CONCEIÇÃO Nº 75-77 EM LISBOA
3. O CONJUNTO DE MATERIAIS PÉTREOS EXUMADO NAS INTERVENÇÕES ARQUEOLÓGICAS NA RUA DA CON CEIÇÃO Nº 75-77: ABORDAGEM METODOLÓGICA
3.2. A LITOLOGIA DAS PEÇAS CLASSIFICÁVEIS
3.2.3. A LITOLOGIA DAS FORMAS DE ENCAIXE/COLAGEM
As peças com formas de encaixe/colagem são em número de seis maioritariamente em mármore branco venado de cinzento. O lioz rosa está representado por uma peça (Fig. 9).
Fig. 8 As curvaturas côncava e convexa características da ducina, uma moldura romana numa das peças em estudo (nº 1122): A- vista da face anterior e B - perfil. C - A ducina no pódio do templo romano de Évora. Fotografia Filomena Limão (2009).
Uma das peças em estudo (nº 980) encontra-se ilustrada na Figura 10. Pode observar-se que é uma placa de revesti- mento/ opus sectile em mármore branco venado de cinzento com 2,6 cm de espessura em que um dos lados tem um orifício com 0,5 cm de diâmetro e uma profundidade máxima de 2,8 cm. O orifício poderia receber uma peça metálica para se ajustar às restantes.
4. CONCLUSÕES
A abordagem metodológica aos materiais pétreos exumados nas sondagens feitas ao topo do criptopórtico de Lisboa através do edifício nº 75-77 da Rua da Conceição leva-nos ao modo romano de ocupação do espaço urbano, de gestão dos edifícios, de opções arquitectónicas e decorativas. O engenho construtivo romano aplicou-se à produção de ele- mentos decorativos para os quais era preciso extrair matéria-prima, transportá-la a longas distâncias se necessário fosse e trabalhá-la. A extração e produção de elementos decorativos a partir de rochas ornamentais é um traço iden- tificador da cultura construtiva romana.
A observação deste conjunto de materiais permite-nos mergulhar no conhecimento e aplicação do revestimento pétreo na construção romana e reconhecer exemplos utilizados nos pavimentos e paredes. Alguns fragmentos vão mais longe e através das suas molduras podem completar vazios decorativos. As suas formas e aplicação na construção abordam o sentido decorativo do mundo romano e permitem um avanço no seu conhecimento à luz de uma utilização crítica da fonte teórica por excelência desta temática, Vitrúvio.
Ao longo do trabalho, procedeu-se à análise macroscópica dos elementos pétreos resultantes da intervenção ar- queológica. Até ao momento não foi possível proceder a análises petrográficas nem petrológicas, que nos permitiriam aproximar das origens das rochas utilizadas nos revestimentos do (s) edifício (s) suportado (s) pelo criptopórtico. Contudo, podemos avançar a origem das peças talhadas em lioz, como sendo do distrito de Lisboa, provindo dos Fig. 10 Um exemplo de forma de encaixe com orifício para uma possível peça metálica. Peça em estudo (nº 980).
limites da actual cidade, pois existem vestígios de exploração desde há muitos séculos. O registo escrito mais antigo reporta-se ao século XVII, da autoria de dois naturalistas alemães, Rosenmüllers e Tilesius, que visitaram o vale de Alcântara em Lisboa. Nessa época, documentaram a existência de duas grutas, de dimensão considerável, onde eram explorados calcários, “subterraneamente” e descrevem assim a gruta grande, “calcários mais os menos solidificados, com padrão mármore em várias cores […], encontrando-se escombros de calcário, ágata e sílex em formas de peque- nos membros.” (Rosenmüllers e Tilesius, 1799, p. 118 e 121, apud Leitão et al., 2017, p. 65 e 66). Estes calcários são datados do Cenomaniano superior, Formação de Bica, (Pais et al., 2006, p. 9). Outros locais de origem destes liozes são os concelhos limítrofes de Lisboa, por exemplo Cascais, como foi referido na Notícia Explicativa da Carta Geológica de Cascais, folha 34C, onde é indicada a existência de calcários com Rudistas, do Cenomaniano superior e menciona a exploração dos mesmos na região (Ramalho et al., 2001, p. 31 e 71). O concelho de Sintra é igualmente conhecido pela abundante exploração de rochas ornamentais. Segundo a Carta Geológica de Sintra, folha 34A, é na região de Pero Pinheiro que se situam os afloramentos de idade cretácica (Cenomaniano superior) onde foram exploradas, desde a Antiguidade, rochas ornamentais como o lioz. (Ramalho et al., 1993, p. 57). No caso de Loures, aflora o Cenomaniano superior, Formação de Bica, calcários com rudistas, onde no passado existiram explorações de calcários ornamen- tais e industriais em inúmeros lugares indicados na Carta Geológica de Loures, folha 34B, essencialmente na zona de Montemor e Vialonga, comercializados sob a designação de lioz7 (Manuppella et al., 1964, p. 22 e 43). Com base no conhecimento do território de diagénese do lioz, do Cenomaniano superior, podemos apontar com segurança o distrito de Lisboa como o local de origem do lioz encontrado nas rochas ornamentais exumadas na intervenção arqueológica de 2015, na Rua da Conceição nº 75-77.
A abordagem metodológica que delineámos faz parte de um processo de trabalho que se encontra ainda no início mas que esperamos venha a fornecer uma visão o mais completa possível da decoração do edificado que estaria sobre o criptopórtico de Olisipo compondo a frente de rio. Um melhor conhecimento da Lisboa romana com recurso à visua- lização tridimensional da arquitectura e decoração é um dos melhores tributos que se pode prestar aos lisboetas e a todos os que usufruem da cidade.
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