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A maternidade como perda de si

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA (páginas 102-105)

3. NAS CIDADES DE ALICE

3.5 A maternidade como perda de si

Uma maternidade conturbada é tema recorrente nas obras de Karim Aïnouz. Em O céu de Suely, a personagem Hermila sente-se, de certo modo, presa à lembrança do companheiro que a abandona através do filho, que, como apontam as outras personagens, é “a cara do pai”, além de ter também o mesmo nome do genitor: Matheus. Os cuidados com a criança são ponto de conflito entre ela e a avó, que, em determinado momento, manda que ela “cuide desse menino hoje”.

Com 21 anos, a personagem sente o peso da responsabilidade com o filho pequeno e quando finalmente consegue o dinheiro para ir embora da cidade é dissuadida pela avó de levar a criança. Hermila chega a Iguatu com os braços pesados, carregando o bebê e toda uma bagagem que, naquele momento, já podemos intuir, pela construção da mise-en-scène, é

também metafórica. Ela parte com os braços vazios e o rosto sereno, sem a criança. A própria mãe da personagem é uma incógnita. Em todo o filme, nenhuma menção é feita a ela ou ao pai da protagonista. A maternidade, para aquela jovem, é pesada demais. Como pode também ter sido para sua mãe, de quem a narrativa nada revela.

Em A vida invisível (2019), a perspectiva de tornar-se mãe é aterradora para a protagonista Eurídice, que deseja ser uma pianista famosa. Após o casamento, ela tenta evitar uma gravidez a todo custo, mas tendo se casado antes da revolução sexual e da invenção da pílula, ela acaba sucumbindo. A partir daquele momento, os sonhos de Eurídice de virar uma pianista de renome e reencontrar a irmã perdida se tornam mais distantes, mas ela não desiste. Quando, anos mais tarde, descobre que a irmã estava na mesma cidade que ela e que, supostamente, estaria morta, a personagem tem um surto e põe fogo em seu piano. Depois dessa cena, Eurídice aparece em uma maca de hospital, completamente fora de foco, enquanto o médico conversa com seu marido sobre o tratamento para o transtorno maníaco depressivo com o qual ele a diagnostica e sobre uma segunda gravidez, a respeito da qual ninguém sabia até ali. Os dois homens conversam e decidem o que seria feito dela e a personagem na tela é apenas um borrão, presa à vida doméstica, sem a possibilidade de reencontrar a irmã. A partir dessa maternidade compulsória, ela se torna invisível. Tudo o que Eurídice poderia ter sido e não foi por causa da estrutura patriarcal, do papel de mãe de família, culmina ali, naquela cena.

Em Alice, essa representação de uma maternidade problemática se repete. Depois de se envolver com um empresário bem sucedido e casado, Alice descobre que está grávida. Ao procurar o ex-amante para dar a notícia, a personagem recebe a proposta de viajar até os EUA para realizar um aborto. Desolada, ela ainda precisa lidar com o ex-noivo que vai a São Paulo procurá-la. Confrontada com uma gravidez inconciliável com os planos que tinha até ali, Alice permanece paralisada diante do fato. A maternidade representa uma interrupção brusca dos seus planos, uma força arrasadora com potencial de reconfigurar sua existência e sobre a qual ela não teria controle.

Quando, em Seams, Aïnouz trata de questões tais como o machismo no Nordeste brasileiro, usando para isso as histórias de sua própria família, é possível perceber como ele se filia à compreensão do papel social opressor destinado à mulher enquanto mãe, fortemente discutido pelo feminismo dos anos 1960 e 1970. Segundo autoras como Betty Friedan, em Mística feminina (1971), é a partir dessas reflexões que a maternidade passa a ser vista como “uma condição biológica utilizada socialmente para restringir a mulher ao espaço doméstico e, nesse sentido, oprimi-la” (TOMAZ, 2015, p. 157). Para os estudos feministas de meados do

século XX, a maternidade acontecia não apenas como um fato biológico, mas como um fenômeno social a serviço da opressão feminina. Ocupar o papel de mãe, de cuidadora, seria estar alijada da participação nas instâncias sociais de poder e a negação da maternidade apareceu como uma forma de resistência a essa exclusão.

Recentemente, a discussão mudou; passou de evitar a maternidade para ressignificar o papel materno. A luta feminista contemporânea passa pela reivindicação de um espaço social que crie possibilidades de inclusão para as mães. Mas o fato de essa discussão estar posta na mesa traz à luz o fato de que a maternidade ainda é uma condição ligada a um apartheid social da mulher.

A angústia presente na ambivalência do papel materno é um constituinte importante das personagens Hermila e Alice. Através delas podemos observar uma ressonância dessa discussão feminista na ficção criada por Karim Aïnouz. Há um diálogo estabelecido com a estrutura social que se impõe sobre a subjetividade dessas mulheres criadas nessa instância ficcional.

A vida que Alice idealiza para si com sua permanência em São Paulo vai diametralmente contra a tomada de posição do papel de mãe que se apresenta. Um conflito moral se estabelece quando a personagem declara várias vezes que não está preparada para se tornar mãe, mas, ao mesmo tempo, não aceita a proposta de Lourenço para viajar ao exterior e realizar um aborto em um país em que a prática é legal e segura. Durante o episódio, a personagem anda pela cidade reparando nas mães que encontra pelo caminho enquanto prepara um documentário que será exibido na festa de 25 anos de casamento de um casal de atores famosos que possui um matrimônio feliz.

Essa situação faz com que ela ponha em paralelo a vida que almeja e a possibilidade de uma outra vida, em que a instituição familiar fosse o objetivo central. Essa vida que havia sido desejada e planejada por Alice antes de chegar a São Paulo se apresenta como uma possibilidade não apenas pela gravidez, mas pela aparição do ex-noivo, que, após uma discussão violenta, diz estar disposto a assumir a criança que ela espera. No entanto, percebemos aí que o encaminhamento para uma volta a esse antigo plano não é considerado pela personagem como uma possibilidade, mas sim como uma ameaça. Para ela, seria retroceder.

Mesmo com o olhar afetuoso que a vemos dispensar às mães e crianças que encontra no caminho, mesmo com os momentos em que aparece visivelmente emocionada, como quando o casal de atores lhe mostra a foto do nascimento de seu primeiro filho, há vários indícios na mise-en-scène que nos mostram o embate da personagem com sua nova condição.

Quando Henrique aparece de surpresa, ela o recebe com muitas reservas. Mesmo depois que conversam sobre ele assumir a paternidade da criança, o desconforto entre os dois está presente o tempo todo. A falta de uma trilha sonora de background é um indicativo de que as personagens não chegarão a um acordo amoroso. Depois da proposta de Henrique — à qual Alice não responde — os dois vão até uma boate com os amigos dela e ele parece extremamente desconfortável. O mesmo se dá com Alice, que sai da pista para vomitar. Ela se move com uma postura que destoa da festa do local, assim como Henrique, que não sabe o que fazer com as mãos. Deslocado, sem pertencer àquele local, ele tem sua condição atestada pela personagem Monique, que comenta com Alice “Esse cowboy aí é cafona, mas é um gostoso” (ALICE, 2008, cap. 5).

Em nenhum momento, Alice chega a colocar em palavras sua recusa, mas Henrique, assim como o espectador, percebe a resistência da personagem à possibilidade de voltar a Palmas e recomeçar uma vida com ele. O ex-noivo então decide ir embora e, em uma conversa com a tia de Alice, diz ter percebido que ela não depende mais dele.

Várias questões podem ser pensadas nesse episódio sobre a maternidade, mas a principal delas é que, para a personagem, ela se configura como uma ameaça ao estilo de vida que ela deseja. Ao mesmo tempo, Alice faz constantes menções à figura da mãe, Marina, já falecida, de quem se lembra com muito carinho, e essas menções voltam a ocorrer quando ela se descobre grávida.

A discussão da maternidade como a perda de si não fica restrita à protagonista na série. A personagem Dora, uma mulher de meia idade que se envolve romanticamente com a tia de Alice se vê impedida pela filha de continuar o romance. Sua condição de mãe — mesmo que de uma mulher adulta — aparece como um impeditivo para que ela realize um desejo.

Em seu diálogo com a sociedade, a obra de Aïnouz — também em nosso objeto — não ignora as potencialidades trazidas pela imposição social da maternidade para a fabulação da trajetória de uma personagem ficcional.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA (páginas 102-105)