4 O POVOADO DE MATINHA DOS PRETOS: DE QUILOMBO
4.1 ORIGEM DAS TERRAS
4.1.6 A Matinha de hoje: desafios e perspectivas
A construção, desconstrução e reconstrução do espaço geográfico são processos concomitantes e ocorrem gradualmente num movimento constante e cumulativo. Esse processo se materializa nas relações construídas e engendradas ao longo do tempo no cotidiano da sociedade. Na Matinha, muito do que se observa hoje resulta de uma construção historicamente construída por aqueles e aquelas que estabeleceram e consolidaram seus laços familiares com aquela terra. Pensando a construção do espaço geográfico e estabelecimento do território da Matinha no passado e no presente um morador, de 31 anos, assim a define e qualifica:
Eu nem queria falar nesse ponto. Como é que tá a Matinha hoje? Eu ainda acho que estou, não vou mentir pra você, não é por eu ser da Matinha, mas eu ainda acho que estou num paraíso apesar de tudo, apesar dos pesares! Eu ainda acho que estou num paraíso, eu acho que vão acontecendo algumas coisas na Matinha que não deveria acontecer. Não era pra acontecer porque você sabe que as drogas estão no mundo todo na verdade, mas assim, há alguns anos atrás se você chegasse aqui na Matinha ninguém ouvia falar disso em outros tipos de drogas. Podia até falar assim: maconha esses negoços. Essa coisa toda aí, que era coisa de um, dois, três aqui que se falasse, era uma briga na certa. Mas hoje como a droga tá em todo local, não deveria tá aqui. Não deveria ter entrado forte desse jeito, mas eu volto de novo, questão de governança ou num tem governante, ou não tem autoridade só da localidade. Eu acho que o pessoal num pensa no social. Num pensa no bem estar da comunidade. Quando você for fazer alguma coisa você tem que pensar nisso tudo. Não é só fazer aquilo ali. Quando você for fazer o movimento, você tem que pensar em todos os aspectos. Eu acho que a Matinha hoje uma das forças importantes na Matinha, é o futebol se você tiver oportunidade de uma rodada do campeonato aqui da Matinha você vai ficar até impressionada com o público que é entendeu? Com a movimentação que se dá aqui. Então eu achei que algumas pessoas que estavam na direção, mexendo com negoço de futebol. Eu acho que vacilaram muito. A gente trabalhava aqui com futebol, pessoas com jogadores daqui do distrito mesmo da localidade e era um campeonato tranquilo beleza. Num tinha essas coisas tudo aí começaram a abrir exceção, contratar jogador, trazer jogador de outra cidade, sem saber índole de jogador, sem saber nada. Aí, é fazer o futebol sem se preocupar com o social. Sem se preocupar com o bem estar, do pessoal com a família da própria comunidade e aí você traz a pessoa, num sabe quem é a pessoa. Pode ser um ladrão, pode ser um arrombador, um estuprador, um traficante. Aí, começa, por exemplo, começa aí vai um traficante aí, por exemplo, vai que aqui lá em 2000 vamos supor em 2000 aqui não se conhecia crack, não se conhecia cocaína. Esses negoço vai passando passa pra um, depois passa pra um, passa pra outro, e aí faz uma devastação terrível que ninguém toma conta. Mais ninguém sabe dominar como ta em Feira de Santana na Bahia toda. Eu acho que se tivesse pensado nisso aí também a coisa tava melhor em relação a esses aspectos de drogas. Esses negoço, mas violência não, por que aqui é sossegado eu não tenho nada a reclamar desse lugar (Pesquisa de Campo, Entrevistado 11).
A reflexão do entrevistado demonstra algumas transformações recentes vivenciadas pela Matinha e seus efeitos. Esse processo trouxe alguns aspectos negativos, tal como o uso de drogas que, na sua visão, tornou-se mais intenso, devido à
reduzida atuação do poder público municipal sobre a área. Associado a isso, a chegada e circulação de pessoas externas à comunidade, tendo como uma de suas portas de entrada a chegada de jogadores de futebol oriundos de outros lugares intensificou esse processo. No entanto, ele demonstra sua relação de pertencimento, seus laços construídos naquele espaço ao afirmar que “é um paraíso, apesar dos pesares.” Vejamos outro relato que também define a Matinha de hoje.
É completamente diferente, a Matinha hoje! Vamos dizer você conhece uma metrópole? Nós que convivemos isso, lá em baixo a gente vê, hoje a Matinha, você vê a Matinha, você vê gente que não se sabe quem é, pessoas que não teve origem nenhuma com a Matinha, pessoas de outras localidades. Se fizer loteamentos que quando você olhar na mesma hora já vendeu por que todo mundo quer comprar pra ir morar. Então é uma população que cresce de uma maneira, assustadoramente, cresce de uma maneira que você não tem controle. Você vê que na época do prefeito Zé Ronaldo ele dizia que não tinha como controlar o crescimento da Matinha, a Matinha tem um colégio hoje que tem dez salas de aula só num colégio, em cada esquina tem um colégio, então você vê como funciona a Matinha hoje é completamente diferente, vem crescendo assustadoramente, transporte toda hora, subindo e descendo, o Jacú também, isso não existia a Matinha antigamente só tinha a venda que meu pai atendia à comunidade e tinha o pau de arara que toda segunda-feira fazia as compras. Eu lembro muito bem que eu era o responsável pela venda, e quando era domingo eu fazia a relação e entregava a meu pai e segunda-feira ele vinha pra aqui e comprava se faltasse alguma coisa, só na outra segunda. O transporte era um só que saia da Matinha pela manhã, voltava a tarde no pau de arara e pronto. Acabou quando eu entrava nesse caminhão pra ir pra Feira. Rapaz! Eu me sentia o homem mais feliz do mundo! E aí de geração em geração e o povo tá sempre construindo ali, mas não sai dali, a maioria não sai dali então como a comunidade se desenvolveu e se desenvolve de tal forma, não há necessidade, porque, por exemplo, uma região como a Matinha da zona rural que tem água, luz, telefone e transporte então não tem lugar melhor pra você morar não é verdade? Tem o transporte que você sabe que vai ter carro sete horas, oito, nove horas até onze da noite. Então ela cresce. Por isso, a origem da Matinha não perde porque a maioria do povo, o povo não sai, e quem sai quer voltar hoje, agora tá acontecendo muito isso: o povo que saiu por questão de necessidade na hora que se aposentou, já sabe o cara trabalha em Camaçari, trabalha em Salvador, fazendo seu terreno, a primeira coisa que ele faz é fazer a casa dele. Na hora que ele tem possibilidade de vir num feriado fim de ano é na Matinha. Na hora que se aposentou os filhos ficam por lá questão de sobrevivência, mas os outros vêm pra cá. A Matinha é isso aí (Pesquisa de campo, Entrevista 1).
Enquanto o primeiro depoente denuncia a falta de atenção por parte das autoridades municipais em relação à zona rural de Feira de Santana, especificamente da Matinha, o segundo permeia por outro caminho. Este último ocupa o cargo de administrador do distrito, tendo desta forma, uma relação direta com a atual gestão da prefeitura e se centra nos aspectos positivos acerca das transformações sócio-espaciais da Matinha. A chegada de pessoas de fora é vista por este depoente como um aspecto positivo, ao contrário do anterior, e afirma que esse processo possibilitou o crescimento
populacional na Matinha e a inserção de tecnologias como água, luz e telefone. Além disso, um aspecto que o depoente observa como positivo está relacionado aos transportes, sobretudo os que fazem linhas para Feira de Santana. Segundo ele, melhorou bastante, afirmando que em períodos anteriores as dificuldades eram maiores, pois as linhas para Feira de Santana eram feitas semanalmente, às segundas-feiras. Mas hoje tem transporte em vários horários por dia.
Esse progresso observado pelo entrevistado é inegável, fato verificado por grande parte dos entrevistados e entrevistadas. No entanto, observa-se que, apesar da evidente melhora, o transporte oferecido pela prefeitura ainda é precário, sendo insuficiente para atender à população que ao ver do próprio entrevistado “cresce assustadoramente.” A maioria dos ônibus que fazem linha Feira-Matinha e vice-versa são de baixa qualidade. Assim, a população que se desloca constantemente para Feira e o contrário sofre com a precariedade do transporte coletivo, onde comumente os ônibus quebram no caminho, ocorrem super lotações, tumultos, as pessoas se atrasam para as suas atividades, fato que causa revolta na população. Essa precariedade também é observada nas vias de acesso. Em dias chuvosos, os carros encontram dificuldades no caminho para a Matinha, demoram muito tempo para chegarem aos seus destinos, sendo que as obras foram anunciadas há tempos pela administração municipal, evidentemente no momento da eleição, mas até tempos recentes pouco se tinha feito. As obras já iniciaram, mas ainda não foram concluídas. Estes fatos demonstram a pouca atenção por parte das autoridades municipais em relação à Matinha e aos distritos de maneira geral, denunciada nos relatos dos moradores.