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1. LITERATURA E RESISTÊNCIA EM LUISA VALENZUELA

1.7. Literatura de resistência em Valenzuela

1.7.2. A literatura como campo para discussão de valores

Ao caracterizar a literatura como “a grande removedora de ideias porque estas não devem permanecer quietas até se estancarem e se decomporem”, Luisa Valenzuela revalida o pensamento de Alfredo Bosi no que se refere à compreensão da disputa de valores (defesa dos próprios valores e combate aos respectivos antivalores) como força propulsora não só da luta dos “homens de ação” (os políticos, os educadores etc.) como também da produção literária de muitos escritores – o que já resultou, segundo o crítico, em “resultados notáveis” ao longo da história. Para Bosi, os valores estão na base (como motivação) e no fim (como objetivo) tanto da militância política dos “homens de ação” para interferir diretamente no tecido social como também, potencialmente, da escrita artística. O crítico brasileiro vê os valores como força catalisadora da vida em sociedade que também pode ser explorada pelos escritores, os quais não podem subtrair-se a esse ímã enquanto fazem parte do tecido vivo de qualquer cultura (BOSI, 2002, p. 120). Afinal, ecoando a metáfora de Valenzuela, o animal político é indomável e se recusa a deixar descansar o animal literário que reclama alguma paz dentro de si26.

Já ao afirmar que aqueles que eventualmente creem ter respostas para os problemas do mundo devem atuar como políticos “e tentar ou não consertar algo com o poder que a política nos outorga”, Valenzuela reconfirma a diferenciação proposta por Bosi entre o homem (ou mulher) de ação e o homem (ou mulher) das letras. Se é verdade, como afirma o crítico, que ambos podem ser impulsionados pela defesa de valores (resistência), é-o mais ainda que a forma de atuar nessa defesa (resistir) é completamente diferente, como delimita Bosi. No caso do homem de ação, a realização dos valores tem um compromisso inarredável com a verdade das suas representações:

Para condenar um ato como injusto, é indispensável, ao ser ético, saber se, efetivamente, o seu sentimento de indignação está fundado em uma percepção correta dos fatos e das intenções dos sujeitos. O valor, nessa esfera da práxis, se

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Sobre este ponto fundamental da análise, as palavras exatas de Bosi são as seguintes: “A translação de sentido da esfera ética para a estética é possível e já deu resultados notáveis, quando o narrador se põe a explorar uma força catalisadora da vida em sociedade: os seus valores. À força desse ímã não podem subtrair-se os escritores enquanto fazem parte do tecido vivo de qualquer cultura. O homem de ação, o educador ou o político que interfere diretamente na trama social, julgando-a e, não raro, pelejando para alterá-la, só o faz enquanto é movido por valores. Estes, por seu turno, repelem e combatem os antivalores respectivos. O valor é objeto da intencionalidade da vontade, é a força propulsora das suas ações. O valor está no fim da ação, como seu objetivo; e está no começo dela enquanto é sua motivação. Exemplos de valores e antivalores são: liberdade e despotismo; igualdade e iniquidade; sinceridade e hipocrisia; coragem e covardia; fidelidade e traição etc.” (BOSI, 2002, p. 120, grifo do autor)

provará pela coerência com que o homem justo se comporta a partir da sua decisão. [...] É o princípio da realidade com toda a sua dureza que rege a realização dos valores no campo ético. (BOSI, 2002, p. 121, grifos nossos)

Já na esfera da criação literária, emenda Bosi, a situação é totalmente distinta. Como Valenzuela bem sabia e praticava, o contista, poeta ou romancista dispõe de “um espaço amplo de liberdade inventiva”.

A escrita trabalha não só com a memória das coisas realmente acontecidas, mas com todo o reino do possível e do imaginável. O narrador cria, segundo o seu desejo, representações do bem, representações do mal ou representações ambivalentes. Graças à exploração das técnicas do foco narrativo, o romancista poderá levar ao primeiro plano do texto ficcional toda uma fenomenologia de resistência do eu aos valores e antivalores do seu meio. Dá-se assim uma subjetivação intensa do fenômeno ético da resistência [...]. Esse tratamento livre e diferenciado permite que o leitor acompanhe os movimentos não raro contraditórios da consciência, quer das personagens, quer do narrador em primeira pessoa. (BOSI, 2002, p. 121-122, grifos nossos)

Por isso, conclui Bosi, o escritor até se aproxima em certo aspecto do homem-em-situação engajado em uma ação política de resistência a antivalores, uma vez que compartilha os mesmos valores que movem a ação do outro e que também exercita a resistência à sua maneira. Contudo, o engajamento do escritor é diferente, e tal diferença reside precisamente no tratamento dado a seu material, ou seja, na forma de resistir: resistência limitada ao plano do texto, mas ilimitada justamente em função das potencialidades expressivas sem par proporcionadas pela linguagem do texto literário, posto que não atrelada ao mesmo princípio da realidade à qual deve necessariamente estar circunscrita a ação do outro. Afinal, como bem define Hackler (1986, p. 80), “O instrumento de que [a literatura] se vale para atingir sua utopia […] é a própria linguagem. Utilizando-se da língua como mediação, instaura-se como a única linguagem real”.

Por isso, Bosi separa da seguinte forma as possibilidades de engajamento na resistência a antivalores de que pode dispor o homem-em-situação e aquelas disponíveis exclusivamente ao artista:

Em princípio, a margem de escolha do artista é maior do que a do homem-em- situação, ser amarrado ao cotidiano. [...] A arte pode escolher tudo quanto a ideologia dominante esquece, evita ou repele. Embora possa partilhar os mesmos valores de outros homens, também engajados na resistência a antivalores, o narrador trabalha a sua matéria de modo peculiar; o que lhe é garantido pelo exercício da fantasia, da memória, das potências expressivas e estilizadoras. Não são os valores em si que distinguem um narrador resistente e um militante da mesma ideologia. São os modos próprios de realizar esses mesmos valores. (BOSI, 2002, p. 122-123, grifo nosso)