CAPÍTULO II CATIVOS E CAMARADAS
2. A LITERATURA DE TAUNAY
Inocência, o romance regionalista de Alfredo d’Escragnolle Taunay, publicado em 1872, principia com a visão dos vastos cerrados do sudeste da província de Mato Grosso, atualmente Mato Grosso do Sul. A partir das imediações do povoado de Santana do Paranaíba, confluência dos caminhos por terra de quem vinha naquela época dos territórios de Goiás, Minas Gerais e São Paulo, esta é a primeira imagem sugerida pelo romancista, a do viajante do século XIX a penetrar gradativamente a natureza exuberante. Por algumas dezenas de léguas, ainda próximo do rio Paranaíba, o viajante podia testemunhar a construção de habitações que iam escasseando até o caminhar de “dias inteiros sem se ver morada nem gente”, para daí adentrar o
chamado sert~o “bruto” 57. Os personagens principais da trama são também
sugestivos. O fazendeiro viúvo Pereira e sua filha Inocência, prometida em casamento ao vaqueiro Manecão, representariam os códigos e costumes rígidos do sertão. Já Cirino, jovem farmacêutico prático que oferece tratamento aos enfermos daqueles rincões, significaria, no papel do moço de fora (criado nas províncias de São Paulo e Minas Gerais), o contraponto a estes valores, levando adiante um romance proibido que viria a alterar de maneira profunda o equilíbrio daquele lugar. A outra figura estrangeira, a do naturalista alemão Meyer, em missão científica patrocinada pelo seu país, poderia ser entendida como um espelho do olhar de fora, buscando a
56
Ibidem, p. 368
compreensão de uma natureza a ser explorada conforme os referenciais europeus de progresso e civilização daquela época.
É, no entanto, pela breve descrição de alguns dos personagens secundários e de minúcias do cotidiano daquelas vidas que a narrativa de Taunay nos fornece detalhes a respeito das representações sobre a música que pretendemos estudar. Em uma das cenas, os camaradas de Cirino, acomodados em um rancho da propriedade de Pereira, embalam o seu descanso do meio-dia com “monótonas modulações de
umas chulas e modinhas, cantadas ao som da viola de três cordas” 58. Teria o
instrumento acompanhador destas modas e chulas algum parentesco com as violas- de-cocho de hoje, empunhadas pelos ribeirinhos da região? Possuiriam as cantorias dos camaradas de Cirino algum ponto de contato com gêneros musicais hoje considerados típicos de Mato Grosso? Couto Magalhães é um dos folcloristas desta mesma época a mencionar uma viola de três cordas nas mãos de indígenas que cultivavam o Cururu e o Cateretê, prática certamente tomada dos colonos do centro-
sul brasileiro59. Sabe-se também, graças a pesquisas de campo realizadas na década
de 1940 por Maynard Araújo, que na região paulista do médio Tietê o Cururu era acompanhado por uma viola bastante rústica, conhecida por cocho, juntamente com os demais instrumentos que são ainda hoje empregados nas práticas remanescentes
do gênero paulista60. Estes seriam indícios, nas práticas do cancioneiro rural
cultivado à época no centro-sul brasileiro, do emprego de uma variedade de instrumentos cordofones que eram aparentados das violas de uso mais comum.
Figura 6: instrumento de uma cordaobservado por Maynard Araújo na década de 1940, também chamado “cocho”
Fonte: Araújo, 1973
58
Ibidem, p. 73.
59
COUTO DE MAGALHÃES. Anchieta e as raças e as línguas indígenas. Op. cit., p. 23.
60
Em 1947, o folclorista piracicabano registrou, no município de Tietê, o uso de um instrumento de nome
cocho feito de uma só corda (figura 6). No mesmo ano, teve notícias da existência, em uma fazenda do
município de Pereiras, próximo a Tatuí, de um cocho de quatro cordas e com a caixa de ressonância e braço escavados a partir de uma única peça de madeira. As similaridades no nome, formato e construção destes instrumentos com as violas-de-cocho mato-grossenses atestam a ligação histórica das práticas do Cururu de São Paulo com as de Mato Grosso. Cf. ARAÚJO, Cururu rural. Op. cit., p. 36 e 58.
Do mesmo romance de Taunay destacaríamos também a cena em que “umas mulheres com uns homens”, de passagem pela propriedade de Pereira, são recebidos com reserva pelo fazendeiro. A filha Inocência pergunta ao pai a razão para não serem convidadas a ocupar as dependências da casa onde se sentavam as famílias, ao que Pereira responde: “N~o, Nocência, s~o mulheres perdidas, de vida alegre” [...]. Em seguida, a filha reconhece um tanto envergonhada que as coitadas “caíam tontas no
chão... pitavam e cantavam muito alto com modos t~o feios [...]” 61. Em certo sentido,
mesmo levando em conta os padrões de moralidade há muito implantados pela colonização, a passagem representa a rejeição daquela sociedade aos excessos relativos às suas formas antigas de lazer, demonstrando o modo como uma parte
destes costumes passara a ser condenada pelos códigos de conduta da época. A
respeito destes juízos, Luiza Volpato comenta que os ideais de progresso da segunda metade do século XIX, baseados em modelos adotados no centro-sul do País, fizeram com que os modos de vida cultivados pelas camadas populares da região passassem a ser considerados “manifestações de baixo grau de civilizaç~o”, sendo vários os casos de repressão a elas pelo poder local. Estes novos parâmetros de sociabilidade alteraram, inclusive, as relações dos homens pobres com o trabalho, uma vez que
todos deveriam cultivar bons modos para não cair na marginalidade62. Por outro lado,
o prestígio das festas junto ao povo era garantido justamente pela animação da dança e pelos gestos de devoção religiosa expressos em folguedos como o do Cururu. Tanto que Manecão, em outra cena do livro, discute os preparativos do seu casamento
lembrando que n~o poder| faltar na festa “um cururu valente” 63.
Uma obra com personagens de ficção como Inocência, mesmo quando se propõe a traçar um retrato acurado da realidade vivida, está sujeita evidentemente a certa dose de invenção por parte do seu autor, podendo até significar uma junção aleatória de cenas e circunstâncias vividas em cenários distintos. Mas estas não
seriam razões suficientes para refutá-la como fonte para o conhecimento do tema,
uma vez que estariam em conformidade com o modelo de investigação descrito por Ginzburg, que leva o historiador, através de indícios indiretos (como mitos, emblemas
61
Ibidem, p. 100.
62
VOLPATO, Op. cit., p. 229.
e sinais), a se alimentar de rastros e de outros elementos imponderáveis, à maneira do psicanalista que chega a um diagnóstico a partir dos sintomas de comportamento de seu paciente64.
Todas as referências do romance de Taunay a práticas musicais, a costumes e a festejos locais são bastante coerentes com o que se sabe a respeito da vida rural e dos povoados da parte sul de Mato Grosso, no século XIX. Isto se deve principalmente ao fato de o autor ter travado contato direto com aquela realidade, integrando como
segundo-tenentea comissão de engenheiros das tropas brasileiras que combateram
na Guerra do Paraguai. Taunay foi um dos protagonistas de um dos episódios mais dramáticos do conflito, a Retirada da Laguna, quando a coluna comandada pelo coronel Carlos Morais Camisão – partindo do povoado de Miranda, em janeiro de
1867 – penetrou o território paraguaio e sofreu severos ataques das forças inimigas65.