técnicas ocorriam com frequência e de forma livre, permitindo desenvolver na criança a sua singularidade expressiva e a manifestação dos seus sentires. Além disso, através da pintura, as crianças aprenderam a reconhecer as cores, a desenvolverem a coordenação visual-motora e o
2 Massa mineral para modelar
sentido de observação. Outra técnica, e que a nosso ver foi das que deu mais prazer às crianças, aplicada em diversas atividades, foi o recorte e a colagem. No entanto, é mais desenvolvida no pré-escolar, fase em que a criança utiliza inicialmente a mão como tesoura fazendo recortes a dedo e só posteriormente utiliza a tesoura. Ao efetuar o ato de rasgar está perante uma atividade lúdica, que de certa forma a levará posteriormente à expressão criativa, aquando da realização da colagem. Estas e outras técnicas desenvolvidas e utilizadas possuem caraterísticas próprias que valorizam e diferenciam o trabalho de cada criança.
Segundo Oliveira e Santos (2004:27), através da Expressão Plástica, a criança em
contato com materiais e técnicas diversificadas, vai poder exprimir e reconstruir o seu mundo interior, estabelecendo deste modo, uma comunicação e um comportamento ajustado ao meio.
Assim, deve desenvolver-se na criança o gosto pela aprendizagem e pelo conhecimento, usando todos os meios que se afiguram disponíveis. Um dos caminhos parece ser o contacto com os materiais e situações diversificadas, que acabam por ser ferramentas suplementares para facilitar a sua linguagem plástica com acompanhamento nas tarefas, permitindo sempre espaço para a livre expressão.
Para desenvolver qualquer atividade, são necessários recursos materiais e, tal como diz Sousa (2003:185): cada material contribui de modo específico para a expressividade e a
criatividade da criança em determinadas condições específicas, para tal referimos os seguintes
materiais indispensáveis e utilizados nesta área: lápis (carvão/cor/cera); canetas de feltro; guache; aguarelas; tinta da china; pinceis; madeiras; têxteis; barro; plasticina; colas; tesouras; régua; compasso entre muitos mais. São meios ou recursos pelos quais as crianças se podem exprimir e criar, mas para tal e segundo Sousa (2003:185): Compete ao professor procurar o material mais
adequado para cada situação particular. As atividades representam normalmente coisas que
fizeram, viram e imaginaram. Enquanto desenham, pintam, amassam, mexem, enrolam, cortam, furam, torcem e dobram materiais, aprendem a criar e desenvolver mudanças: encaixar coisas; separá-las; combiná-las e transformá-las. O educador/professor deve selecionar os materiais a
apresentar à criança de modo a não causarem problemas e perigo à saúde na faixa etária em que se encontra (OCEPE, 1997). Deverá ter o cuidado de que esses não sejam tóxicos, e os
materiais cortantes ou pontiagudos deverão ser disponibilizados à criança quando tiverem idade para os manusearem com os devidos cuidados e sob a vigilância do professor. Para a expressão plástica, a criança necessita de materiais de boa qualidade, isto é, os que lhes proporcionem a possibilidade de expressão e de criação. Estes devem ser considerados um dos meios de satisfazer as necessidades das crianças que necessitam manipular materiais específicos para o desenvolvimento da sua atenção, observação, motricidade, linguagem e perceção sensoriais. É condição indispensável que as atividades sejam desenvolvidas de forma espontânea, num ambiente adequado à sua estrutura e possibilidades para que a criança seja ajudada de forma oportuna e indireta.
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Onofre (2004:149) defende que existem materiais que solicitam e motivam a
experimentação e a descoberta em áreas psico e sociomotoras, emocionais, afetivas e da comunicação, precetivas, cognitivas, da vida quotidiana, da autonomia e da sociabilidade.
Concluímos que a expressão plástica, com as suas mais variadas técnicas e materiais, resulta numa verdadeira linguagem pertencente a uma área pedagógica, onde se dá atenção ao desenvolvimento da criança. Isto porque a criança aprende a ser criativa, a expressar através das suas obras o seu pensamento, a comunicar e a evoluir mentalmente e psicologicamente.
2.3 - Modelagem
A Educação através das artes proporciona à criança a descoberta das linguagens sensitivas e do seu potencial criativo, tornando-a capaz de criar, inventar e reinventar o mundo que a cerca. A modelagem é uma atividade importante e poderosa, pois a criança usa as mãos e os músculos para dar forma à sua criação e esses movimentos manuais aumentam a destreza dos dedos, além de proporcionar experiência tátil, de aprender de forma ativa utilizando a aprendizagem pela ação, pois tudo o que toca, tudo aquilo em que mexe, tudo o que pode fazer com os mais diversos materiais, vai sempre servir para aprender. A modelagem é assim uma atividade que proporciona a livre expressão do pensamento, garante um ótimo treino de coordenação motora, muscular e de coordenação visual, compreende alguns elementos visuais como a estrutura, a forma e o volume, desenvolve a noção de espaço e o jogo imaginário. Depois de apalparem, sentirem, tocarem e amassarem, as crianças entram no seu imaginário e começam a fazer as mais variadas formas.
Segundo Le Bouleh (2001:158), A criança na prática da modelagem executa
manipulações como pega o material, descobrir as suas possibilidades afundando os dedos, estragando a massa, achatando-a, modelando-a, está a educar a flexibilidade e a firmeza da mão, assim como a sensibilidade táctil, deste modo e do ponto de vista evolutivo, num primeiro
momento, a criança contacta com o material, brinca com ele, amassa-o, arredonda-o, introduz-lhe os dedos e as mãos, chamando-se na modelagem a fase da manipulação espontânea. Posteriormente, a criança começa a perceber formas e procura representá-las – fase da representação. Por último, depois de manipular e observar, a criança identifica-os e tenta representá-los de forma realista – fase da identificação.
Sendo a modelagem uma forma de expressão, o ato de manipular diversos materiais, torna-se uma forma prazerosa de expressão, mas também uma boa prática educativa do ensino de arte na escola. No entanto, são-lhe atribuídos objetivos essenciais à sua prática, tais como:
A nível cognitivo: a criança aprende sobre proporção, espaço, forma, simetria e cores. Sente e vê as alterações feitas no seu trabalho;
A nível social: a criança aprende a trabalhar em grupo, compartilhando material e ouvindo a opinião dos colegas sobre o seu trabalho;
A nível emocional: a criança acalma-se concentra-se e expressa as suas emoções com confiança por meio de cores, linhas e formas.
Assim, a criança comunica de forma simples e económica aquilo que compreende do seu mundo. As imagens que as crianças criam ou desenham no papel, moldam num pouco de barro, caraterizam-se pela simplicidade das formas, independentemente do detalhe fino e pela liberdade na representação das relações espaciais”.
A criança começa a sua obra com uma página em branco, com um pedaço de barro intacto, mas ela aprende por experiência própria, com os lápis, as tintas, as mãos, que poder encher ou transformar materiais faz sentido para ela, e fá-la sentir com “poderes mágicos” para criar imagens, histórias e produtos finais, servindo-se, para isso, das diversas técnicas de expressão, transformando o seu mundo num mundo de magia, ação e aventura.
Contudo, todas as atividades plásticas devem ser atividades educativas que implicam um
forte envolvimento da criança que se traduz pelo prazer e desejo de explorar e de realizar um trabalho que considera acabado (ME, 2002: 61).
Se a criança é por natureza altamente expressiva e criativa estas necessidades serão também satisfeitas através da ação de modelar e de criar formas em materiais moldáveis (Sousa, 2003: 255). A modelagem encontra-se, por isso, no leque das atividades que as crianças devem experienciar na expressão plástica. É necessário, para que esta atividade se possa desenvolver eficazmente, exista um local próprio, com materiais adequados e indispensáveis à prática da modelagem, isto porque é através destes que a criança se expressa e cria.