CAPÍTULO III – A MENINA E O VENTO E CUENTOS DE VEREDA: ESTUDO
3.1 A Literatura Comparada – Conceitos operacionais
No âmbito das pesquisas sobre literatura comparada, a pesquisadora Tania Franco Carvalhal (1943-2006), proporcionou valiosas contribuições, a partir da década de 1980 quando começou a escrever para o desenvolvimento do comparativismo no Brasil, sendo uma das precursoras da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC).
Nessa pesquisa, nos apoiaremos em seus estudos, acerca do percurso histórico da literatura comparada, dos estudos dessa teoria e metodologia, desde o seu surgimento, destacando também a visão dada por diversos estudiosos, em países cuja propagação foi bastante significativa para a consolidação do que hoje conhecemos, bem como as transformações de formulações, e reformulações enfrentadas, durante todo esse tempo.
Os estudos nos quais está ancorada a teoria supracitada, não condizem apenas ao cenário nacional, nem ao simples ato de correlacionar elementos literários em comum, mas está diretamente ligada à compreensão dos procedimentos literários, como temáticos ou culturais, e em perceber as diversas manifestações, que contribuem para reflexão e criticidade literária em que estão inseridas.
De acordo com Carvalhal (2006), o surgimento da literatura comparada, data do século XIX, e sua finalidade consistia em comparar estruturas ou fenômenos análogos, predominante das ciências naturais, porém, “o adjetivo "comparado", derivado do latim comparativus, já era empregado na Idade Média, ou seja, “o ato de comparar’ faz parte da estrutura do pensamento humano” (CARVALHAL, 2006, p. 8, grifos da autora), percebemos que desde sua formação cultural, independentemente de apresentar registros que comprovem sua historicidade, como ocorreu no século XIX, contudo na Idade Média já havia o sentido para se comparar.
No território francês, a literatura comparada também foi amplamente divulgada, alcançando assim, a sua consolidação enquanto expressão literária, tendo os nomes de Noél e Laplace (1816), como os autores que realizaram diversas antologias de literatura, intituladas de Curso de Literatura Comparada. Mesmo sendo uma referência francesa, nos estudos dessa teoria, a obra apresenta apenas excertos previamente selecionados, sem a intenção de equiparar ou afrontar tais escolhas (CARVALHAL, 2006).
Outro estudioso, que também esteve à frente de difundir a expressão “literatura comparada”, foi o professor Abel-François Villemain, sendo responsável por diversos cursos ministrados sobre a literatura na Sorbone, no período de 1828 a 1829. “Em sua obra Panorama da Literatura francesa do século XVIII, emprega várias vezes não só a combinação "literatura comparada" como ainda "panoramas comparados", "estudos comparados" e "história comparada"” (CARVALHAL, 2006, p. 9-10, grifos da autora). Como podemos perceber, essas pesquisas do século XVIII, mesmo que indiretamente, apontavam a literatura comparada, desde a formação da nossa sociedade.
Nessa perspectiva, os estudos voltados para a literatura comparada não são recentes, e sua teoria não é nova, ganhando espaço e expandindo-se na voz de diversos pesquisadores, espalhados pelo mundo, como nos afirma Carvalhal (2006),
Na Itália, De Sanctis lecionará literatura comparada em Nápoles a partir de 1863. Já os Estados Unidos esperarão a virada do século para verem surgir os estudos comparados, sendo criados Departamentos de Literatura Comparada nas universidades de Columbia (1899) e Harvard (1904) [...]. Em Portugal há que referir, depois do "precursor" Teófilo Braga, o estudo "Literatura comparada e crítica de fontes" de Fidelino de Figueiredo, inserido cm (sic) seu livro A crítica literária como ciência (1912), como trabalho pioneiro no enfoque da questão metodológica (CARVALHAL, 2006, p. 11-12).
Ao longo desse percurso histórico, muitos estudiosos apresentaram as suas contribuições, aprimorando ainda mais essa teoria, e ampliando as chances de associarmos a literatura, aos estudos comparados, oportunizando assim, um olhar direcionado, para pensarmos nessa relação equiparada de ideias, a ponto de encontrarmos pontos divergentes e significativos na compreensão e discussão dessas ideias, acerca de obras literárias (personagens, enredos, temas), autores, culturas, filosofias, áreas de conhecimentos diferentes, dentre outros posicionamentos, que estivessem dentro desse campo de estudo.
No que consiste a Literatura Comparada no Brasil, Carvalhal (2006), apresenta o nome de João Ribeiro, como um dos precursores com a publicação do artigo Páginas de estética (1905), que ganhou espaço no meio acadêmico, durante a disciplina do Curso de Letras, a partir dos estudos do crítico e professor Antônio Candido, no século XX, a saber, de acordo com Oliveira (2010):
Ao assumir a disciplina de Literatura Brasileira na recém-fundada faculdade de Letras de Assis da UNESP em 1958, onde atua por dois anos, elabora e publica, ainda em 1959, a primeira edição do livro Formação da Literatura brasileira: momentos decisivos, trabalho que formaliza a série de ensaios apresentados nas aulas ministradas na Faculdade de Assis (OLIVEIRA, 2010, p. 51).
É importante destacar que, como crítico e estudioso atuante na Universidade de São Paulo (USP), o professor Antônio Candido, trouxe várias contribuições no âmbito dos estudos literários, sendo o responsável também por transformar, no ano de 1961, o Departamento de Teoria Literária, da Universidade de São Paulo, em Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, assegurando a partir da criação dessa disciplina, o espaço necessário que a Literatura Comparada necessitava para se destacar nos meios acadêmicos (OLIVEIRA, 2010). Ainda segundo esse autor,
[...] as atividades em literatura comparada começaram a se manifestar regularmente nas universidades brasileiras [...]. Mas faltava algo importante, e eu diria decisivo: a consciência profissional específica, que se fortalece pelo intercâmbio, os periódicos especializados e a vida associativa, marcada por encontros, simpósios e congressos. Foi o que começou com a Associação Brasileira de Literatura Comparada, que equivale a uma certidão de maioridade da disciplina no Brasil. [...] A partir de agora ela poderá assumir o papel que lhe cabe num país caracterizado pelo cruzamento intenso das culturas, como é o Brasil (CANDIDO, 1993, p. 216, apud OLIVEIRA, 2010, p. 57).
A partir dessas considerações, é importante frisar que para a propagação e o fortalecimento da Literatura Comparada em território brasileiro, Antônio Candido, esteve à frente dessa linha de estudo, proporcionando amplas discussões, e fortalecendo os estudos relacionados à Teoria Literária.
Compreendemos que, foi a partir da autonomia da disciplina, na grade curricular da Universidade de São Paulo, e a criação da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), que oficialmente define-se como campo de estudo e investigação no território brasileiro. Depreendemos que a literatura Comparada, fixou-se em solo brasileiro, trazendo valorosas contribuições para a sala de aula. Segundo Remak (1994, p. 175, apud FIGUEIREDO, 2013, p. 33):
A literatura comparada é o estudo da literatura além das fronteiras de um país específico e o estudo das relações entre, por um lado, a literatura, e, por outro, diferentes áreas do conhecimento e da crença, tais como as artes [...], a filosofia, a história, as ciências, a religião etc. Em suma, é a comparação de uma literatura com outra ou outras e a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana.
Nesse sentido, a literatura comparada relaciona-se não pelo procedimento em si, mas porque, como recurso analítico e interpretativo, a comparação possibilita a esse tipo de estudo, uma exploração adequada de seus campos de trabalho, e o alcance dos objetivos a que se propõe, favorecendo não apenas os encontros ou divergências de conceitos ou temas, mas ampliando as possíveis interpretações e compreensão, a que a análise poderá suscitar.
De acordo com a pesquisadora Nitrini (1997, p. 168): “O conceito de literatura comparada explicita-se, no livro de Paul Van Tiegghem como uma ligação entre a literatura comparada e o estudo das influências”. É importante destacar também, o estudo que busca essa relação da literatura com outras formas de manifestações artisticas ou até mesmo conteúdos temáticos, estilo ou outros pontos previamente selecionados, fazendo parte do domínio da recepção, mesmo não estando diretamente ligado com esse campo de estudo da nossa literatura.
Atualmente, a literatura comparada é vista, como uma forma de confrontar os textos literários em sua interação ou relação com outros textos, literários ou não, bem como, com outras formas de expressão cultural e artística (CARVALHAL, 2006). Assim, os estudos que buscam ancorar-se na comparação, deixou de se
restringir apenas a aspectos isolados da literatura ou da relação entre autores e obras, mas buscou contribuir para a reflexão crítica e teórica, ampliando assim, a visão de quem compara essas obras literárias por meio do estudo comparativo ou método comparado.
É importante frisar que o método comparativo, quanto ao seu objeto de análise, pode ser considerado plural na significação de sentidos, ficando ainda mais dificil para quem busca definí-lo e restringí-lo, uma vez que essa limitação impossibilita uma metodologia específica, devido ao seu caráter plurissignificativo e amplo, oportunizando cada vez mais diálogos interculturais por meio da literatura.
Dessa forma, no contexto das discussões da Literatura Comparada, essa esteve ligada historicamente, ao ato de relacionar e comparar obras literárias de culturas diferentes, ou não, temas, posicionamentos, autores, favorecendo assim o vinculo intercultural, uma vez que em se tratando de análise de obras de países diferentes, não podemos esquecer que o fato cultural é um ponto significativo para encontrarmos ou descobrirmos questões a serem enaltecidas no estudo.
Para tanto, nossa investigação consiste em analisar os pontos semelhantes e distintos, a partir do lúdico presente nas obras A menina e o Vento, de Maria Clara Machado (2009), e Cuentos de Vereda, de Ester Trozzo (2004). No tópico a seguir, apresentaremos brevemente as obras estudadas para posteriormente identificarmos a ludicidade ou o jogo lúdico, nos excertos extraídos dos dois textos.