e não deliberativos – que a ameaça da 1ª Confecom era a restauração da censura através de um controle social da mídia defi nido a priori como autoritário. Mais uma vez, tudo em nome da democracia e da liberdade de expressão.
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inexoravelmente vinculadas aos problemas em cuja discussão ela esta sendo utilizada. E, mais ainda, que o uso dos diferentes signifi cados de palavras iden-tifi ca formas diversas de pensar e ver o mundo. Para ele, a apropriação de um determinado signifi cado que serve a um argumento específi co exclui aqueles outros signifi cados que são inconvenientes ao argumento. Trata-se, portanto, de uma questão de poder.
Anos mais tarde, Ives (2004) mostra que Antonio Gramsci desenvolveu o conceito de hegemonia – a formação e a organização do consentimento – a partir de seus estudos de linguística. Poucos se lembram de que, por ocasião da unifi cação italiana (1861), apenas entre 2,5% e 12% da população falavam a mesma língua. Daí serem previsíveis as enormes implicações sociais e políticas da unifi cação linguística, sobretudo o enorme poder de ajustamento e confor-midade em torno da institucionalização de uma língua única que se tornaria a língua italiana.
Na verdade, não só as palavras mudam de signifi cação ao longo do tempo, como palavras novas são introduzidas no nosso cotidiano e passam a consti-tuir uma nova linguagem, um novo vocabulário dentro do qual se aprisionam determinadas formas de pensar e ver o mundo.
No impressionante LTI, A linguagem do Terceiro Reich – que tem como epígrafe a afi rmação retirada de Franz Rosenzweig (1886-1929): “A lingua-gem é mais do que sangue” –, o fi lólogo Klemperer (2009 [1947]) eliminou qualquer dúvida que ainda restasse sobre a importância fundamental das pala-vras, da linguagem, do vocabulário para a conformação de uma determinada maneira de pensar. Está lá:
O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas incons-cientemente e mecanicamente. [...] A língua conduz o meu sentimento, dirige a minha mente, de forma tão mais natural quanto mais eu me entregar a ela in-conscientemente. [...] Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e parecem ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar. (Klemperer, 2009, p.55)
A linguagem da intolerância e do ódio no Brasil
A lembrança da atmosfera de intolerância que fez de Dallas a “cidade do ódio”
e construiu o cenário no qual o assassinato de Kennedy se tornou possível e as referências a Williams, Ives (Gramsci) e Klemperer são necessárias aqui para introduzir o que considero como fato mais relevante do ponto de vista da construção da hegemonia política nos últimos anos: a formação de uma linguagem nova, seletiva e específi ca, com a participação determinante da grande mídia, dentro da qual a maioria dos brasileiros passou a “ver” os réus da ação penal n.470 e, mais recentemente, da Operação Lava Jato, em particular aqueles ligados ao Partido dos Trabalhadores.
Ainda em 2006 (Lima, 2006, cap.1) argumentei que uma das conse-quências mais visíveis da crise política foi o aparecimento na grande mídia de uma série de novas palavras/expressões como mensalão, mensaleiros, partidos do mensalão, CPI do mensalão, valerioduto, CPI chapa-branca, silêncio dos intelectuais, homem da mala, doleiro do PT, conexão cubana, operação Para-guai, conexão Lisboa, república de Ribeirão Preto, operação pizza, dança da pizza, dentre outros.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, Fábio Kerche (2006) também chamou atenção para a recuperação pela grande mídia de dois conceitos clás-sicos de nossa sociologia política – coronelismo e populismo –, que passaram a ser utilizados com nova signifi cação desvinculada de suas raízes e especifi ci-dades históricas na cobertura da crise política.
O verdadeiro signifi cado dessas novas palavras/expressões, dizia à época, só pode ser compreendido dentro dos contextos concretos em que surgiram e passaram a ser utilizadas. São tentativas de expressar, de maneira simplifi cada, questões complexas, ambíguas e de interpretação múltipla e polêmica (aberta).
Procuram reduzir (fechar) um variado leque de signifi cados a apenas um único
“signifi cado guarda-chuva”, facilmente assimilável. Uma espécie de rótulo.
Exaustivamente repetidas na cobertura política tanto da mídia impressa como da eletrônica, essas palavras/expressões vão perdendo sua ambiguidade original pela associação continuada a apenas um conjunto de signifi cados. É dessa forma que elas acabam incorporadas ao vocabulário cotidiano do cidadão comum.
Mas elas passam também a ser utilizadas, por exemplo, nas pesquisas de
“opinião pública”, muitas vezes realizadas por institutos controlados pela
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pria grande mídia. Esse movimento circular viciado produz não só aferições contaminadas da “opinião pública” como induz o cidadão comum a uma per-cepção simplifi cada e muitas vezes equivocada do que realmente se passa.
Relacionei ainda as omissões e/ou as saliências na cobertura que a grande mídia oferecia da crise política – evidentes já àquela época –, protegendo a si mesma em relação à destinação de recursos publicitários e/ou favorecendo politicamente à oposição político-partidária ao governo Lula e ao PT. Algu-mas dessas omissões foram objeto de denúncia do jornalista Carlos Dorneles, então na Rede Globo (13/10/2005) e do ombudsman da Folha de S.Paulo (23/10/2005).
Nos últimos anos, o comportamento da grande mídia não se alterou. Ao contrário. A crise política foi se transformando no “maior escândalo de cor-rupção da história do país” e confi rmou-se o padrão de seletividade (omissão e/ou saliência) na cobertura jornalística, identifi cado desde 2005.
Até 2005, “mensalão” era apenas
o imposto que pode ser recolhido pelo contribuinte que tenha mais de uma fonte pagadora. Se o contribuinte recebe, por exemplo, aposentadoria e salário e não deseja acumular os impostos que irão resultar num valor muito alto a pagar na declaração mensal, ele pode antecipar este pagamento por meio de parcela mensal.
Nos últimos anos “mensalão” passou a ser “um esquema de corrupção” e tornou-se “mensalão do PT”, enquanto situações idênticas e anteriores, ra-ramente mencionadas, foram identifi cadas pela geografi a e não pelo partido político (“mensalão mineiro”). Como resultado foi se construindo sistematica-mente uma associação generalizada, seletiva e deliberada entre corrupção e os governos Lula e o PT, ou melhor, seus fi liados e/ou simpatizantes.
“Mensaleiro” passou a designar qualquer envolvido na ação penal n.470, independentemente de ter sido ou não comprovada a prática criminosa de pa-gamento e/ou recebimento de mensalidades em dinheiro “sujo” com o objetivo de se alterar o resultado nas votações de projetos de lei no Congresso Nacional.
A generalização seletiva tornou-se a prática deliberada e rotineira da grande mídia e, aos poucos, as palavras “petista” – designação de fi liado ao PT – e “mensaleiro”, se transformaram em palavrões equivalentes a “comunista”,
“subversivo” ou “terrorista” na época da ditadura militar (1964-1985).
“Petis-ta” e “mensaleiro” tornaram-se, implicitamente, inimigos públicos e sinôni-mos de corruptos e desonestos.
Política como guerra e ódio
Escrevendo sobre os efeitos políticos do julgamento da ação penal n.470, Re-nato Janine Ribeiro (2013) afi rma:
Um segundo resultado [...] foi converter nossa disputa política em guerra. É bási-co para qualquer analista polítibási-co que a democracia se distingue dos outros regi-mes porque nela há adversários e não inimigos. Ela não é guerra. A democracia é o único regime no qual a divergência é admitida, e a oposição – que ao longo de milhares de anos foi presa, banida, executada com requintes de crueldade – tem o direito de falar, e de tornar-se governo. Mas desde o mensalão o que temos é um estado de guerra inscrito no espaço político, substituindo o debate pelo ódio.
Diante dessa constatação, vale a pergunta: até que ponto o novo vocabulá-rio e a nova linguagem, construídos nos e pelos oligopólios de mídia, infl uen-ciam a maneira pela qual alguns dos envolvidos na ação penal n.470 passaram a ser “vistos” pela população brasileira (ou parte dela) e contribuíram para criar um clima político não democrático, de intolerância, de ódio e de recusa intransigente a sequer ouvir qualquer posição diferente da sua que afl oraram de forma inequívoca a partir das manifestações de rua contra Dilma, Lula e o PT, em 2015?
Para além da formação seletiva de um vocabulário e de uma linguagem específi cas, bastaria relembrar declarações do ministro Celso Melo por ocasião do julgamento dos embargos infringentes da ação penal n.470 no Supremo Tri-bunal Federal (STF): “Nunca a mídia foi tão ostensiva para subjugar um juiz”.