1 POR UMA INVESTIGAÇÃO POLÍTICO-AFETIVA DO FUTEBOL
3.4 A MATERIALIDADE DE UMA DECISÃO POLÍTICO-PÚBLICA: O EAM’78
O grande movimento da ditadura, no intuito de assumir a direção da Copa no país, foi a criação do Ente Autárquico Mundial 1978 (EAM 78). Criado oficialmente em julho de 1976, o organismo substituía todas as comissões anteriores e dava, finalmente, forma institucional definitiva a um mecanismo cuja criação já havia sido prevista e divulgada pelos órgãos de imprensa, desde os primeiros momentos do golpe. Mais do que isso, o EAM representava uma mudança na dinâmica da condução do mundial. Se antes, os assuntos pertinentes ao evento passavam pela AFA, agora era o próprio EAM, como representante direto do Estado, quem assumia esse papel. Construção de estádios, gestão de contratos, estabelecimentos de parcerias, contato com as cidades sede, gestão de recursos, emissão de credenciais e o próprio relacionamento com a FIFA, compunham algumas das tarefas de responsabilidade exclusiva do órgão.
A entidade foi lançada através da lei 21.349, a mesma que declarava a Copa do Mundo de 1978 como de interesse nacional. Contudo, muito mais significativas eram as bases de funcionamento da entidade, com uma vasta gama de atribuições e ampla autonomia na gestão de fundos e recursos. Os primeiros itens do documento versavam sobre os objetivos centrais do órgão:
Art. 1º – Declárase de interés nacional la organización y realización del XI Campeonato de Fútbol por la Copa Mundial de la F.I.F.A. 1978, a disputarse en el país en el año indicado.
Art. 2º – Créase el Ente Autárquico Mundial 1978, en jurisdicción de la Presidencia de la Nación con carácter de organismo autárquico, con plena capacidad para ejercer derechos y contraer obligaciones.
282 ROLDÁN, 2007.
Art. 3º – El Ente Autárquico Mundial 1978, tiene por misión plantear y/o replantear las políticas específicas relacionadas con el evento; coordinar la labor de los distintos entes y organismos que entendieran en el tema; operar como control de gestión; supervisar las áreas descentralizadas; suscribir y/o refrendar convenios, aprobar, proyectar, contractar, ejecutar, financiar por cuenta propria o de terceros obras de infraestructura y/o la prestación de servicios relacionados y realizar toda otra tarea necesaria tendiente al cumplimiento del objetivo.
Art. 4º – El Ente Autárquico Mundial 1978 estará integrado por un (1) presidente y un (1) vicepresidente, con cuatro (4) gerencias, quedando facultada la presidencia para ampliar el número de las mismas, cuando su mejor funcionamiento así lo aconsejare.
El presidente y el vicepresidente serán designados por el Poder Ejecutivo Nacional.283
Embora o primeiro item seja recorrentemente lembrado como prova cabal da importância creditada ao evento por parte da ditadura, é notável que ele apresenta um impacto majoritariamente discursivo, como uma espécie de afirmação oficial e pública do interesse do Estado sobre a matéria. Contudo, nem sempre essa declaração de apoio adquire uma conotação prática, ou seja, que produza medidas de suporte concretas para além do apoio anunciado textualmente. Exemplo disso é que outras atividades esportivas, culturais e cientificas também foram declaradas de interesse nacional, como o congresso mundial de combate ao câncer e o campeonato mundial de hóquei na grama, mas não receberam suporte específico notável. Dessa maneira, muito mais pertinentes e significativos eram os itens subsequentes, que delimitavam a criação e as bases concretas de funcionamento do EAM, preenchendo com um conteúdo prático, para além da simples enunciação, o apregoado interesse nacional.
Os artigos 2 e 3 fazem justamente esse papel, ao apresentar a nova entidade, suas atribuições e objetivos gerais. Um ponto bastante pertinente a ser destacado, que explicita tanto a importância concedida à organização do evento, quanto o auto grau de autonomia concedido ao ente em meio um governo autoritário, é a sua definição como um organismo autárquico; isto é independente e autossuficiente na comando e financiamento de suas ações, vinculado diretamente à presidência e ao poder executivo nacional, ou seja, subordinado apenas ao general Videla e à Junta de Comandantes. Essa relação direta com a instância gestora do país está explicitada no artigo 4, que não só apresenta os principais cargos gerenciais, como estabelece que os dirigentes da instituição, basicamente o presidente e o vice-presidente, são frutos de um desígnio direto do poder executivo; ou, de forma mais especificada, dos membros da junta militar, naquele momento formada por Videla, Massera e Agosti. Se no caso da AFA, uma associação privada, portanto, externa ao Estado, o processo
283 Ley 21.349/1976. Anales de legislacion argentina. Tomo XXXVI-C, p. 1995-1997.
de intervenção se deu de forma indireta e relativamente negociada, muito mais nos termos de um alinhamento político-ideológico do que de uma submissão estrita, o estabelecimento do EAM orientou-se por uma lógica distinta: tratava-se de um órgão criado pelo Estado, com objetivos explícitos e amplamente identificado como um projeto do novo governo. De maneira simples, a associação não só era evidente como revestia-se de uma estrutura legal, sendo desejável que se tornasse de notoriedade pública. O EAM era o responsável pela organização da Copa do Mundo da Argentina, havia sido criado pela ditadura, com vastos poderes e subordinado apenas núcleo mandatário do pais. Eram estas as informações amplamente conhecidas e divulgadas desde o momento de seu estabelecimento. Desse modo, na Argentina, a Copa do Mundo de Futebol da FIFA também passava a ser a Copa do Mundo de Futebol produzida pelo Proceso de Reorganización Nacional.
Essa apropriação do evento por parte do regime aparecia de diversas formas, uma delas se dava por meio do domínio sobre os símbolos criados para o evento. O item 11, por exemplo, reafirmava a posse do Estado sobre o logotipo criado para representar oficialmente o mundial, incluído aí os direitos de propriedade e exploração comercial através da nova instituição:
Art. 11. – El logotipo oficial que identifica simbólicamente al XI Campeonato de Futbol por la Copa Mundial de la F.I.F.A. 1978, es propiedad del Estado Argentino y como tal el Ente Autárquico Mundial 1978 establecerá las condiciones exigibles para su uso y/o explotación comercial de cualquier índole que fuere.284
No total, a lei era composta por 30 artigos. Em sua grande maioria, eles versavam sobre trâmites específicos, que estipulavam as fontes de recurso para o funcionamento da entidade285; afirmavam a urgência das atividades e a necessária colaboração de órgãos estatais em níveis federal, estadual e municipal; regulavam isenções fiscais para os empreendimentos promovidos pelo ente – como os estádios, obras de infraestrutura, segurança, telecomunicações e as importações relacionadas a tais atividades –; além de abonar as
284 Ibid., p. 1996.
285 “Art. 14. – Para el cumplimiento de su misión el Ente Autárquico Mundial 1978, dispondrá de los siguientes recursos: a) Una participación equivalente al cinco por ciento (5%) del producido del Concurso de Pronósticos Deportivos (PRODE); b) Los porcentajes que F.I.F.A. abone sobre los ingresos por venta de entradas y en concepto de impuesto y alquiles de estadio; c) Los fondos que la Asociación de Fútbol Argentino (AFA) reconozca a su favor sobre su participación en los beneficios económicos que arroje el evento deportivo; d) El porcentaje que correspondiere sobre la explotación comercial del logotipo, mascotas y propaganda estática en los estadios; e) Los fondos que el Estado nacional asigne en cada presupuesto para el desarrollo de las obras de infraestructura y adquisición de equipamiento, pago de servicios de seguridad, etc.; f) Los ingresos y aportes de origen privado y/o de cualquier otra naturaleza que se puedan percibir en el futuro; g) Los fondos provenientes de tasa e impuestos que el Estado nacional establezca y destine para el desarrollo y la ejecución en la infraestructura”. Id.
transferências de recursos e lucros para a FIFA e suas confederações filiadas286, medidas que convergiam com os interesses comerciais da federação esportiva internacional. Os itens que compunham a lei demonstravam a preocupação com os prazos para concretizar o evento, bem como a intenção de realizá-lo à revelia dos altos gastos que poderia demandar. Nesses termos, o campeonato de 1978 contrariava a própria política de austeridade econômica, defendida por Martinez de Hoz a partir do Ministério da Economia, um dos pilares da administração de Videla à frente da presidência. Os artigos 12 e 13 sintetizavam essa ansiedade com o rápido andamento das obras geridas pelo ente, o que implicava a ampla colaboração por parte dos demais órgão públicos e oficiais287:
Art. 12. – Las obras, trabajos en general e servicios que resultaren objeto de la contratación correspondiente, como a aquellos que, a los mismos fines, ya estuviesen en construcción, quedan calificados como prioritarios y de reconocida urgencia, debiendo el Ente adoptar los recaudos del caso para su conclusión en tiempo oportuno.
Art. 13 – Los ministérios, secretarias de Estado, reparticiones autárquicas, empresas del Estado, bancos oficiales y demás organismos públicos nacionales, provinciales y municipales, serán impuestos de la calificación enunciada en el artículo precedente, debiendo facilitar en todo lo posible la acción del Ente Autárquico Mundial 1978.288
Nessa mesma lógica, o tópico 18 deliberava sobre a flexibilização de barreiras burocráticas e aparatos institucionais, tratando as atividades realizadas pelo EAM com motivo do mundial, como um caso excepcional e prioritário com suporte do próprio Ministério da Economia, o que dava o tom da vasta abertura gerencial, financeira e fiscal concedida à nova instituição,289 por cima das bases e regramentos econômicos estipulados pela ditadura:
Art. 18. – Para el mejor cumplimiento de sus funciones y la ejecución de todas las obras y trabajos en general y prestaciones de servicios contratados el Ente Autárquico Mundial 1978 deberá gozar de franquicias y trámites de excepción en materia cambiaria, bancaria, aduanera, impositiva y administrativa en general, que, en cada caso, serán establecidas con intervención del Ministerio de Economía de la
286 “Art. 26. – Los ingresos que obtengan las asociaciones deportivas participantes, la F.I.F.A. y las confederaciones continentales asociadas a ésta, con motivo de celebración de la Copa Mundial de la F.I.F.A.
1978, quedan exentos de cualquier clase de impuestos”. Ibid., p. 1997.
287 A pressa em iniciar os trabalhos, e dar logo prosseguimento com as obras, aparecia também na nota assinada pelo Contra-almirante Julio J. Bardi, Ministro de Bienestar Social, que acompanhava o projeto de lei enviado para a sanção de Videla: “dado que se está en tiempo límite para continuar y/o iniciar las obras y tareas correspondientes a la erección de la infraestructura necesaria y a los distintos trabajos de organización y comercialización, solicito de V. E. el pronto tratamiento y despacho del adjunto proyecto de ley”. Ibid., p. 1995.
288 Ibid., p. 1996.
289 Outro exemplo bastante interessante consistia nos artigos 21 e 22, que isentavam de tributos e demais imposições aduaneiras as importações realizadas pelo ente, tendo como única exigência, para a liberação e despacho desses benefícios, a apresentação de um certificado outorgado pelo próprio EAM.
Nación y que deberá quedar taxativamente establecidas en la reglamentación de esta ley.290
Essas passagens prévias são apenas uma amostra dos vastos poderes e concessões previstos no texto legal, que apresentava o EAM e, concomitantemente, atribuía um formato institucional ao apregoado interesse dos militares pela Copa do Mundo de Futebol, em especial diante do apelo massivo e midiático do evento esportivo291. Contudo, outro artigo do documento trazia um elemento distinto, que buscava incorporar o apoio e, dentro do possível, a participação de representantes específicos da sociedade civil, por meio de um conselho assessor:
Art. 5º – Dependiente del Ente Autárquico Mundial 1978 actuará un consejo asesor, que tendrá por funciones dictaminar en todas las cuestiones sometidas a su consideración. Este consejo asesor podrá actuar en forma plenaria o en salas especializadas por materia.292
Com uma função consultiva, o conselho podia emitir pareceres sobre qualquer tema que fosse levado a sua consideração, mas estava submisso ao ente e não possuía um poder efetivo de decisão. Contudo, ao incorporar atores sociais externos, coniventes com os rumos políticos do país, o organismo garantia o apoio de importantes lideranças setoriais, algumas delas com voz pública ativa, e aportava um senso de aprovação às medidas e operações colocadas em prática pelo organismo estatal. De acordo com algumas publicações e materiais produzidos pelo próprio EAM, especialmente os boletins oficiais lançados pelo organismo a partir de novembro de 1976 – sem uma periocidade regular –, o conselho era composto pelo Dr. Reinaldo Augusto Bovone, Sr. Carlos Alberto Fontanarrosa, Sr. José Maria Muñoz, Dr.
Benito Noel, Sr. Santiago Saccol, Sr. Mario Roldán293.
Bovone matinha relações próximas com os militares, entre os quais o futuro presidente do EAM, o general da reserva Antonio Luis Merlo, e, mais tarde assumira também
290 Ibid., p. 1996.
291 Além da lei que originava o EAM, uma série de outras medidas legais foram lançadas nos anos seguintes. Um dos mais importantes foi o decreto 1820, de agosto de 1976, que regulamentava o funcionamento do projeto de lei e ampliava ainda mais os poderes da entidade, garantindo a colaboração de outros órgãos e instituições oficiais, eximindo-o de normas que poderiam impedir a contratação de serviços diversos e a aquisição de equipamentos, assim como de entraves no manuseio de fundos públicos e a flexibilização na prestação de contas.
O mesmo documento seria referendado também pelos ministros do interior, justiça, economia e bem-estar social, o que ampliava ainda mais as bases de apoio e suporte institucional ao organismo.
292 Ibid., p. 1995.
293 Boletin EAM’78, n. 2, dez. 1976.
importantes cargos executivos na Argentina Televisora Color294. Já Noel, como vimos anteriormente, presidia o comitê organizado pela AFA com motivo do mundial e era o representante da entidade na FIFA. Saccol e Roldán também integravam o comitê ao lado de Noel, respectivamente como vice-presidente e secretário. Por último, Muñoz e Fontanarrosa se destacavam como nomes de referência entre a mídia especializada do período. Como relator da Rádio Rivadavia, Muñoz havia se consolidado como um dos principais locutores do país; tinha grande apelo popular e, desde as cabines e estúdios de transmissão, havia se transformado em uma das vozes mais destacadas na defesa intransigente da Copa de 1978, pregando tanto a realização do campeonato quanto o suporte e adesão massivos da população, sob a égide da nacionalidade. Fontanarrosa, por sua vez, ocupava havia mais de uma década a direção de El Gráfico, a revista esportiva de maior destaque do período, contumaz defensora do selecionado de Menotti e do mundial295. A participação do radialista e do editor no conselho remetia tanto ao apoio de determinados segmentos da imprensa, quanto implicava na ciência e conivência com a criação do EAM, assim como a apropriação da ditadura sobre o evento esportivo. Amostra disso é que o anúncio da nova lei foi recebido majoritariamente com entusiasmo. Ao longo dos anos seguintes, ao menos até a realização a Copa, intervalo durante o qual a ditadura encabeçada por Videla se manteve absoluta no comando do país e consolidou seu projeto repressivo fundador, grande parte da imprensa não só foi quase isenta de críticas, como deu visibilidade às medidas tomadas pelo EAM com entusiasmo.
Se no contexto vigente de controle, violência e censura não havia espaço para profusão de críticas abertas e contundentes, a mesma lógica não pode ser aplicada na profusão de discursos favoráveis às ações da ditadura sobre o mundial, sobretudo quando se recorre à justificativa da negação e desconhecimento do complicado quadro político do país. Ainda que as denúncias quanto às detenções arbitrárias, execuções e torturas em prisões clandestinas, além dos infames desaparecimentos, não fossem de pleno conhecimento da população, embora os rumores circulassem sobretudo entre os membros da imprensa, os desmandos institucionais e as ações autoritárias eram públicas e notórias, inclusive na ingerência discursiva e institucional sobre a Copa do Mundo. Nesse sentido, a admissão e suporte de
294 Como passaria a se chamar a Argentina 78 TV Color após o mundial, emissora criada pelos militares para cuidar da transmissão do campeonato e garantir o envio do sinal a cores para o exterior, uma das principais exigências da FIFA. Voltaremos ao tema adiante.
295 Cabe lembra que El Gráfico era uma publicação do Editorial Atlántida, cuja linha político-ideológica foi de convergência e suporte ao novo governo, inclusive na solidificação do argumento da guerra contra subversão.
parte da imprensa – como veículos de comunicação privados com voz pública –, assim como de diferentes setores da sociedade, era algo consciente296.
Apenas alguns dias após da sanção do projeto que criava o EAM, El Gráfico saudava a medida tomada pelo governo militar em seu editorial, assinado justamente por Carlos Fontanarrosa. Como prenunciava o título, “Qué esta Ley tenga vida”, o texto assumia um tom de aprovação elogiosa à ação do governo. O primeiro parágrafo resumia os mais recentes, como o nome da organização, sua ligação direta com a presidência e os nomes dos futuros mandatários do órgão, assim como as impressões da revista:
El Poder Ejecutivo Nacional sanciono y promulgó la ley n. 21.349 por la cual se crea en ENTE AUTARQUICO MUNDIAL 1978 con dependencia directa de la Presidencia de la Nación. Dicho organismo será presidido por el general de Brigada (RE) Omar Actis y como vicepresidente el capitán de Navío Carlos Lacoste. En las próximas horas se designarán los encargados de las distintas áreas para que este instrumento legal tenga vida. En ese momento veremos a nuestro Mundial definitivamente en marcha. A menos de dos años de su realización el acontecimiento cumbre del fútbol encuentra en el Gobierno Argentino un respaldo serio y decidido.
Es justamente lo que se necesitaba.297
O resto do editorial se ateve a reproduzir, integral ou parcialmente, alguns dos artigos mais destacados do projeto. Entre os quais estavam a declaração do ente como organismo independente e com liberdade de ação; a constatação da urgência de suas atividades; a exigência da colaboração dos organismos públicos nos diferentes níveis; as fontes de recursos previstas; o suporte do Ministério da Economia; e a regulamentação da eventual transferência de valores a FIFA e a seus filiados. Ao elencar alguns dos principais tópicos da legislação, El Gráfico demonstrava conhecer o texto e, mais importante, o teor do conteúdo, além de contribuir com sua propagação entre os leitores. O entusiasmo do semanário esportivo com a tomada do evento pelos militares era latente, à revelia de qualquer ponderação sobre os gastos que o evento demandaria ou reflexão sobre as intenções da ditadura. O vínculo direto com a presidência e o respaldo do governo eram vistos como trunfos na realização da competição, como se a intervenção autoritária sem mais debates intermediários fosse, tal qual sintetiza a
296 É importante destacar que o apoio ao evento e a torcida pela seleção, liderada por Menotti, possuem pontos de aproximação e distanciamento que não podem ser considerados da mesma maneira. O suporte à seleção a partir do vínculo cultural e afetivo com o futebol, bem como a representação associada ao selecionado, não é mesma em relação ao evento que passa a ser organizado pelo Estado. Desse modo, ser contra ou a favor da Copa não remete um mesmo posicionamento, contra ou a favor da seleção. Em diferentes momentos e circunstâncias, é certo que essa relação se confunde, sobretudo para os sujeitos, o que implica também a mistura de um sentimento de apoio à equipe com o de apoio, ou omissão, aos desmandos e abusos autoritários da ditadura.
Sentimentos estes que se tornam mais evidentes, sob o exame da memória e as acusações posteriores sobre a legitimidade do resultado obtido dentro dos gramados. Voltaremos a esse assunto nos capítulos posteriores.
297 FONTANARROSA, C. Qué esta ley tenga vida. El Gráfico, Buenos Aires, n. 2962, p. 4-6, jul. 1976. p. 6.
última frase do parágrafo citado, exatamente o que a combalida Copa da Argentina necessitava para acontecer.
Embora a revista celebrasse a criação da lei, o organismo ainda estava em uma fase de organização e não havia iniciado plenamente seus trabalhos, embora fosse notório que, desde março, a armada, especialmente por meio da representação de Lacoste, mantivesse uma movimentação ativa nos bastidores. O lançamento oficial ocorreria no dia 19 de agosto, com uma entrevista coletiva que deveria ser conduzida pelo general da reserva, Omar Actis, convocado por Videla para assumir a presidência do EAM 78. O fato é que Actis jamais realizou a entrevista. Na manhã daquele mesmo dia, o militar foi morto em um atentado creditado a uma ramificação dos Montoneros, organização da esquerda peronista revolucionária e guerrilheira, já bastante desarticulada no país durante o ano de 1976, mas ainda assim um dos alvos prioritários da ação da ditadura.
Embora a revista celebrasse a criação da lei, o organismo ainda estava em uma fase de organização e não havia iniciado plenamente seus trabalhos, embora fosse notório que, desde março, a armada, especialmente por meio da representação de Lacoste, mantivesse uma movimentação ativa nos bastidores. O lançamento oficial ocorreria no dia 19 de agosto, com uma entrevista coletiva que deveria ser conduzida pelo general da reserva, Omar Actis, convocado por Videla para assumir a presidência do EAM 78. O fato é que Actis jamais realizou a entrevista. Na manhã daquele mesmo dia, o militar foi morto em um atentado creditado a uma ramificação dos Montoneros, organização da esquerda peronista revolucionária e guerrilheira, já bastante desarticulada no país durante o ano de 1976, mas ainda assim um dos alvos prioritários da ação da ditadura.