3. Nas margens do tempo
4.1 As mulheres: “uma outra raça”
4.1.3 A mãe do Tradutor: quando do sofrimento nasce a esperança
A mãe do Tradutor é uma personagem fundamental para a história, embora não tendo presença física, porque já morreu. Ela possui, por isso, segundo a teoria de Philippe Hamon, uma função diferencial na diegese, (cf. Hamon, 1977), pois representa os mortos, a voz dos antepassados que é necessário respeitar e cujos ensinamentos têm de ser seguidos.
O grau de densidade psicológica desta mulher é revelado quando, pelas lembranças, o Tradutor volta a dar vida textual à mãe, pois aproveita o seu papel de narrador para expor alguns momentos passados com ela, alguns ensinamentos que lhe foram deixados. Porque ela é, então, quem cria e quem conta a lenda dos flamingos, essa ave redentora do homem moçambicano e do próprio país, a importância desta mulher é inegável para o desenvolvimento da narrativa. Ora, e tal como assegura Jorge Vicente Valentim, “Sulplício e a Mãe do Tradutor impregnam a narrativa de tonalidade mítica, na medida em que trazem a metáfora do voo e do sonho, representada pela imagem do flamingo” (Valentim, 2005: 89).
Figura 46 –
João Ribeiro, O último voo do flamingo, 2010: 01:13:10
É, pois, à figura materna que o Tradutor recorre para compreender o passado, para compreender a vida, nessa busca de si próprio, mas, para a mãe, não há respostas para o entendimento do mundo: “Você quer entender o mundo que é coisa que nunca se entende” (Couto, 2000: 48). Os conselhos que recebe dessa mulher são “apenas silêncios, [pois as suas] falas tinham o sotaque de nuvem” (ibid.: 47).
O Tradutor-narrador relembra o lado humano desta mulher, o seu sofrimento pelo facto de o marido a ter abandonado: “Apesar da nocturna tristeza de minha mãe (…)” (ibid.: 49); “Minha mãe chorava enquanto dormia na solidão do leito desconjugal” (ibid.: 48); “Agora eu já não sou sujeito de nada. Me irresponsabilizo” (ibid.); “A vida, meu filho, é
uma desilusionista” (ibid.: 49).
Paradoxalmente, é esta mesma mulher, desiludida e descrente, que aguarda, ao final do dia, os flamingos, redentores dessa vida, desse mundo do qual ela já nada espera: “Enquanto não se extinguissem os longos pássaros ela não pronunciava palavra. Nem eu me podia mexer. Tudo, nesse momento, era sagrado” (ibid.). Este seu lado místico transformá-la-á numa mulher mítica depois da sua morte.
Esta personagem surge em dois capítulos: no 4º, quando o narrador se apresenta como “Falador da Estória”, e no 10º – a meio do romance, quando ele relata os primeiros rebentamentos.
No capítulo 4º, o narrador relembra a sua infância e a morte da sua mãe: “A morte, a morte mais sua inexplicável utilidade! Minha mãe partira na curva da chuva, saindo a habitar a estrela de nenhumas pontas. A partir de então, a vida já não lhe comparecia: ela apanhara o último desencontrão” (ibid.: 51). No capítulo 10º, ela é já uma visão, é o anjo protetor que continua a orientá-lo e que o afasta do perigo: “Naquele momento, porém, ela surgiu das folhagens, envolta em seus panos escuros, seus habituais. Não me saudou, simplesmente me orientou para junto do meu abrigo. (…) Fiquei mudo e miúdo, à espera. (…) Agora, que ela transitara de estado, eu acedia, completo, às vistas dela” (ibid.: 115- 116). Tal como nos diz Gaston Bachelard, “(…) il est des rêveries si profondes, des rêveries qui nous aident à descendre si profondément en nous qu’elles nous débarrassent de notre histoire” (Bachelard, 1999 : 84).
Esta mulher é o símbolo de todas as mães do mundo, ela é “une femme maternelle vers laquelle régressent les désirs de l’humanité” e símbolo “d’un retour ou d’un regret” (Durand, 1992: 268): “Andava com uma bilha a recolher as lágrimas de todas as mães do mundo. Queria fazer um mar só delas” (Couto: 2000: 116). A imagem aquática está próxima da figuração do mar de Gilbert Durand, pois, segundo ele, “(…) la
94 mer (…) C’est l’abyssus féminisé et maternel (…) l’archétype de la descente et du retour aux sources originelles du bonheur” (ibid.: 256).
Enquanto “padecia da doença de estar viva” (Couto, 2000: 116), o sofrimento e a dor eram a sua companhia, desvanecidos esses sentimentos com a morte, ela é portadora de vida e esperança: os flamingos para quem ela cantava em vida, carregam, agora, o sol para trazer um novo dia, o recomeço.
Nos interstícios culturais moçambicanos – onde a mulher é retratada como sendo vítima da sua própria condição – surgem, simultaneamente, características, princípios orientadores de conduta, que colocam a mulher num pedestal: a sua força, a sua luta, a sua capacidade de amar tornam-na o símbolo da esperança.
No filme, esta personagem está ausente. Questionado sobre esta ausência na entrevista que lhe foi realizada, João Ribeiro explica ter feito esta opção por considerar que ela é uma personagem pouco “material”, etérea, do domínio do fantástico, pouco suscetível de ser entendida num tempo de duração tão curto como o de um filme:
A opção foi mesmo essa, foi a de fazer um thriller, um filme de investigação sobre o desaparecimento desses homens e de criar essas hipóteses de fantástico que aparecem no meio. Podia pôr tudo, mas era muito confuso para uma hora e meia. Com a minha experiência não era possível, talvez se fosse outro realizador, outro guionista, mas temos que trabalhar no nosso horizonte.
São personagens que têm ações concretas. Se criássemos personagens mais etéreas, mais fantásticas, íamos criar mais confusão na cabeça do espectador. Foi a opção que fizemos, desde o princípio que optámos por não falar de algumas coisas, mas não por ser difícil. (Joanes, 2013)
A propósito desta opção do realizador, é pertinente citar Gérard Betton, quando este afirma que:
La fidélité d´une adaptation ne pose généralement pas de problèmes majeurs lorsqu`il s´agit de décrire de "l´extérieur", en témoins objectifs, n´émettant aucun point de vue subjectif, des personnages ou des événements; la narration cinématographique se faisant avant tout ce qui est abstrait, "intérieur", "contenu latent" ou subjectif pose tout de suite de graves problèmes (…). (Betton: 1983,120)
Não obstante a dificuldade em adaptar esta personagem ao cinema, por ser de um domínio mais abstrato, é inegável o relevo do seu papel na narrativa couteana e, por tal facto, a mãe do Tradutor merecia ter tido um espaço na narrativa fílmica. Pertencendo ao
universo dos mortos, ao domínio do sobrenatural, é ela quem desvenda o mistério deste universo e da vida e, por isso, a sua ausência cria um vazio na narrativa cinematográfica.