2 PRAGMÁTICA E O JORNALISMO
3.1 A MÍDIA DE REVISTA
Sabe-se, claramente, que os veículos jornalísticos são de uma forma geral, os maiores responsáveis por levar informações à população do que acontece no mundo. Mesmo com a televisão fazendo uma ampla cobertura de algum assunto é
geralmente no meio impresso que as pessoas que se mostrem interessadas vão buscar confirmar e aprofundar conhecimentos das informações obtidas pela tevê ou ouvidas no rádio, pois “quem quer saber mais tem que ler” (SCALZO, 2003, p. 13).
As informações que são veiculadas pela palavra escrita, dentro de produtos jornalísticos impressos, por exemplo, podem proporcionar um amplo conhecimento sobre os mais diversos assuntos.
Neste processo, as revistas são um bom auxílio, pois surgiram com propósito de ajudar na complementação da educação, no aprofundamento e contextualização de assuntos que geralmente já vem sendo pautados na mídia. Como bem aponta Scalzo (2003, p. 14)
revista une e funde entretenimento, educação, serviço e interpretação dos acontecimentos. Possui menos informação no sentido clássico (“as notícias quentes”) e mais informação pessoal (aquela que vai ajudar o leitor em seu cotidiano, em sua vida prática).
Em virtude dessa contextualização que as revistas proporcionam aos assuntos, salienta-se a característica que maior as diferencia em relação aos demais produtos jornalísticos: a profundidade. A propósito, conforme assegura Beltrão (1992), dentre os principais atributos que caracterizam o jornalismo está à interpretação. Diante dessa visão, o autor divide o jornalismo em extensivo e intensivo, sendo que o segundo trata do jornalismo em profundidade21, ou seja, a mídia de revista. Dittrich (2003) ao desenvolver um estudo dedicado às reportagens de economia no jornalismo22 de revista aponta, nesse sentido, que pelo fato das revistas dedicarem-se a um jornalismo mais reflexivo se permite uma abordagem sobre algum assunto a partir de vários ângulos.
Em se tratando de meio ambiente é nas revistas que os leitores irão encontrar informações que os ajudem em suas vidas cotidianas e conhecimentos diversos sobre o tema. Beltrão explica a partir da ocorrência de um fato, como se desenvolve o processo que envolve a interpretação jornalística.
21 Beltrão (1993, p. 84) afirma que “o jornalismo intensivo é o exercício à base da reflexão”. De acordo com a posição do autor, nessa modalidade às informações das matérias são apuradas e analisadas de uma forma mais completa e profunda.
22 O trabalho desse autor se dedica a analisar as dimensões informativa e argumentativa presente nas reportagens de economia apoiando-se na retórica e na Teoria da Relevância, uma outra perspectiva de estudo da pragmática.
O jornalista terá de examinar a sua importância e caráter, o interesse que complementam teses apresentadas nas matérias. As fotografias não devem servir apenas como meras ilustrações, junto com as legendas, precisam apresentar-se de uma forma com que cativem seus leitores, haja vista que uma é tão importante quanto à outra para a construção de uma reportagem que “deixe o leitor feliz”
(SCALZO, 2003, p. 76), ou seja, um texto que traga uma informação correta, simples e clara, construída de uma forma prazerosa.
Revistas contam ainda com o leiaute, ou seja, o projeto gráfico, que assim como o conteúdo deve ser bem pensado e elaborado para que proporcione uma identidade ao produto. Nesse tipo de publicação textos e fotografias podem ser distribuídos e organizados com maior liberdade do que em jornais.
Outro fator importante dos veículos impressos é destinar um lugar em suas publicações para o feedback do seu público-leitor. Nas revistas, este espaço ganha maior destaque. Trata-se de um canal onde o produto jornalístico pode obter um retorno sobre sua receptividade, permitindo com que os leitores possam mandar sugestões, críticas e fazer comentários sobre os assuntos publicados geralmente na edição anterior da publicação.
Aliás, como bem lembra Scalzo (2003, p. 12) “revista é também um encontro entre um editor e um leitor, um contato que se estabelece, um fio invisível que une um grupo de pessoas, e nesse sentido, ajuda a construir identidade”. Pode-se presumir que o produto torna possível estreitar uma ligação maior entre quem produz a informação e quem recebe, além de permitir que os jornalistas daquele periódico conheçam seu público de diálogo, seus interlocutores. Dessa forma, possibilita o fortalecimento dos laços desses usuários como pertencentes a um grupo que consome conhecimento a partir de um determinado produto, criando assim uma identidade para esse.
Sobre um produto de informação jornalística que trabalhe com temas como o meio ambiente, um espaço destinado ao leitor pode ser uma maneira de o mesmo expressar-se e mostrar preocupação e atitudes favoráveis à preservação do planeta.
Com relação à produção jornalística, as revistas detêm de um espaço mais amplo e periodicidade maior do que os jornais para elaboração de suas matérias, o que se presume que possam dar um tratamento mais cuidadoso à informação.
Um mesmo texto de revista pode conter uma informação, análise, interpretação e ponto de vista (BOAS, 1996, p.34) o que reforça mais assiduamente a função jornalística. Sob esse aspecto, reforça-se o caráter performativo-argumentativo do jornalismo, visto que, por meio das informações que veicula possibilita com que o interlocutor possa tomar uma posição quanto ao assunto – ação – como também a inserção de pontos de vistas, sustenta a argumentatividade do texto. Por fim, a mídia de revista permite um jornalismo mais investigativo, sendo que sua maior afirmação se deu no trajeto de duas direções: o da educação e do entretenimento (SCALZO, 2003), pois o desenvolvimento desses dois percursos aconteceu em virtude de que por um lado, as fotos que as revistas apresentavam serviam para entreter os leitores em suas viagens, e por outro, as revistas auxiliavam na formação e na educação de fatias da população que necessitavam de informações mais específicas, mas não tinham acesso e/ou não queriam dedicar-se aos livros.
Segundo relata Scalzo (2003) em seu livro dedicado ao veículo jornalístico revista, o desenvolvimento dessa mídia teve início na Alemanha, em 1663, quando surgiu a primeira publicação intitulada Erbauliche Monaths-Unterredungen (ou Edificantes discussões Mentais) muito semelhante a um livro. Caracterizava-se como revista porque trazia artigos sobre um mesmo tema – teologia – a um público específico. A partir desta inovação para época, foram surgindo outras publicações similares pela Europa e Estados Unidos.
Conforme os países iam se desenvolvendo e aumentando os índices de escolarização, crescia na população um interesse pela leitura, mas não por livros,
pois esses ainda eram pouco acessíveis e vistos como instrumentos da elite. As revistas se tornavam então o objeto de desejo dos novos leitores, pois por meio delas “era uma forma de fazer circular, concentradas, diferentes informações sobre os novos tempos, a nova ciência e as possibilidades que se abriam para uma população que começava a ter acesso ao saber” (SCALZO, 2003, p. 20).
Com isso, surgiram revistas voltadas a parcelas diferentes de mercado, como, por exemplo, as femininas, as científicas, as literárias, entre outros tipos.23 O avanço no gênero veio com o lançamento da primeira revista semanal de notícias24, nos Estados Unidos, em 1923. Intitulada Time, era voltada ao homem de negócios.
O formato desse periódico foi adotado em vários países, inclusive pelo Brasil, na revista Veja, em 1968.
No Brasil, as revistas começaram a circular com a chegada da Família Real, no início do século XIX, pois assim como em Portugal, a imprensa era proibida. As publicações eram voltadas a elite estrangeira que estava se consolidando no Brasil.
A primeira publicação chamou-se “Variedades”, publicada em 1812, também se cidades, a então nova mídia acompanhou esta movimentação. O Brasil num período posterior encontrou no fotojornalismo uma maneira especial de narrar os fatos. A partir daí, passou a editar revistas que exploravam essa modalidade jornalística. Era o caso da revista “O Cruzeiro” e “Manchete” que se tornaram sucesso em vendas.
Neste caminho, a publicação mais expressiva no Brasil e/ou lembrada é a da Revista “Realidade”, de 1966, adepta a um jornalismo investigativo. Em razão às
23 São considerados no Brasil pelo menos vinte gêneros na classificação dos principais títulos em circulação de acordo com o Instituto Verificado de Circulação (IVC).
24 Com o desenvolvimento desse tipo de publicação, deu-se o pontapé inicial a reportagem no jornalismo.
25 A Belle Époque foi um período de cultura cosmopolita na história da Europa que começou no final do século XIX e se estendeu até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Foi uma época marcada por profundas transformações culturais que se traduziram em novos modos de pensar e viver o cotidiano. Fonte: InfoEscola. Disponível em:< http://www.infoescola.com/artes/belle-epoque/>.
dificuldades enfrentadas pelas editoras as revistas investigativas tiveram fim mesmo fazendo sucesso. Investiu-se, na sequência fortemente na revista Veja26, que inspirada na publicação Time, trazia notícias da semana dividida em seções.
De acordo com Scalzo (2003) com o desenvolvimento da Indústria e da sociedade, começou-se a surgir o conceito de segmentação editorial e então as revistas técnicas segmentadas foram ganhando espaço. Dentro desse mercado, se desenvolvem as chamadas revistas científicas atendendo a públicos específicos como também leigos.
Quanto a veiculação de informações sobre meio ambiente, o fato é que os meios de comunicação começaram a dar mais atenção e amplitude na cobertura das questões ambientais a partir da década de 70, com a realização de eventos internacionais pelo mundo, a exemplo da Conferência de Estocolmo, em 1972, que tornou-se um marco histórico com relação a preservação ambiental. No Brasil, o meio ambiente alcançou destaque na mídia quando eventos internacionais aconteceram no País, como a conferência Rio 9227.
Pode-se dizer que com a realização de um evento global, a crescente atenção pelos meios de comunicação da temática ambiental e o surgimento das publicações científicas colaboraram para a criação de periódicos voltados para as questões do meio ambiente, pois os campos do jornalismo científico e ambiental não se desenvolvem de maneira isolada.
Com o surgimento da internet, especulou-se que produtos impressos, como jornais e revistas, com o tempo desapareceriam. O que se pode observar até o momento é que eles têm se remodelado em função ao meio digital. Uma avaliação realizada pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC)28, órgão responsável pela realizou-se no Rio de Janeiro no ano de 1992.
28 Fez parte da verificação do IVC 172 títulos, sendo 25 semanais, 145 mensais e duas quinzenais. O estudo compreendeu o período de julho de 2010 a junho de 2011. Disponível em
<http://www.adnews.com.br/pt/midia/meio-revista-cresce-5-1-no-brasil.html>. Acesso em 10/09/2011.
3.1.1 Revistas de atualidades
Quando se refere à mídia de revista, existem as monotemáticas e multitemáticas. Ao contrário de revista do tipo monotemática que se dedica a abordagem de um assunto, e tem um público com foco mais específico – como, por exemplo, profissionais e estudantes de áreas que pesquisam e/ou trabalham com esses assuntos e que se interessam e/ou buscam informações particulares em publicações desse tipo – e as revistas multitemáticas que apresentam um compromisso com mais tipos de leitores, pois haverá aquele que está atrás de conhecimentos diversos, outro que busca tal periódico pelo interesse por alguma temática específica ou em razão a forma como a revista transmite os conteúdos, entre outros fatores. Em vista que o discurso desenvolvido pelo jornalista deve buscar cativar a esses leitores para o bom relacionamento do mesmo com o produto, a linguagem deve ser compreensível e atrativa.
Como já mencionado nesse trabalho, uma das características desse veículo de comunicação é a sua periodicidade que geralmente é semanal, quinzenal ou mensal. Sendo assim, uma revista que circula uma vez na semana, ou no mês não pode simplesmente resumir o que outros veículos de comunicação já apresentaram ao leitor. Sendo assim “a publicação de periodicidade mais larga obriga-se a não perecer tão rapidamente, durar mais nas mãos do leitor” (SCALZO, 2003, p. 42).
Em função disso é que as revistas buscam apresentar um jornalismo mais analítico no qual permita que pessoas que queiram saber mais detalhes sobre algum assunto possam se interessar por esse tipo de publicação.
Atualmente, as revistas de atualidades veiculadas semanalmente são as que possuem maior circulação no país29. Contudo, publicação mensal detém também da atenção da população como opção na busca por informações e conhecimentos.
Nesse cenário, vale mencionar que dentre os três principais títulos de revistas consideradas também de atualidades no âmbito de sua natureza, segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC) estão: Superinteressante, Planeta e Galileu.
Tratando-se da evolução na circulação de revistas, conforme Mídia Dados (2012), a Planeta foi a que teve maior percentual de crescimento nos últimos três
29 Veja e Istoé são revistas que lideram em circulação no país, segundo dados levantados pelo Grupo de Mídia de São Paulo em 2012.
anos30, o que identifica um aumento no número de pessoas que encontram nesse periódico uma forma de atualizarem-se e adquirirem conhecimentos.