A literatura é uma porta para variados mundos. Você sabe que cada leitura de um texto, particularmente do literário, é
única e irrepetível: um bom leitor cada vez que relê um mesmo tex- to enxerga nele aspectos não percebidos na leitura anterior, o que o desafia a construir uma nova leitura (entenda-se: interpretação), não mais a que fizera quando lera a mesma obra anteriormente.
Os mundos que a literatura cria por meio das várias lei- turas que dela é possível fazer não se diluem na última página do livro, nem na última frase da canção, menos ainda na derradeira fala de uma representação. Enfim, não se esvai na última tela do hipertexto. Esses mundos, ao contrário, permanecem no leitor, in- corporados como vivência, pegadas de sua história de leitura (isso vale para qualquer leitor).
Lajolo (2001, p. 45), com a propriedade do estudioso da literatura, afirma que “[...] a literatura dá existência ao que, sem ela, ficaria no caos do inominado e, consequentemente, do não existente para cada um. Mas é fundamental – ao mesmo tempo em que a lite- ratura cria, ela também aponta para o provisório da criação”.
Para exemplificar essa afirmação, a autora resgata o poe- ma Canção do exílio, de Gonçalves Dias, e destaca as palavras “palmeiras” e “sabiá”: esses vocábulos, no contexto do poema, evocam ou constroem a palmeira e o sabiá específicos do leitor. Eles podem não ter existido na realidade material, uma vez que sua existência é resultado exclusivo da escrita e da leitura do poe- ma. Você sabe por que isso acontece? Justamente porque não podemos pedir à literatura provas de suas afirmações: os universos criados por ela, por meio da relação com o leitor, têm identidade apenas literária, uma vez que são produtos da interação entre es- crita e leitura.
Parece complicado, mas o que queremos dizer com isso é que as histórias, que a literatura cria, não precisam ver verda- deiras, nem inverídicas: não é essa a preocupação do literário, nem de quem trabalha com essa arte. Literatura é ficção, ima- ginação, recriação da realidade, organizada segundo uma lógica interna. À Literatura não pedimos provas, como costumamos fazer com a História.
LÍNGUA(GEM), TEXTUALIDADE E LITERATURA INFANTIL CONCEPÇÕES E PRÁTICAS
Caro(a) leitor(a), talvez você esteja se pergun- tando: os mundos criados pelo texto literário vêm de onde? Quais são suas fontes inspirado- ras? Considerando o que afirmamos anterior- mente, essas perguntas são muito pertinen- tes. Mas veja: quando falamos que literatura é recriação da realidade, estamos afirmando que o mundo plasmado por ela, mesmo que seja profundamente simbólico, nasce da ex- periência do escritor, de sua vivência numa determinada realidade histórico-social.
O universo que autor e leitor compartilham, a partir da cria- ção do primeiro e da recriação do segundo, é um universo que cor- responde a uma síntese – intuitiva ou racional, simbólica ou realista – do aqui e agora da leitura, ainda que o aqui e o agora do leitor não coincidam com o aqui e agora do escritor (LAJOLO, 2001, p.47).
Enfim, o que a literatura fala não é exatamente o que é, mas o que poderia ter sido. Se nos reportarmos a Aristóteles, por exemplo, veremos que, para ele, o mundo da literatura é o mundo do possível: enquanto a história narrava o que realmente havia acontecido, a literatura se encarregava do que poderia acontecer. Foi por isso que dissemos anteriormente que não podemos pedir à literatura provas do que ela diz.
Agora, o que é mais apaixonante nessa história é que “[...] embora comprometida com o mundo do possível e não com o mundo real, a criação literária nasce de uma imaginação anco- rada na realidade.” (LAJOLO, 2001, p. 47). Lembra-se que disse- mos que a literatura é a recriação do real, reorganizado segundo uma lógica interna? Pois é... Quando dissemos isso, estávamos nos referindo a essa ancoragem da arte literária na realidade e sugerindo que tudo, tanto na literatura como nas outras modali- dades de arte, tem um fundo de verdade. Conforme já sabemos,
o compromisso da literatura é com o mundo do possível. Isso, no entanto, não impede de fazer do presente seu ponto de partida ou seu porto de chegada.
Na criação literária, além dos aspectos da realidade cir- cundante compartilhados por autores e leitores, concorre outro fator não menos importante: o diálogo com a chamada tradição da arte literária, ou seja, tudo o que foi construído em um passado próximo e remoto nessa arte. Grosso modo, é como se a literatu- ra fosse uma constante atualização de textos anteriores, por meio da qual passado e presente, juntos, passam a formar um grande e único texto literário.
Refletindo...
Pelo que expusemos até aqui, você já deve ter percebido que a concepção de literatura não é única: existem concepções e elas variam de acordo com os princípios ideológicos e estéticos do momento sócio-histórico em que foi construída.
Por isso, temos a concepção da Antigui- dade, da Idade Média, do Renascimento, da Con- temporaneidade, cada uma refletindo os padrões da sociedade que serviu de âncora para a existência da literatura. A literatura romântica, por exemplo, não tem o mesmo perfil da literatura neoclássica. Sabe por quê? Porque está comprometida com os va- lores da aristocracia, classe hegemônica no momento em que essa literatura foi produzida, enquanto aquela reflete valores, interesses e preocupações da burguesia, que ascendeu ao comando da socie- dade ocidental com a Revolução Francesa de 1789.
A literatura contemporânea, por sua vez difere das duas primeiras, porque, entre outras causas é resultante da fragmenta- ção, instabilidade e transitoriedade dos valores, paradigmas e prin- cípios que norteiam o mundo em que vivemos. É grande a produ- ção de poesias que falam de si e do fazer poético, de contos que narram a história do contista, enfim, é uma literatura predisposta a falar de si mesma, como nunca aconteceu na história.
LÍNGUA(GEM), TEXTUALIDADE E LITERATURA INFANTIL CONCEPÇÕES E PRÁTICAS
Portanto, não podemos esperar que Romantismo, Neo- classicismo e Contemporaneidade apresentem as mesmas carac- terísticas e explorem os mesmos temas, privilegiem os mesmos gêneros e muito menos que a concepção de literatura de cada um desses momentos estéticos seja a mesma.
Caro(a) leitor(a), compreendeu ou ficou mais confuso? Se não compreendeu, releia o texto: estudo é isto – um ir e vir constante para des- vendar e assimilar ideias e conceitos.