Capítulo 5. Trabalho empírico
5.3 A Lovers & Lollypops
“Editora e produtora portuense que conta no seu catálogo com mais de 60 edições. Mãe e pai dos festivais Milhões de Festa (Barcelos) e 20 XX Vinte” (Lovers & Lollypops, 2015).
Seguindo Joaquim Durães (co-fundador da Lovers & Lollypops, 32 anos), é “uma casa desarrumada mas confortável” e só assinam com bandas com as quais se dão bem “nos copos” (Castanho, 2012).
Criada em 2005 pelas mãos de Joaquim Durães e Márcio Laranjeira, é muito mais do que uma editora, apostando em artistas que não têm acesso ao circuito comercial e em eventos variados que têm como objetivo a promoção cultural. Conta com diversos festivais desde o Milhões de Festa (evento já marcante organizado em Barcelos), até ao 20 XX Vinte, o TREMOR (em São Miguel), o TRIPS à moda do Porto e o Taina fest e assume a curadoria de vários espaços, desde o Lounge, em Lisboa, com o Isto não é uma festa indie, até ao Canhoto no Porto.
Está incubada no polo das indústrias criativas da UPTEC, desde 2012, e já foi nomeada para os Portugal Festival Awards (prémios que premeiam o que de melhor se faz em termos de festivais de música no país) na categoria de melhor promotora, para
além de os festivais que promove também já terem sido nomeados para outros prémios várias vezes.
Movem-se maioritariamente no mercado nacional, e entre os seus principais clientes contam com instituições de envergadura como a Nos, a RTP, Serralves, a Câmara Municipal do Porto e a Câmara Municipal de Barcelos, desenvolvem também diversas parcerias, nomeadamente com o Atelier Bolos Quentes, com a VICE, com o Atelier Designers, entre outros (empresas também incubadas na UPTEC).
Na sua equipa permanente, atualmente, contam com quatro elementos, três deles do sexo masculino e um do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 27 e os 35 anos, todos com frequência de ensino universitário nas áreas de design, produção e comunicação. Estes dedicam-se à gestão da empresa, relação com o cliente, produção e comunicação.
Movem-se, dizem, pelo amor à música o que é evidenciado por diversas iniciativas que adotam, desde a disponibilização, para download gratuito, de discos, até à criação do passe social, que consiste na venda de um passe para vários concertos, mas a um preço acessível para o público comum.
Num horizonte de três anos procuram estabilizar a sua atividade atual, aumentar a sua exportação e abrir novos mercados.
É uma casa assumidamente digital, na medida em que se serve destas novas ferramentas na execução de todos os outputs que produz, desde a produção, à promoção dos seus eventos e bandas até à comercialização dos discos que produz. A Lover & Lollypops nasceu já num universo digital e o campo musical é por natureza um campo em constante transformação, não se pode assumir que é constante o que acontece hoje e o que irá acontecer no futuro.
São defensores de que “a mudança (digital) nem é boa nem é má, houve uma altura em que foi bastante boa e em que facilitou bastante – se calhar muita da música que nós conhecemos hoje não a conhecíamos se não fosse esse método de divulgação” (Entrevista 551). Então, a relação com estas novas tecnologias é boa, vêem as transformações como uma oportunidade, contudo não têm uma visão limitada ou simplista e assumem que estas novas ferramentas “são ótimas quando estamos a trabalhar alguém e esse artista entra nesse circuito e as coisas correm bem, mas já não é
assim tão bom quando as coisas correm menos bem e o artista não entra no circuito” (idem).
Na realidade, hoje em dia, o consumo é tanto e tão rápido que se calhar o que conta não é tanto a música, mas mais a máquina de promoção, as pessoas já não têm tempo para ouvir música (Entrevista 5).
Utilizam uma estratégia de promoção mista, tentando encontrar um equilíbrio entre as ferramentas do marketing digital e as do marketing tradicional, mas adequando tanto as ferramentas como a linguagem a cada evento/conteúdo em concreto. Não há uma estratégia fixa, utilizam o site, o Twitter, o Instagram e o Facebook.
“Nós tentamos que os nossos conteúdos falem uma linguagem que não seja demasiado empresarial, é uma empresa que surgiu do à vontade com as pessoas e queremos que esse à vontade continue” (Entrevista 5). O importante é alcançar toda a gente e criar uma relação de proximidade com o público.
Têm uma pessoa encarregue em exclusivo desta componente de promoção e comunicação, que tem em atenção, para além da linguagem, os restantes conteúdos partilhados, apostando nas imagens que têm sempre que captar e apelar.
No Facebook, em particular, “sem usares patrocínios é praticamente impossível” (Entrevista 5). Então, são utilizadas as opções de patrocínio de anúncios do Facebook, uma vez que esta é considerada a única forma de promoção eficiente, é também dada atenção à segmentação do público-alvo, apostando-se nos utilizadores que se encontram entre os 16 e 45 anos e que gostem de música, não sendo feita qualquer discriminação sexual e depois adequando determinadas características aos eventos que se pretendem promover.
Em relação aos públicos, admite-se a notória diferença entre o público real e o público online, mais claramente do que encontráramos no Maus Hábitos: “há muita gente que se mostra comprometida nas redes sociais mas que depois não aparece, é fácil ter 400 “vou” num evento e depois só aparecerem 50 pessoas, porque “não custa nada por um vou”, é só um “vou”, não há compromisso, não existe troca nenhuma, não se pagou nada, é a mesma questão presente no que se refere à partilha gratuita de conteúdos digitais” (Entrevista 5).
Contudo, há que salientar que o Facebook é visto como uma ferramenta muito útil e eficiente, na medida em que permite que o público se manifeste e que gere o boca-
a-boca, que é uma componente fulcral, na medida em que “vivemos e crescemos do boca-a-boca” (Entrevista 5). O boca-a-boca é a forma de promoção mais importante e mais eficiente, seja na vertente tradicional ou na vertente eletrónica, e é particularmente efetiva entre o público mais assíduo que é aquele que partilha, que fala e que leva os amigos (idem). “O boca-a-boca acaba por ser a melhor forma de publicidade que se pode ter” (Entrevista 5) e o Facebook veio potenciar isso.
Todavia, o Facebook é uma ferramenta que mudou bastante ao longo dos anos. Na realidade, dizem-nos, está a perder peso, continua a ser importante mas já não é tão efetiva, o engagement é menor e é difícil chegar a toda a gente e promover de forma eficiente muitos eventos (sendo partilhados vários eventos por dia, a atenção que recai sobre eles acaba por não ser a devida, “uma página que (num dia) faça quatro posts, três deles não chegam a ninguém” (Entrevista 5)). Então, está a trabalhar-se em novas formas de promoção alternativas.
Em síntese, esta auscultação mostra-nos um lado mais cético das vantagens dos meios de comunicação digitais. Enquanto o Maus Hábitos fica marcado por uma postura mais entusiasta, a Lovers & Lollypops apresenta-se mais critica, talvez por este ser o seu ambiente natural e por já sentir o seu âmbito de atuação neste (ambiente) um tanto ao quanto saturado.