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A mímesis e a teoria dos nomes no Crátilo

No Crátilo, escrito por volta de 386 a.C, aproximadamente cinco anos após o

Górgias, Platão retoma a teoria da mímesis de maneira mais explícita que no diálogo

anterior, utilizando-a como suporte argumentativo para contrapor a teoria da justeza dos nomes proposta por Crátilo, e a teoria da convenção de Hermógenes. Nesse diálogo nota-se uma freqüência maior de termos referentes à imitação, como mostram os passos 423 a – 423 e (mimoúmenoi, mimesaménon, mímema, mimeîtai). Aqui observamos que Platão praticamente deixa de usar aqueles termos observados no

Górgias, optando pelas declinações de mímesis e do verbo mimêithai até o final do

diálogo. Isso mostra um maior entrosamento com o termo citado e, conseqüentemente, um aprofundamento conceitual decorrente de maior observação acerca das práticas imitativas advindas da música, da pintura e do próprio comportamento humano, como Sócrates faz notar no passo 423 do Crátilo.

A partir desse diálogo, Platão procurou apresentar de forma detalhada os tipos de imitação: 1) mímesis, enquanto imitação corporal por meio de gestos e forma, o que denominamos de mímica; 2) mímesis, imitação vocal dos diversos tipos de sons, o que ele denomina imitação musical; 3) mímesis, como reprodução das figuras e formas por meio da pintura (Crátilo, 423 a-d).

É importante contextualizar a finalidade da teoria da mímesis no Crátilo. Sócrates a usa com o intuito de investigar que tipo de imitação constitui o ato de nomear e qual sua relevância para o conhecimento. Afirma que o nome é um tipo de imitação vocal diferente da música; supostamente, os nomes tentam imitar a essência

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das coisas por meio de letras e sílabas. Dizemos “supostamente” porque nesse diálogo, assim como Sócrates não chega a um consenso com Hermógenes sobre a tese de que os nomes surgem por convenção, também não chegará a um consenso com Crátilo sobre a tese de que os nomes imitam a natureza ou a essência das coisas. Contudo, pode-se detectar nessa dupla negação de teses o reconhecimento de Sócrates de que a imitação não pode ser mais que uma representação aproximada das coisas, pois se a reprodução fosse igual ao modelo em sua completude não haveria mais uma cópia, mas duas coisas ou modelos idênticos. A tese de Crátilo, que afirma que os nomes imitam as coisas em sua essência, tem como conseqüência a polêmica afirmação de que podemos conhecê-las por meio de seus respectivos nomes, pois a virtude dos nomes é ensinar (didáskein). Mas Sócrates, ao fazê-lo admitir que os nomes são imitações das coisas, também não deixará de lembrar que a imitação por si mesma não é uma reprodução exata dessas coisas (430 a – 433 c). Logo, é possível que os nomes possam ou não dizer com exatidão as coisas (431 c – 433 c), pois são meras representações que nunca podem se igualar, em toda sua essência, ao que se quer imitar: o modelo. Sócrates far-lhes-á admitir que eles estão equivocados quanto ao poder da nomeação ser suficiente para trazer algum conhecimento. Só na República é que ele virá a demonstrar que apenas as Idéias ou Formas trazem o conhecimento. O nome, ainda que fosse uma imitação da essência das coisas, não teria a capacidade de gerar um conhecimento aprofundado. Vê-se, assim, no argumento de Sócrates, que a imitação é uma prática produtiva limitada quanto ao alcance das coisas em si.

Mas é importante também notar a quem se dirige esse diálogo, ou o que ele precisamente combate. Segundo Louis Méridier (tradutor francês do Crátilo), não há um consenso entre os helenistas sobre a quem ou a qual escola esse diálogo se dirige, embora se possam conjecturar alguns nomes. Méridier diz que é provável que ele se oponha a Demócrito, para quem a linguagem tinha uma origem puramente convencional (PLATON, Crátilo, 1931, p. 39). Também se dirigiria aos partidários do pensamento de Heráclito, que cultivavam o hábito da exegese etimológica. Ou ainda a

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Eutífrone, que é citado várias vezes, de forma jocosa, como o inspirador de Sócrates na interpretação da origem dos nomes36.

Seja qual for a pessoa ou a escola a que Platão tenha visado nesse diálogo, podemos lhes dar o nome de pretendente ao conhecimento e pretenso educador. Tal afirmativa se confirmaria com maior acerto se viesse a se comprovar por completo, como sustenta Raeder, e ainda Diógenes Laércio, que Antístenes, ferrenho adversário de Platão e da Academia, dizia que “o princípio da educação é o estudo dos nomes” (RAEDER apud MÉRIDIER. In: PLATON, Crátilo, 1931, p. 44). De qualquer forma, é notório que Platão visou, nesse diálogo, abalar alguma tese que afirmava a eficácia do estudo da etimologia na obtenção do conhecimento. As conclusões de Sócrates acerca da justeza dos nomes, ainda que aporéticas, são enfáticas ao afirmarem que tal prática é insuficiente para atingir o objetivo proposto. Não por acaso Sócrates faz a seguinte advertência a Crátilo: “Atenção, Crátilo! Reflitamos se não corre perigo de enganar-se quem, na investigação das coisas, segue no rasto dos nomes e procura penetrar-lhes o significado?” (Crátilo, 436 b).

A impossibilidade de os nomes atingirem as coisas em sua essência é paralela à impossibilidade de a arte mimética copiar com precisão o objeto imitado. À imitação Platão atribui o estatuto de ser a arte da reprodução inexata, imperfeita e incompleta. E caso a imitação viesse a produzir o duplo, ou seja, o semelhante ao que é imitado, ela cairia numa desmedida, impossibilitando até mesmo o uso do nome. No Crátilo, imitar não é mais apenas dissimular, mas tentar atingir uma essência e professar um conhecimento. Eis o estatuto da mímesis no Crátilo de Platão.