3. O CASAMENTO DDE ESCRAVOS NOS ESPAÇOS DA FREGUESIA DE NOSSA
3.1 A Matriz de Nossa Senhora da Apresentação e o espaço religioso de Natal
A Cidade de Natal foi erigida no fim do século XVI, após os conflitos entre os conquistadores, enviados por Pernambuco com a autorização da Coroa e o apoio da Paraíba, e os índios Potiguara, de língua tupi, que habitavam o litoral leste deste espaço. Surgiu nas proximidades da Fortaleza dos Reis Magos, criada para afastar os franceses do litoral e servir como ponta de lança para a conquista da região dos indígenas e garantir o avanço para os territórios situados a oeste e noroeste228. No início do processo de territorialização, havia sido construindo um arraial próximo à fortaleza e era denominado de Cidade dos Reis. No entanto, este não era considerado um local ideal para a fundação de uma cidade, devido às condições do terreno. Assim, Jerônimo de Albuquerque, um dos conquistadores, buscou uma área mais elevada, à direita do Rio Grande, para se fundar a cidade229.
Sua primeira construção foi a capela, depois transformada em matriz, inaugurada com uma missa no dia 25 de dezembro de 1599, data geralmente considerada como o dia da fundação da cidade230. Segundo Câmara Cascudo, no momento da fundação da cidade, “teriam celebrado missa e erguido uma capelinha (…)”231
. A primeira missa teria sido celebrada pelo padre Gaspar de Samperes232.
A cidade possuía dois marcos de delimitação de seu termo, que eram representados por cruzeiros, um ao sul, ainda existente e conhecido como Santa Cruz da Bica, e um ao norte, onde existe hoje a Praça das Mães Martha Salem, antiga Praça Pedro Velho, como podemos ver na imagem a seguir:
228 LOPES, Fátima Martins. Índios, colonos e missionários na colonização da capitania do Rio Grande do Norte. p 32.
229
DIAS, Patrícia de Oliveira. Onde fica o sertão rompem-se as águas: processo de territorialização da ribeira do Apodi-Mossoró (1676-1725). 2015. 187f. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2015.
230
CASCUDO, Câmara. História do Rio Grande do Norte. Ministérios de Educação e Cultura. p. 28.
231 Ibid. 232 Ibid. p. 28.
Imagem 1- Planta da cidade de Natal e as cruzes que demarcavam seus limites (século XVIII)
Fonte: TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. Da cidade de Deus à cidade dos homens: a secularização do uso, da forma e da função urbana. Natal: EDUFRN – Editora da UFRN, 2009. p.521
As cruzes serviam como limite da jurisdição da cidade e eram reflexo da relevância da Igreja católica para a localidade, tendo seus limites administrativos representados por marcos religiosos.
Segundo o arquiteto Rubenilson Teixeira, a ereção da Cidade do Natal estava envolvida não apenas por um interesse militar e administrativo, mas, também, por um forte significado religioso. Os simbolismos religiosos eram muitos e manifestavam-se, mais visivelmente, na nomenclatura escolhida para cada construção iniciada. A fortaleza que estava sendo construída era chamada de Reis Magos, pois começara a ser erguida no dia 6 de janeiro de 1598. A Cidade do Natal recebeu esse título devido à data que em que foi criada, 25 de dezembro de 1599. Não eram coincidências, mas sim reflexo de uma empreitada muito mais espiritual que temporal, objetivando a conquista de terras, mas, principalmente, a expansão do Cristianismo233.
Sobre os contornos do espaço urbano no século XVIII, a cidade compreendia a Rua Grande e a Rua da Conceição e Santo Antônio, desembocando ao sul no rio de beber, ou Rio do Baldo, que atualmente, fica no encontro dos bairros do Alecrim e o bairro da Cidade Alta. Segundo Olavo de Medeiros Filho, havia um rio que abastecia os moradores da cidade e que era um afluente do rio Potengi. Era também conhecido como Rio da Cruz234.
De acordo com Monique Maia de Lima, a ocupação da cidade do Natal foi propiciada pelos equipamentos urbanos de cunho religioso, as igrejas e as cruzes, que delimitavam o território que se estendia enquanto sítio urbano de Natal. Por meio das afirmações de que as primeiras ruas foram construídas à sombra das igrejas e as cruzes serviam como limite de jurisdição da cidade que crescia no entorno da matriz, a autora concluiu que era o elemento religioso que determinava a espacialização do que foi considerado cidade durante este período235.
Além disso, segundo a referida historiadora, havia, na cidade, a vinculação entre o espaço e a prática, em relação à toponímia dos espaços. Verificou-se que os aspectos religiosos das vivências neste espaço influenciaram a nomenclatura dos topônimos, constatando que as denominações espaciais usadas no período colonial para designar os espaços da cidade possuíam o referencial hierotoponímico, ou seja, do imaginário religioso
233
TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. Da cidade de Deus à cidade dos homens: a secularização do uso, da forma e da função urbana. Natal: EDUFRN, 2009.
234 MEDEIROS FILHO, Olavo de. Terra Natalense. Natal: Fundação José Augusto, 1991. 235
LIMA, Monique Maia de. Por um chão "na rua que vai para o rio de beber": os vassalos d'el rei e a configuração espacial da cidade do Natal setecentista (1700-1785). 2018. 172f. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2018. p. 100-101.
que envolve nomes sagrados, como, por exemplo, Rua detrás da Igreja matriz, Rua de Santo Antônio, Rua da Igreja do Rosário, Caminho do Rosário, Caminho da Cruz236.
Até 1714, a Igreja matriz era o único templo religioso que existia na cidade. Derrubada durante os anos de dominação batava (1633-1654), em 1633, ela foi reconstruída no final do século XVII, após a expulsão dos holandeses. Em 1674, o capitão-mor da capitania do Rio Grande, Antônio Vaz Gondim, escreveu ao rei solicitando recursos para terminar de “levantar a igreja matriz”. Segundo Gondim, os moradores tinham iniciado a obra, entretanto, não tinham cabedal suficiente para concluir a construção. Ao fim, o capitão- mor ressaltou a importância da construção da igreja matriz para que houvesse repovoamento, afirmando que “acabando-se a igreja se povoaria a cidade”237
. Olavo de Medeiros Filho atribui a reconstrução da matriz ao vigário Leonardo Tavares de Melo.238 De fato, no Livro de Cartas e Provisões da Câmara de Natal, de 1668, pode-se encontrar um requerimento do povo da capitania, para ser conservado o vigário que reedificou a igreja, “destruída pelos holandeses”239
.
Os principais edifícios da cidade estavam localizados ao redor da praça principal e central da cidade (atual Praça André de Albuquerque). Nela estavam contidas a Casa de Câmera e Cadeia e a Igreja matriz, representando o poder civil e religioso. A historiadora Maria Fernanda Baptista Bicalho ressaltou que a ocupação do espaço urbano na colônia atendia a dois imperativos, que eram os militares e os religiosos. A geografia do espaço urbano e colonial do Rio de Janeiro, assim como de outras cidades do império ultramarino, refletiam o primado da cruz e da espada, da fé e da Coroa. Os espaços eram especializados em uma hierarquia espacial, existindo territórios de maior visibilidade do poder240.
Os valores conferidos a um espaço resultam da dimensão social deste. O espaço urbano em si não é “sagrado” nem “profano”. É o uso que dele se faz ao longo do tempo que lhe confere o sentido. No entanto, a organização do espaço urbano propriamente dito e de sua disposição, pode contribuir para conferir ou não um valor sagrado a esses espaços. De modo geral, as aglomerações surgem e se desenvolvem para cumprir uma ou várias funções. Essas
236 LIMA, Monique Maia de. Por um chão "na rua que vai para o rio de beber". 237
CONSULTA do Conselho Ultramarino ao príncipe regente D. Pedro sobre as cartas do capitão-mor do Rio Grande, Antônio Vaz Gondim, e dos oficiais da Câmara de Natal, acerca do estado de ruína da Fortaleza dos Reis Magos, da falta de munições e infantaria e acerca da reconstrução da matriz [de Nossa Senhora da Apresentação]. AHU-RN, Papéis Avulsos, Cx.1, D. 14.
238
MEDEIROS FILHO, Olavo de. Terra Natalense. p. 34.
239 INSTITUTO Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Fundo documental. Requerimento do povo
desta capitania, para ser conservado o vigário que reedificou a igreja, destruída pelos holandeses.. Livro de Cartas e Provisões do Senado da Câmara (livro 1) 1658-1668. f. 24.
240 BICALHO, Maria Fernanda. A cidade e o império: o Rio de Janeiro no século XVIII. Rio de Janeiro:
funções podem ser, nestes casos, de natureza militar, ligada à conquista e apropriação de território, política e também religiosa241.
Apesar de Natal ter nascido cidade242, dado o contexto da união dasCoroas de Portugal e Espanha, ela era muito incipiente em termos de estrutura. No ano de 1744, o Bispo de Olinda, Dom frei Luís de Santa Tereza, visitou Natal. Em seu “Relatório”, de 1746, descreveu-a “tão pequena, que além do título de cidade, Igreja Paroquial e poucas casas, nada tem que represente a forma de cidade”243
. Renata Costa destacou que o relato do bispo leva à conscientização de que a cidade, onde estava localizada a igreja mais importante (matriz), não era suficientemente atrativa, aos olhos dos párocos.
João da Maia da Gama, viajante e futuro governador da Paraíba e do Maranhão, depois de passar pela cidade, relatou:
Tem vigário com uma igreja suficiente, e tão antiga como a fundação (...). Assisti aos ofícios divinos da semana santa e sermões e tive uma grande consolação de que naquela pobreza se fizesse tudo com muita devoção e piedade e com muita modéstia nos homens e nas mulheres, em que observei um singular procedimento do vigário e coadjutor, o de dois clérigos, mais ali assistentes e todos por voz geral, e comum sem nota no seu procedimento o que foi singularidade para mim244.
Apesar da precariedade, a freguesia, como foi destacado no relato de João de Maia Gama, mantinha o cotidiano de uma paróquia do império ultramarino, seguindo, como era obrigatório, os ritos e festividades que compunham a vida religiosa dos cristãos daquele período. A Cidade do Natal, como centro deste espaço eclesiástico, era o local utilizado pelos fiéis para as práticas espaciais como as festas e as procissões.
A religiosidade católica da América Portuguesa, no século XVIII, denominada de barroca245, caracteriza-se por uma grande participação dos leigos, que realizam cerimônias religiosas em suas casas, nas capelas e igrejas. Promoveram, dessa forma, uma grande
241 TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. Da cidade de Deus à cidade dos homens.
242 Criada durante o período da união das Coroas de Portugal e Espanha, Natal já possuía o status de cidade
desde o seu surgimento, assim como a Filipeia de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), na capitania da Paraíba, pois esta era uma característica da administração do período filipino, pois os espanhóis não fundavam vilas. Esse título conferia uma importância honorífica à localidade. Cf. ALVEAL, Carmen Margarida Oliveira. Os desafios da governança e as relações de poder na Capitania do Rio Grande na segunda metade do século XVII. In: MACEDO, Helder Alexandre Medeiros; SANTOS, Rosenilson da Silva (Org.). Capitania do Rio
Grande: história e colonização na América portuguesa. Natal: EDUFRN, 2013. p. 29.
243 MEDEIROS FILHO, Olavo de. O que era Natal em 1746 (Do relatório de Frei Luís de Santa Teresa à Santa
Sé, em 1746).In: MEDEIROS FILHO, Olavo de. Terra natalense. Natal: Fundação José Augusto, 1991. p. 101.
244
Ibid. p. 35
245 REIS, João José. A morte é uma festa. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo:
variedade de devoções, geralmente instituídas em irmandades. De acordo com Annie Pontes, irmandades religiosas já se faziam presentes na Cidade do Natal desde meados do século XVII, visto que por este tempo o visitador eclesiástico Dom Matias, ao passar pela cidade, registrou existirem quatro delas em Natal. A Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos era a mais antiga da Cidade do Natal e organizava a Procissão dos Passos na Quaresma, assim como as festas pascais, auxiliando na Festa de Nossa Senhora da Apresentação; a do Santíssimo Sacramento, que era responsável pelo culto ao Triunfo Eucarístico e a festa de
Corpus Christi, além da festa da padroeira; a de Nossa Senhora do Rosário de Natal, que
inicialmente era uma confraria de negros e mulatos, a qual dedicava-se à festa de Nossa Senhora do Rosário, a do Bom Jesus dos Martírios, ocorrida na primeira sexta-feira antes do domingo de Ramos, além da festa da Invenção da Santa Cruz; e a Irmandade de Santo Antônio dos Militares, composta por membros do Corpo Militar de Natal. Assim, percebe-se que existiam celebrações periódicas na Cidade do Natal, ligadas às irmandades246.
Segundo Kleyson Bruno Chaves Barbosa, eram as câmaras municipais das colônias portuguesas espalhadas pelo ultramar as responsáveis pela realização das três festividades mais importantes: Visitação de Nossa Senhora, Anjo da Guarda e Corpo de Cristo. Todo ano, no segundo dia de julho, deveria ser organizada a procissão em honra à Visitação de Nossa Senhora. Já no terceiro domingo de julho, festejava-se em procissão oAnjo da Guarda. A lei ainda afirmava que tais festividades deveriam ser celebradas na mesma comemoração que se realizava a Festa de Corpo de Cristo. Portanto, a estes conselhos municipais, tanto no reino, como nas colônias, cabia a organização da procissão de três festividades, tendo sido aumentado o número de festas obrigatórias ao longo do tempo, por meio de expedições de ordens régias247.
Porém, Kleyson Bruno Chaves Barbosa destacou que, segundo a documentação do Senado da Câmara de Natal, essas festividades, principalmente a Festa do Corpo de Cristo, eram celebradas apenas uma vez pela Câmara. Apenas uma vereação de 1712, em que os camarários registraram a obrigação em se realizar tal festividade, foi encontrada neste período do início do século XVIII, o que demonstraria o desinteresse em realizar estas festas. A decisão de se “fazer a festa de Corpo de Deus por ser festa real e ser o senado obrigado a fazê- la”, registrada na vereação de 26 de abril de 1712, o foi por influência da Ouvidoria da
246 PONTES, Annie Larissa Garcia Neves. Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos: Festas e funerais na
Natal oitocentista. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2008.
247
BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: governança local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 2017. 322f. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
Paraíba248. Paulo Possamai ressaltou que, ao longo do século XVIII, os camarários de Natal isentaram-se da responsabilidade de celebrar em nome da monarquia e da religião, tendo por justificativa principal a questão financeira249. Barbosa concluiu que provavelmente, essas celebrações continuaram a ser celebradas na Cidade do Natal, porém, sem as despesas camarárias, por meio de instituições religiosas, como as irmandades250.
No mapa a seguir, podemos observar o trajeto da procissão da Penitência em Natal, durante o século XVIII:
Imagem 2- Procissão da Penitência em Natal (século XVIII)
Fonte: TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. Da cidade de Deus à cidade dos homens, p.. 521
Por meio das procissões, e, entre outros usos do espaço, festas religiosas, os moradores também tinham um papel importante na construção desses lugares, principalmente por conferir sentidos a eles. Era por meio destas que o espaço era praticado e ressignificado.
248BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza. 249
POSSAMAI, Paulo. Celebrando a monarquia nos extremos da América Portuguesa: Natal e a Colônia do Sacramento no século XVIII. In: (inserir a referência completa)
As festividades atuavam no sentido de encenar a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, corroborando a ordem estabelecida por meio da legitimação da monarquia, catolicismo e a lógica de distinções, em uma organização hierárquica e fragmentada, além do papel pedagógico também estruturante em prol da manutenção da ordem social251.
O arquiteto Rubenilson Brazão Teixeira, estudando a secularização do espaço urbano na Capitania do Rio Grande, que teve no início da colonização uma presença forte do sagrado, devido ao fato de a Igreja Católica estar vinculada à monarquia no reino português, afirmou que os usos do espaço urbano de Natal eram marcados ainda por esse componente religioso no século XVIII. Embora o caráter diminuto da aglomeração urbana não permitisse que na Cidade do Natal fossem realizados espetáculos faustosos, os rituais, celebrações e costumes característicos de uma teatralidade religiosa estavam presentes no espaço urbano de Natal, sendo as procissões as grandes manifestações públicas e mais constantes da cidade. O autor ainda ressaltou que esta era uma sociedade cujo estado de espírito e mentalidade era guiado por valores religiosos, e, portanto, isto se refletia nos usos que eram feitos do espaço urbano, pois as celebrações religiosas/políticas, muitas vezes entrelaçadas entre si, ocorriam no espaço urbano do lugarejo ou no próprio entorno252.
A matriz possuía um papel central no processo de cristianização da freguesia. Ela era um locus, onde o vigário, responsável por toda a paróquia, incidia sua influência sobre as outras igrejas e capelas. Os sacramentos do matrimônio e do batismo eram administrados e registrados nos livros pelos vigários e padre coadjutores. O gráfico a seguir apresenta os números dos matrimônios realizados, de livres e de escravos, na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, dos 660 assentos dos três livros de casamento dos livres e o livro dos pretos e pardos que foram analisados:
251 TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. Da cidade de Deus à cidade dos homens. 252 Ibid
Gráfico 8- Matrimônios realizados na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação (1727-1760)
Fonte: Elaborado por Danielle Alves a partir dos registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação (1727-1760). Universo amostral: 114 registros.
Dos 114 assentos analisados, 78 (68%) apresentaram o casamento entre pessoas livres, enquanto 36 (32%) eram enlaces em que pelo menos um dos nubentes era cativo. Estes registros estavam distribuídos nos livros dos livres e no livro de pretos e pardos da paróquia. Nos livros dos “livres”, dos 514 registros de matrimônio, 87 foram de casamentos realizados na matriz, sendo 9 assentos em que pelo menos um dos nubentes era escravo. No livro dos pretos e pardos da paróquia, dos 146 registros apresentados, 27 mostram matrimônios de escravos realizados na matriz.
Nestes registros, podemos perceber a diversidade de qualidades e condições jurídicas entre os indivíduos que foram encontrados nos assentos envolvendo, pelo menos, um escravo. Nos três livros de matrimônio de livres da paróquia, se registraram o casamento de uma crioula, um crioulo, dois Gentio da Guiné, todos escravos, e uma índia forra. Os nove escravos encontrados estavam casando com parceiros livres.
No livro dos pretos e pardos, entre os vinte e sete assentos de casamentos realizados na Matriz, vinte e quatro apresentam a qualidade dos noivos, e todos eles mostram a sua condição jurídica. Foram encontrados nove crioulos, uma arda, quatro mulatos, um cabra, um tapuio, dois Costa da Mina, um mameluco, um cabra da nação tapuia, um preto Gentio da Guiné e vinte e seis gentios da Guiné. A tabela a seguir apresenta as qualidades e condições
Livres (68%) Escravos (32%) 78
jurídicas dos noivos que aparecem nos registros de matrimônios de escravos realizados na Matriz, em todos os livros de matrimônio analisados:
Tabela 2 – Qualidades e condição jurídicas dos nubentes não-brancos que casaram na Matriz de Nossa Senhora da Apresentação (1727-1760)
Qualidade Condição
Escravo Livre Liberto
Crioulo 11 - - Arda 1 - - Gentio da Guiné 28 - - Mulato 4 - - Cabra - - 1 Mameluco 1 - - Tapuio 1 - - Costa da Mina 1 - -
Cabra de Nação Tapuia 1 - -
Preto Gentio da Guiné 1 - -
Índia - - 1
Total 47 - 2
Fonte: Elaborado por Danielle Alves a partir dos registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação (1727-1760). Universo amostral: 24 registros
Na tabela acima, vemos que a maioria dos escravos que se casaram na Matriz era de origem africana. Nos registros, esses indivíduos foram classificados como Gentio da Guiné. Foram vinte e oito nubentes qualificados desta forma. Outros termos utilizados, com menor frequência, no caso dos africanos foram Gentio da Costa da Mina e Arda. Logo depois, temos um número significativo de crioulos – 11 indivíduos classificados assim, no total. Além disso, variadas qualidades classificando pessoas mestiças ou de origem indígena podem ser encontradas nestes documentos, como tapuio, índia, mameluco e cabra.