5 O PAPEL SOCIAL DO PROFISSIONAL DA INFORMAÇÃO
6.1 PAPÉIS E PERFIS PROFISSIONAIS SEGUNDO OLHARES
6.1.3 A MBE: competências e habilidades renovadas no âmbito profissional
A MBE vem sendo adotada em hospitais em todo o mundo e conta com a participação de bibliotecários em uma equipe multidisciplinar. Assim, a MBE expande o papel do bibliotecário, além da identificação da literatura para o envolvimento em práticas pedagógicas, ensinando a filtrar a informação de qualidade e fazendo a avaliação crítica da literatura.
Apesar de a MBE ainda não ser uma prática comum nos hospitais pesquisados, 4 (50%) bibliotecários reconhecem que o profissional da informação bibliotecário tem um papel importante no apoio a essa prática, como mediador informacional, ou seja, aquele que busca a informação, conforme bibliotecários B7 e B8:
É a pessoa intermediária entre a informação e o médico, dando suporte científico, tendo como papel principal a seleção, disseminação e atualização da informação aos usuários, de acordo com o perfil de interesse, através dos diversos suportes manuais ou eletrônicos que estejam disponíveis na sua área de atuação.
Serve como mediador, irá para cada médico a informação de qualidade e conteúdo que ele realmente precisa, isso é economia de tempo e o tempo é um fator primordial para os médicos; quanto mais rápido ele chegar a uma conclusão, a vida de um paciente poderá ser salva.
E os bibliotecários B1 e B6 reforçam:
É de vital importância, quanto ao uso da informação na prática da MBE, ele busca a qualidade refinando, filtrando a informação.
O papel do bibliotecário é fundamental em todo o processo educacional. E, em se tratando de prática da Medicina baseada em evidência, de maior relevância ainda, pois disponibiliza literatura para o aperfeiçoamento e prática médica.
Quanto aos demais bibliotecários, dois não respondem essa questão e dois informam que não têm conhecimento suficiente sobre o assunto para opinar, como salienta o bibliotecário B3:
Só através desta pesquisa é que tomei conhecimento da MBE.
O papel do bibliotecário no apoio à prática da MBE é também reconhecido e almejado pelos gestores dos hospitais pesquisados, como sinalizam os gestores M6 e M5:
Eu acho que o bibliotecário pode dar apoio promovendo cursos, por exemplo, eu, através de uma bibliotecária, tive acesso a um curso online dado pela Bireme, que me deu toda uma abertura, e foi um bibliotecário que me mostrou este caminho [...] eu acho que o pessoal da biblioteca pode realmente dar um apoio muito grande, nos mostrando caminhos, porque eles estão nesta área de pesquisa de dados [...]. Nós ocupamos muito tempo cuidando de pacientes, [...] a gente não conhece bem os caminhos, então, se eles nos mostram esses caminhos, estes atalhos para se chegar à informação é muito útil.
Todos os protocolos e condutas assumidos pela instituição ou serviço (clínica especializada ou não), quando descritos, devem incluir o necessário nível de evidência e a literatura científica que lhe dá apoio. Nesse caso, cabe à Bibliotecária da instituição interagir com a Equipe Assistencial, orientando e fornecendo material bibliográfico e mantendo atualizada a base científica, obtida nas diversas bibliotecas (Cockrane, MEDLINE etc.).
E acrescentam os demais gestores:
Eu acho um apoio importantíssimo. [...] na verdade fazer pesquisa gasta tempo, porque você tem que pegar, selecionar os artigos, às vezes, os artigos vêm em uma linha muito geral, tem que ir filtrando, então a bibliotecária
passa pra mim o que ela achou que tem mais a haver com a linha que eu preciso e depois eu já seleciono daquilo que ela filtrou, eu acho que dá um suporte muito grande pra gente [...] em função do resumo eu vejo quais são os artigos que eu vou querer na integralidade ou não (Gestor M4).
[...] o bibliotecário tem uma função e informação suficiente para dar apoio, não só o apoio institucional, mas também na questão de uma visão de busca e orientação para a pesquisa científica. Nós temos no hospital uma comissão de ensino que nós estamos não só apoiando esta comissão, como também colocando um assessor de pesquisa e ensino que tem visão crítica dessa atividade. Eu acho essencial que o bibliotecário participe desse cotidiano de conhecimento e certamente terá espaço para ele (Gestor M2).
[...] a participação do bibliotecário hoje vai ser mais importante na orientação, porque os alunos precisam ser orientados de como pesquisar nos bancos de dados eletrônicos (Gestor M1).
É extremamente importante como incentivador e apoiador. Infelizmente vem sendo a única via de acesso ao acervo científico para muitos. Penso que os profissionais devem ter habilidades necessárias para usar o apoio do bibliotecário menos do que o fazem hoje (Gestor M3).
Essas afirmações são positivas e enaltecem o trabalho do profissional da informação bibliotecário, no contexto hospitalar, assim como evidenciam a urgência de implantação de serviços, de acordo com o perfil dos usuários, e a implantação de programas de treinamento para o uso dos recursos informacionais. Do mesmo modo, apontam para o desenvolvimento de competências profissionais, a fim de, efetivamente, apoiar as demandas que emergem para o bibliotecário, no contexto do cuidado ao paciente nesta sociedade.
A MBE oferece para o bibliotecário a oportunidade de participar em todo o processo de informação, mas, para isso, é necessário que esse profissional se esforce para desempenhar um novo papel e se adaptar às mudanças que ocorrem nas profissões e, conseqüentemente, na do profissional da informação.
Na opinião da maioria (62,5%) dos bibliotecários hospitalares de Salvador, dentre os passos da MBE, o bibliotecário pode atuar, principalmente, na pesquisa eficiente das fontes de
informação e na avaliação da qualidade da informação, como também sintetizar a informação e chegar a uma conclusão correta, quanto ao significado da informação, conforme tabela 8:
Tabela 8 – Atuação no processo de MBE
Na busca da melhor evidência de pesquisa para a prática da MBE, o bibliotecário pode atuar em colaboração com o clínico em todo o processo informacional, conforme representado na figura 7, capítulo 5. Em parceria com o médico, o profissional da informação tem uma grande responsabilidade no processo de MBE, pois ele é o responsável pela localização, ou não, da melhor evidência de pesquisa que irá influenciar no tratamento do paciente.
O trabalho em colaboração passa a ser fundamental para o desenvolvimento da MBE nos hospitais e requer o desenvolvimento de habilidades nesse sentido. Como afirma o gestor M2:
O bibliotecário em um hospital, além de ter a organização da biblioteca, do acervo e do arquivo, nesse novo momento de informatização é essencial que ele participe também dessa equipe que a gente hoje desenvolve multidisciplinar e que ele desenvolva também sua capacidade nessa linha, possibilitando, então, que a pesquisa científica seja mais rápida e mais verdadeira, que atue também socializando a informação e publicizando, porque existe alguma dificuldade nessa linha de acesso.
Quanto às habilidades necessárias ao profissional da informação para atuar na área de saúde, ele deve aperfeiçoar-se no uso das tecnologias da informação, a fim de instruir os usuários a utilizarem a informação, em meio digital, disponível nas redes, como também precisa ter um sólido conhecimento da área de Ciência da Informação e especialização na área de saúde.
Atuação nas etapas da MBE Freq. %
Identificar os problemas relevantes do paciente 1 12,5 Converter os problemas em questões que conduzam às respostas
necessárias 1 12,5
Pesquisar eficientemente as fontes de informação 5 62,5 Avaliar a qualidade da informação e a força da evidência 5 62,5
Sintetizar a informação 3 37,5
Chegar a uma conclusão correta quanto ao significado da informação 3 37,5
50% 12,5% 12,5% 12,5% 25% 12,5% 50% 12,5% 12,5% 25% 12,5% 12,5% 12,5% 25% 12,5% 12,5% 12,5% 12,5% 12,5% 12,5% 25% 12,5% 25% 25% 37,5 12,5% 12,5% 12,5% 12,5% 12,5% 25% 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª 6ª 7ª 8ª 9ª
Selecionar, buscar, registrar, catalogar etc Planejar e executar estudos de usuários Capacitar e orientar os usuários Usar a tecnologia de informação Saber trabalhar em equipes multidisciplinares Avaliar a qualidade das informações Conhecer a metodologia da pesquisa médica Ter domínio do idioma inglês
Conhecer a terminologia em saúde 12,5%
Booth e Brice (2001, p. 175) identificam três barreiras para maior participação do bibliotecário na avaliação crítica da literatura médica, que são: a necessidade do conhecimento clínico (contexto), pouco conhecimento de modelos e métodos de pesquisa (métodos), de segurança no tratamento das estatísticas (habilidades).
As competências e habilidades necessárias ao profissional da informação para atuar na área de saúde vem sendo objeto de discussão em vários trabalhos publicados. Para ser um profissional atuante nesta sociedade, os bibliotecários, além de competências específicas da área em que estão atuando, precisam ter competências gerenciais, pedagógicas, de comunicação, sociais e políticas, com uma forte valorização das competências pessoais, conforme visto no capítulo 5.
Para os bibliotecários hospitalares em Salvador, as principais competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) requeridas ao bibliotecário para atuar em uma biblioteca hospitalar são: em primeiro lugar, o conhecimento da terminologia em saúde, sendo uma competência requerida a todo profissional que atua em áreas especializadas, pois, para atuar de forma satisfatória, precisa conhecer a área específica de atuação; em segundo lugar, o uso da tecnologia da informação, uma vez que esse profissional precisa utilizar a tecnologia de informação apropriada para adquirir, organizar e disseminar a informação; seguido de saber trabalhar em equipes multidisciplinares, conhecer a metodologia da pesquisa médica, entre outras, conforme gráfico 8.
A visão dos sujeitos pesquisados sobre as competências vai ao encontro com as competências determinadas pela Special Libraries Association (1996); o bibliotecário deve possuir conhecimento especializado do negócio de sua organização ou cliente.
Destaca-se também que a habilidade de saber trabalhar em equipes multidisciplinares é fundamental para o bibliotecário hospitalar, visto que ele é um membro integrante das equipes de cuidados de saúde. Porém, como advoga Drucker (1999), já debatido no capítulo 2, cada vez mais, o trabalho é realizado em equipes, contudo se sabe muito pouco como formá-las, como torná-las eficientes, que tipo de equipe é exigida por determinada tarefa, e essa é uma das grandes áreas de aprendizado desta era.
Bibliotecários precisam continuamente desenvolver habilidades, aprender tanto quanto possível sobre novas tecnologias, novas teorias educacionais e avanços no campo da saúde (PALMER, 1994); 50% dos bibliotecários estudados declaram que os conhecimentos e as habilidades que possuem atualmente não são suficientes para atender, satisfatoriamente, às necessidades informacionais de médicos, para uma prática baseada em evidências, e mostram- se conscientes da necessidade de capacitação.
Concordando com vários autores (ALMADA DE ASCENCIO, 1997; ARRUDA, 2000; BORGES, 2004), na atualidade, nenhum profissional tem condições de reunir todas as habilidades, as competências e os conhecimentos necessários para interagir e equacionar os problemas decorrentes dos fluxos de informação e conhecimento. Para solucionar esses problemas, é necessário formar equipes multiprofissionais em todos os níveis e processos: estratégicos, gerenciais e operatórios, e buscar a educação continuada. Como ressalta Valentim (2002, p. 130), “fornecer competências e habilidades profissionais, durante a formação profissional por meio dos conteúdos formadores, é papel da escola. Porém, manter essas competências e habilidades profissionais, após a sua saída da escola, é papel do próprio profissional.”
Nessa perspectiva, o profissional da informação precisa buscar o desenvolvimento de competências, tanto na educação formal, quanto na educação continuada, e essa educação deve apoiar-se nas competências e habilidades requeridas ao perfil desses profissionais. Para os bibliotecários hospitalares de Salvador, o manejo de tecnologias da informação é a competência mais importante para o desenvolvimento do bibliotecário neste século, conforme gráfico 9.
Manejo de tecnologias da informação 74% Gerenciais 0% Comunicação/ expressão 13% Pedagógicas 13% Outra 0% Sim 12,5% Não 75,0% Não indicou 12,5%
Gráfico 9 – Principal competência para o desenvolvimento do bibliotecário hospitalar.
De acordo com a literatura estudada, a competência tecnológica é importante, porém não é a principal; as competências de comunicação e pedagógicas também destacam-se como fundamentais para o desenvolvimento dos profissionais da informação, principalmente, no contexto hospitalar, diante da emergência da difusão da saúde baseada em evidências, e o papel que o bibliotecário exerce junto às equipes médicas, na transferência do conhecimento, principalmente, na divulgação e capacitação para o uso de bases de dados.