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CAPÍTULO 1 – LITERATURA: UM MEIO DE TRANSFORMAÇÃO

1.3 O QUE PODE A LITERATURA

1.3.3 A literatura deve ser experimentada

Tzvetan Todorov também fala sobre o poder da literatura, no livro A literatura em perigo (2010). O autor expressa o seu receio de que a literatura seja reduzida a um mero instrumento de análise formal e por essa razão se torne simplesmente uma disciplina científica. O perigo para o qual ele alerta está no modo como os estudantes são apresentados ao texto literário, pois o texto é visto indiretamente através de uma crítica, teoria ou de história literária, e não através da leitura das obras. No texto de apresentação do livro, Caio Meira compara o receio de Todorov ao da filosofia socrática que acusava a arte poética de subversiva por causa de sua potência encantatória. “Para Todorov, o perigo que hoje ronda a literatura é o oposto: o de não ter poder algum, o de não mais participar da formação cultural do indivíduo, do cidadão” (MEIRA in TODOROV, 2010, p.8).

Falar sobre a literatura formalmente, sem mesmo ter experimentado o seu potencial transformador, se torna um discurso vazio. E talvez, um leitor sem formação acadêmica seria mais bem-sucedido ao transmitir suas impressões sobre uma obra, do que um professor que cumpre sua função burocraticamente. Não é de se estranhar quando os estudantes classificam as aulas de literatura como chatas, entediantes. E por associarem as aulas de literatura aos livros, também acreditam que a leitura seja uma atividade monótona. As aulas que deveriam ser um momento para despertar mais e novos leitores acabam por desmotivar os estudantes.

Todorov (2010) discute pontos relevantes sobre o poder da literatura no capítulo O que pode a literatura? Mais do que apresentar teorias, ele exemplifica o efeito que a literatura tem na sua própria vida e na vida de outras pessoas. Ele começa relatando a experiência do

filósofo e economista inglês John Stuart Mill que viveu no século XIX. Na sua Autobiografia publicada logo após sua morte em 1873, ele narra uma profunda depressão da qual foi vítima aos 20 anos. Esse momento de crise se prolonga por dois anos. Durante esse tempo, Mill se torna ‘insensível a toda alegria, assim como a toda sensação agradável, num desses mal- estares em que tudo o que em outras ocasiões proporciona prazer se torna insípido e indiferente’. Um livro que Mill lê por acaso teria tido um papel particular na sua cura. Trata- se da coletânea de poemas de Wordsworth. Neles Mill teria encontrado a expressão de seus próprios sentimentos sublimados pela beleza dos versos. ‘Eles me pareceram ser a fonte na qual eu podia buscar a alegria interior, os prazeres da simpatia e da imaginação que todos os seres humanos podem compartilhar’ [...] (MILL apud TODOROV, 2010, p.73/74).

Mill descobre na literatura que não está sozinho, pois ele encontra nas palavras de Wordsworth uma nova forma de enxergar a si mesmo e o mundo à sua volta. ‘Wordsworth me ensinou tudo isso não somente sem me desviar da consideração dos sentimentos cotidianos e do destino comum da humanidade, mas também duplicando o interesse que eu trazia por eles’ (MILL apud TODOROV, 2010, p.74). Nas palavras de Mill pode-se perceber o poder humanizador da literatura, pois ela consegue tirar o homem do seu egocentrismo e fazer com que ele se interesse pelas questões da humanidade.

O segundo relato apresentado por Todorov fala do drama vivido por Charlotte Delbo na primeira metade do século XX. Charlotte, ainda jovem foi presa em Paris por ter conspirado contra o invasor alemão. Na prisão, isolada e sem acesso à biblioteca, ela consegue um livro de uma detenta da cela de baixo. Ela tece uma corda com fios retirados do seu cobertor e faz subir um livro pela janela. Sua solidão é interrompida quando ela encontra o herói do romance A Cartuxa de Parma de Sthendal. Fabrice Del Dongo se torna seu companheiro de cela e a ajuda a passar por esse momento de crise.

Alguns meses depois Charlotte é conduzida no vagão de animais a Auschwitz. No campo de concentração ela encontra outras vozes na literatura que a ajudam a suportar os horrores daquele lugar. Quando ela retorna à França, ela sofre para voltar à vida. “[...] a luz cegante de Auschwitz varreu toda ilusão, proibiu toda imaginação, declarou falsos os rostos e os livros... até o dia em que Alceste retorna e a arrebata com sua palavra” (TODOROV, 2010, p.75). Alceste, personagem da peça O Misantropo de Molière, teria ajudado Charlotte a descobrir que as personagens dos livros podem se tornar companheiras confiáveis. Ela escreve que as criaturas do poeta são mais verdadeiras que as criaturas de carne e osso, porque são inesgotáveis: ‘É por essa razão que elas são minhas amigas, minhas companheiras, aquelas

graças às quais estamos ligados a outros seres humanos, na cadeia dos seres e na cadeia da história’ (DELBO apud TODOROV, 2010, p.75).

Todorov declara que embora ele não tenha vivido nada tão dramático quanto Charlotte Delbo, tampouco tenha conhecido as agruras da depressão descritas por John Stuart Mill, ele não pode dispensar as palavras dos poetas e as narrativas dos romancistas. “Elas me permitem dar forma aos sentimentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida. Elas me fazem sonhar, tremer de inquietude ou me desesperar” (TODOROV, 2010, p.75). A literatura precisa ser sentida, pois somente quando ela age através dos sentimentos é que ela cumpre seu papel vital de fazer o indivíduo viver melhor. Segundo Todorov, a literatura pode muito:

Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. (2010, p.76).

Na visão de Todorov, o leitor comum que procura nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, teria razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou apenas pode ensinar o desespero. A literatura, assim como a filosofia e as ciências humanas, é pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que se vive. O que a difere é que ela procura compreender a experiência humana. Ela ensina sobre a condição humana através de experiências singulares, enquanto a filosofia maneja conceitos. “Uma preserva a riqueza e a diversidade do vivido, e a outra favorece a abstração, o que lhe permite formular leis gerais” (TODOROV, 2010, p.77).

Enquanto as obras literárias podem ser lidas e compreendidas por inúmeros leitores, de épocas e culturas muito diferentes, o texto filosófico seria acessível apenas a uma minoria que costuma frequentar esse tipo de texto. Os textos filosóficos e científicos não têm o mesmo potencial simbólico que os textos literários. Além disso, eles podem se apresentar a um indivíduo como um conjunto de dogmas aos quais ele deveria seguir. “São os lugares-comuns de uma época, as ideias preconcebidas que compõem a opinião pública, os hábitos de pensamento, as banalidades e os estereótipos, aos quais podemos também chamar de “ideologia dominante”, preconceitos ou clichês” (TODOROV, 2010, p.79).

Os textos literários ajudariam o homem a aprender a pensar por si mesmo, ao invés de se contentar com as visões do mundo previamente prontas. O autor vê o livro como um meio para que o leitor possa deixar as falsas evidências e libertar seu espírito.

A literatura tem um papel particular a cumprir nesse caso: diferentemente dos discursos religiosos, morais ou políticos, ela não formula um sistema de preceitos; por essa razão, escapa às censuras que se exercem sobre as teses formuladas de forma literal (TODOROV, 2010, p.80).

Por fim, Todorov ressalta a necessidade de estabelecer uma relação entre o mundo e a literatura. A humanidade do autor se revela à humanidade do leitor. Nesse encontro, há a possibilidade de pensar e sentir adotando o ponto de vista de outros, pessoas reais ou personagens literárias. Por esse motivo a leitura deve ser encorajada por todos os meios, inclusive a dos livros que o crítico profissional considera com condescendência, se não com desprezo. O autor diz que os romances populares teriam levado milhões de adolescentes ao hábito da leitura, mas sobretudo lhes possibilitaram a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que as leituras posteriores se encarregarão de tornar mais complexas e nuançadas.

Cândido (2004), Petit (2009) e Todorov (2010) compartilham uma mesma linha de pensamento, pois todos eles entendem que a literatura, mais do que uma fonte de informação ou de entretenimento, atua no inconsciente do leitor. Esse processo de construção de sentido, experimentado através de uma forma narrativa organizada, faz com que o leitor se organize interiormente. A experiência simbólica vivida através da literatura e o contato com a linguagem escrita desenvolveriam sua capacidade de expressão oral e escrita. A literatura devolveria ao leitor sua voz, aquela que por alguma experiência traumática ele perdeu um dia, permitindo que ele novamente possa falar por si.

A ideia de que a literatura possa modificar identitariamente o indivíduo que lê, fazendo com que ele desenvolva uma voz própria, é o pensamento condutor dessa pesquisa. O acesso ao texto literário pode ser uma forma de inclusão social, dando àqueles que estão à margem do mundo de produção cultural uma oportunidade de inserção. Por mais que se trate de um processo longo e lento, ele é perfeitamente possível. É o que se pretende provar a partir da análise das trajetórias de Toni Morrison e Carolina Maria de Jesus como escritoras. Suas vozes autorais seriam o resultado de um processo longo e contínuo de contato com a leitura. Elas adquiriram linguagem não apenas para falar de si, mas também para refletir e revelar o contexto social no qual viviam.