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a mídia como fiscal do trabalho dos parlamentares

No documento Mídia e Política na Imagem do Congresso (páginas 181-184)

3.8 A mídia como fiscal do trabalho

a própria mídia externa começou a querer bater, mas nós mostra-mos que trabalhamostra-mos e muito, e nesta legislatura temostra-mos trabalhado e muito. eu, pelo menos, tenho trabalhado muito e tenho visto todos os nobres colegas deputados trabalhando muito. então, não procede.

Nosso empenho e nosso trabalho têm reflexo na sociedade. a so-ciedade tem entendido que temos trabalhado, o que tem sido muito positivo para nós. a partir disso, a Câmara Federal dá outra visão da política para o cidadão, que vê a política com outros olhos.

Na avaliação do deputado Bismarck Maia (psdB-Ce), para a socie-dade saber que este é um “Congresso de gente que trabalha”, a tV Câmara, a Voz do Brasil e o Jornal da Câmara “têm um papel importan-tíssimo nisso”. porém, ele

gostaria de conclamar os outros meios de comunicação a mostrar um Congresso de gente que trabalha, um Congresso de gente que está aqui todo dia olhando, lendo e discutindo, em várias reuniões, aqui-lo que é melhor para poder fazer leis que venham a atender de forma perene e constante à população brasileira. eu acho que esse lado do parlamento brasileiro precisa ser mais bem mostrado.

essa questão da semana de trabalho dos congressistas na capital federal, que, na prática, se reduz a três dias úteis, merece uma com-paração com o que ocorre no Congresso dos estados unidos. sobre o tema, veja-se no depoimento do então senador Barack obama como ele descreve a sua rotina sem qualquer constrangimento em relação ao fato de também manter uma semana de três dias em Washington, retor-nando tão logo quanto possível para sua casa e distrito eleitoral, donde se pode concluir que a mídia americana compreende a necessidade de presença constante nos estados onde foram eleitos e não contesta esse tipo de comportamento dos parlamentares:

No começo do meu segundo ano no senado, estabeleci um ritmo de vida bastante controlável. eu deixaria Chicago na segunda à noite ou terça pela manhã, a depender da programação de votação do senado.

Fora as visitas diárias à academia de ginástica do senado e os raros almoços ou jantares com amigos, os três dias seguintes seriam consu-midos por uma série de tarefas previsíveis – ir a reuniões de comitê, votações e almoços com membros da bancada, fazer discursos, tirar fotos com estagiários, participar de festas noturnas para a arrecadação de fundos, retornar telefonemas, responder correspondências, exami-nar leis, fazer relatórios, gravar programas, receber instruções políti-cas e eleitores para tomar café e frequentar uma série interminável de reuniões. Na quinta à tarde, saberia na sala de espera quando seria a última votação, e na hora certa compareceria ao plenário com meus colegas para votar, para em seguida descer correndo as escadas do

Capitólio na esperança de pegar um voo e estar em casa antes de as meninas irem para a cama (oBaMa, 2007, p. 345).

Nesse contexto da fiscalização pela mídia dos parlamentares en-quanto trabalhadores que devem cumprir jornadas e horários e compa-recer a locais específicos, a questão relacionada aos recessos constitu-cionais e, ainda, às convocações extraordinárias do parlamento quase sempre apareceu representada junto à opinião pública como um privi-légio com pouco lastro.

No período em que as entrevistas foram realizadas (julho a outu-bro de 2003), de acordo com a Constituição e o regimento Interno de ambas as Casas do Congresso, o parlamento ainda entrava em recesso em todo o mês de julho e, também, de 15 de dezembro a 15 de feve-reiro. tais recessos se constituíam em assunto para mais críticas da imprensa, já que, para trabalhar nesses períodos, salvo em casos de autoconvocação, os deputados e senadores tinham de ser convocados pelo executivo e, por causa disso, recebiam remuneração extra.

Na última vez em que isso ocorreu (dezembro de 2005) houve tanta polêmica e tanto noticiário negativo, que, logo depois, os congressistas aprovaram dois projetos de emenda à Constituição: o primeiro redu-zindo o período de recesso de 90 para 55 dias por ano, distribuídos entre 15 dias em julho e 40 dias entre dezembro e início de fevereiro;

e o segundo, extinguindo o pagamento de vencimentos adicionais em caso de convocação extraordinária do Congresso pelo executivo ou sob qualquer hipótese. ambas as decisões também valem para todos os parlamentos estaduais e municipais do país.

em 16/12/2005, a Folha de S.Paulo assim registrou o assunto:

a convocação extraordinária do Congresso começa hoje [16 de de-zembro de 2005], segundo anúncio oficial feito pelos presidentes da Câmara, aldo rebelo (pCdoB-sp), e do senado, renan Calheiros (pMdB-aL). Na prática, o funcionamento só volta ao normal após 16 de janeiro. a Câmara desembolsará r$ 50 milhões e o senado, mais r$ 45 milhões, entre remuneração extra a parlamentares, cus-tos administrativos e gratificação a servidores. Cada um dos 513 deputados e 81 senadores receberá r$ 25.694,40 (dois salários), fora seus vencimentos normais.

tal abordagem midiática, enfocando com destaque os custos adi-cionais, era recorrente. o deputado Nelson Marquezelli (ptB-sp) co-mentou a forma como a mídia tratava o assunto: “Quando há uma (...) convocação dos deputados, por exemplo, há uma crítica generalizada.

Já faz doze anos que estou aqui. ainda não aprenderam a fazer uma

crítica diferente: o porquê da convocação; se tem prazo”. para ele, a mídia deveria “criticar o regimento da Casa e não o deputado que é convocado”, como se o regimento não dependesse da vontade política dos parlamentares para ser alterado.

o deputado Feu rosa (pp-es) criticou o modo como a mídia repor-ta o comporrepor-tamento de alguns poucos depurepor-tados que se recusavam a receber salários extras durante as convocações. em sua opinião, os meios de comunicação “dão muito mais valor a uma pessoa que não quer receber por ela, por motivos claramente demagógicos, do que a um deputado que vem aqui todos os dias durante a convocação e cum-pre com seu dever. Não tem jeito”. ele ainda avaliou que “0,01% das matérias que estamos tratando na convocação são superiores à soma de tudo o que se está gastando com os deputados durante este mês”.

dizendo-se preocupado em preservar a imagem pública da Câmara, o deputado osório adriano (pFL-dF) contou que permaneceu vigilan-te duranvigilan-te a convocação de julho de 2003, já que, no seu envigilan-tender, “o senado é mais respeitado, mas a imprensa gosta muito de fazer man-chetes negativas sobre a Câmara”. e acrescentou: “eu tenho lutado contra isso. Na convocação, eu vigiei as sessões, principalmente às de segunda e sexta-feira, para que o número regimental fosse cumprido”.

Na avaliação do deputado Luiz Carreira (pFL-Ba), “quando se tra-ta das convocações extraordinárias, normalmente assume-se um viés completamente de desinformação muito grande e a imagem que se tem, lá fora, não corresponde, evidentemente, ao que se passa aqui dentro”.

No documento Mídia e Política na Imagem do Congresso (páginas 181-184)