LISTA DE SCHINDLER, KORCZAK E O PIANISTA
6. A Lista de Schindler e as Virtudes Cotidianas
O primeiro filme que será objeto de análise é A Lista de Schindler, do diretor Steven Spielberg, que conta a história de Oskar Schindler, empresário que se aproveita da guerra para enriquecer. Para realizar o seu plano, contrata judeus, mão de obra extremamente barata, para trabalhar em uma fábrica de panelas. Com isso, Oskar vê de perto todas as atrocidades da guerra e passa a ajudar os judeus empregados na sua fábrica; através de subornos e manobras políticas, Oskar livra mais de mil e quinhentos judeus fadados à morte. O filme foi largamente premiado pelas principais academias de cinema e ainda é referência no cinema pela crueza com que conta os fatos.
Ao relacionarmos o filme com as considerações de Todorov acerca das virtudes cotidianas, podemos tirar logo de início a questão da dignidade. Quando digo isso, não significa que ele não tenha qualquer resquício, por menor que seja, de dignidade, mas que esta não causa qualquer impacto na direção que a história toma. É claro que há atos dignos durante o filme, mas são isolados e sem qualquer importância no enredo. Inclusive, é importante notar que Spielberg vai na direção contrária ao mostrar diversas cenas da ausência de dignidade em algumas pessoas. Por exemplo, um judeu que, para receber dinheiro dos nazistas, aceita trabalhar como uma espécie de soldado para organizar as famílias que entravam no gueto.
O foco de A Lista de Schindler recai, sem sombra de dúvidas, no ato de Oskar Schindler, que salva milhares de judeus ao empregá-‐‑los na sua fábrica; esse ato, por nortear todo o desenvolvimento do enredo, é o que vai pesar mais na análise das virtudes. O empresário alemão vai à falência devido a isso e ainda chora ao perceber que poderia ter feito mais ao invés de ter gasto largas quantias de dinheiro com festas e mulheres. A cena final é simbólica ao expor o paradoxo da situação: milhares de judeus
vivos graças a Schindler, e este em lágrimas, sentindo-‐‑se indigno de tantos agradecimentos e olhares de compaixão. Para o espectador, Oskar é a pessoa que mais reflete a dignidade humana, mas isso não impede a dor que o passado traz para ele; pelo contrário, o passado chega como uma ferida que não fecha, e torna Schindler uma pessoa amargurada e arrependida.
Uma outra sequência do filme que vai no sentido contrário da dignidade é quando Schindler se muda de casa. Ele passa a viver em um lugar luxuoso onde antes viviam judeus. Oskar sabia que aquela casa não pertencia a ele e que foi comprada com o fruto do trabalho de uma pessoa; mesmo assim passa a viver lá, sem demonstrar qualquer ressentimento. É apenas ao ver de perto os horrores da guerra que ele percebe o que acontece ao seu redor; caso isso não tivesse acontecido, ele seria apenas um alemão se aproveitando da guerra para ganhar dinheiro. Isso compromete, e muito, a dignidade de Schindler.
Mas, por outro lado, é com o cuidado, uma das virtudes cotidianas propostas por Todorov, que Schindler se destaca. Como foi mencionado antes, o cuidado significa um gesto para o outro indivíduo, sem o agente se preocupar com a sua própria consciência ou segurança. Oskar realiza esse ato apenas por compreender que são vidas humanas que estão sendo tiradas; ao perceber o absurdo da situação, usa do seu dinheiro e da sua influência para empregar aquelas pessoas na sua fábrica, livrando-‐‑as assim da morte.
Assim como Pola, que se juntou à sua mãe para a morte certa, Schindler também realiza um ato de cuidado. O interessante é que nenhum dos dois precisaria realizar aquilo; Pola poderia tentar a sobrevivência de outra maneira, mas preferiu morrer junto com a sua mãe. Schindler poderia encerrar os seus negócios quando tivesse ganho todo o dinheiro que quisesse, mas foi à falência ao decidir salvar milhares de judeus. É claro que o ato de Pola foi mais extremo, pois teve como preço a sua própria vida, mas Schindler
sabia que, no minuto em que a guerra chegasse ao fim, ele seria um criminoso de guerra.
No decorrer do filme, o cuidado aparece em outro ato de Oskar Schindler: fazia um dia de muito calor, e os judeus estavam sendo levados em um trem para outro campo de concentração. Devido à demora de o trem em sair, alguns soldados jogavam água para dentro dos vagões; Schindler, percebendo isso, pede que tragam uma mangueira maior e mais longa. No final da cena, é ele mesmo quem joga água nos trens, arriscando assim a sua própria condição de nazista diante dos oficiais, ao demonstrar essa compaixão pelos judeus. Esse ato é um ótimo exemplo de cuidado, pois envolve uma ajuda gratuita por parte do agente, além do risco que este corre ao realizá-‐‑la.
A terceira virtude cotidiana, atividade de espírito, que consiste em uma elevação moral a partir de uma experiência estética, não tem papel importante durante o filme exceto em um único momento, que será tratado mais adiante. Spielberg, devido à natureza do tema e dos acontecimentos que o envolvem, evita colocar momentos mais sensíveis. A música, um dos catalisadores possíveis para se atingir a beleza, aparece em vários momentos, mas é apenas para causar um contraste entre o horror das cenas. O momento mais emblemático desse paradoxo está no instante em que os soldados nazistas colocam uma música durante o exame médico dos prisioneiros; enquanto soldados levam as pessoas consideradas inaptas para o trabalho em direção às câmaras de gás, uma bela canção é ouvida por todo o campo.
O único momento em que podemos contemplar uma elevação moral através da beleza é quando uma menina corre sozinha pelas ruas do gueto em meio a soldados que conduziam à força os judeus para o gueto. Schindler está andando a cavalo quando se depara com a cena; a garotinha corre desamparada e precisa desviar de corpos jogados no meio da rua e soldados nazistas que matavam quem os desafiasse. O filme, embora tenha
sido gravado em preto e branco, tem nessa cena o único momento de cor: o vestido vermelho que a menina vestia; esse pequeno detalhe serve para reforçar o caráter lírico da cena.
Tudo em A Lista de Schindler, no que concerne à atividade de espírito, apresenta esse paradoxo; a música durante a triagem de prisioneiros serve como um reforço do horror justamente por ser algo belo; da mesma forma na cena da menina de vestido vermelho: o lirismo e a beleza em meio ao caos e desespero. Mais adiante, no filme, a menina aparece dentro de um carrinho cheio de cadáveres, um ponto vermelho em meio ao preto e ao branco. O paradoxo beleza-‐‑horror está completo.