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A memória da palavra e a memória do falante

Capítulo 5 – Além da ponta do iceberb: os TOTs e as funções psicológicas

4. Contribuições da Filosofia da Linguagem e da Semiótica para a reflexão acerca

4.1 A memória da palavra e a memória do falante

O ponto de vista defendido por Ponzio e por Petrilli, ao relacionarem os tipos de memória com as diferentes relações entre o sujeito e a palavra, é fortemente influenciado pelo pensamento de Bakhtin, principalmente no que diz respeito ao papel da alteridade. Para Ponzio (2013c), não somente o sujeito seria dotado de uma memória, mas também a própria palavra, sendo que “a memória do sujeito e a memória da palavra não coincidem, sobretudo quando o sujeito decide fazer com que elas coincidam”. Petrilli (2013b)77, a esse respeito, afirma que se existe uma relação entre o sujeito e a linguagem, também existe entre eles um distanciamento, próprio da materialidade semiótica do signo verbal. Tal distanciamento faz parte do próprio processo de significação, pela relação de um signo com outros precedentes e sucessivos, tanto verbais quanto não-verbais.

Para Ponzio (2013c), esquecimentos como os TOTs podem ser interpretados como uma espécie de traição da palavra, de não coincidência entre a palavra e seu sujeito. Segundo o autor, “a relação entre o sujeito e a palavra é comparável à relação entre sujeitos, em que um deseja ter o outro em seu controle”, que se configuraria como uma “ilusória pretensão da identidade”. Já que nenhuma palavra pode ser propriedade de um sujeito, este tem a ilusão de que possui um nome, que o nome é seu (incluindo o seu próprio nome). Porém, “a palavra tem uma série de associações que o sujeito não controla; das quais o sujeito nem ao menos suspeita” (Ponzio, 2013c). Esses últimos tipo de associações, obviamente, seriam não-oficiais para o sujeito, encontrando dificuldades em emergir como discurso oficial (Voloshinov, 2006).

                                                                                                                         

76 O título desta seção da tese se refere a uma mesa redonda realizada em 2013, no IEL, a propósito do II

Encontro Contribuições de Bakhtin à Linguística e à Educação, em que participaram Augusto Ponzio, Susan Petrilli e o autor da tese. Os trechos aos quais recorremos, citados como Ponzio (2013c) e Petrilli (2013b), são traduções de registros em vídeo da referida mesa.

77 Ponzio e Petrilli usam diferentes metáforas acerca das relações humanas, para explicar o tema do

encontro de palavras e da ilusão de propriedade do sujeito com a palavra. Enquanto Ponzio fala do “marido que é o último a saber”, a autora diz que “é um pouco como a maternidade. Você pode gerar filhos, mas depois aqueles filhos não são sua propriedade”. Notas da mesa-redonda de 2013, já referida.

Para explicar essas associações, Ponzio (2010) recorre a Freud, mais especificamente no livro “Para uma interpretação das afasias”, no qual considera que a psicanálise nasce como uma linguística, precisamente como uma análise da palavra. De acordo com Ponzio, Freud revela o jogo de associações das palavras, ligadas à sua representação complexa, processo chamado de superassociação.

Segundo Coudry (2012:04), o aparelho de linguagem apresentado por Freud é formado de “associações entre elementos acústicos, cinestésicos e visuais que constituem o último estágio de reorganização dos estímulos periféricos, o que faz com que as informações sensoriais e motoras sejam constantemente reordenadas, rearranjadas”. Freud considera que a representação da palavra é associada ao objeto, sendo que a palavra corresponde a um intricado processo associativo na qual se “amarra” a representação do objeto. A representação da palavra, ainda que possa ser ampliada, é de caráter fechado, enquanto a representação do objeto é uma série aberta, que pode receber novas impressões em uma mesma cadeia associativa.

Dentro da perspectiva que lidamos nesta tese, é fundamental perceber que essas associações estão relacionadas à história da palavra na língua, assim como também à história do sujeito, sobretudo pela sua relação na alteridade. Cada palavra, conforme podemos ver com Vygotsky (2007), tem seu significado modificado, para cada sujeito, no decorrer de seu desenvolvimento. Essas relações dependem de como o enunciado se dá nas relações entre o eu-para-mim, o outro-para-mim e o eu-para-o-outro, que se arquitetam de maneira única, singular e irrepetível.

Sendo assim, a palavra tem uma história dentro da língua, memórias, em certa medida, comuns aos sujeitos – que vimos nos referindo como história da palavra na

língua. Por outro lado, há também uma história própria de cada sujeito com a palavra. De

acordo com Bakhtin (1984:202):

For a word is not a material thing but rather the eternally mobile, eternally fickle medium of dialogic interactions. It never gravitates toward a single consciousness or a single voice. The life of the word is contained in its transfer from one mouth to another, from one context to another context, from one social collective to another, from one generation to another generation. In this process, the word does not forget its own path78 and cannot completely free itself from the power of these concrete contexts into which it has entered. […]

                                                                                                                         

When a member of a speaking collective comes upon a word, it is not as a neutral word of language, not as a word free from the aspirations and evaluations of others, uninhabited by others' voices. No, he receives the word from another's voice and filled with that other voice.

Fica evidente, nas palavras de Bakhtin, a relação entre a palavra e a vida. A palavra não esquece seu próprio caminho na língua e não pode se libertar dos contextos concretos pelos quais passou. Lembremos ainda que, para Ponzio (2008:95), “otherness is part of individual and social memory and that the self cannot exist without memory”.

A esse respeito, gostaríamos de trazer dois dados, ambos relatados no Blog, que dão visibilidade a esta dupla natureza do signo: o fato de que se relaciona à língua e à sua história, diacronicamente, isto é, aos sentidos cristalizados na língua pelo trabalho de seus falantes (Geraldi, 1991) e à relação intersubjetiva entre a língua e o sujeito, num dado momento histórico-cultural, sincronicamente, e perpassada por todas as experiências do sujeito com a heterogeneidade da linguagem: as variantes sócio-culturais, os graus de formalidade dos registros, dentre outros.

Dado XIII: AP, sexo feminino, durante uma aula, tenta dizer uma palavra e reconhece que falou outra palavra, e não a palavra desejada, que ficou na ponta-da-

língua.

Relato do Blog.

Estava dando aulas. Falei que duas questões estavam "interpassadas", Parei a aula e disse: Peraí, não é interpassada. Falei errado. É... não conseguia achar a palavra. Os alunos disseram que entenderam... mas eu estava tentando achar a palavra certa... continuei tentando... é... interpassada... interpelada... não, entrelaçada... não! Interligada, interrelacionada. Demorei uns 20 segundos. Só vinha o "inter" na minha cabeça. Depois consegui "encontrar a palavra certa".

Dado XIV: VV, do sexo feminino, durante uma conversa sobre o casamento de um amigo, quando tenta dizer onde foi a lua de mel, mas a palavra não vem.

Relato do Blog.

Estava conversando com meu marido sobre as praias uma mais lindas que já vi ( por foto), onde o meu amigo H. se casou. Quando fui dizer o nome da praia a coisa ficou no ar, fiquei impressionada com o fato que a palavra estava ali, quase presente. Eu sabia, de antemão, que a palavra também era um nome de uma música baiana do "A cor do som". Não conseguia deixar de lembrar da foto e de como achei o local lindo. Fiquei procurando a palavra por uns 10 minutos. Sabia que a palavra terminava com “bar” - Somente descobri a palavra pensando na música, lembrando de - "O Azul de Jezebel, no céu de Zanzibar, feliz constelação...".

No primeiro dado, vemos claramente que o sujeito percebe que produz uma palavra que não gostaria de ter usado, ainda que tenha sido compreendida pelos alunos. Sua estratégia de procura da palavra é predominantemente guiada pela história da palavra na língua, sobretudo porque o mais proeminente, que lhe vem à tona, é o prefixo da palavra – inter. Ela mesma diz: “Só vinha o "inter" na minha cabeça” e, assim, outras palavras que começam com “inter” foram surgindo: interpassada, inter-relacionada,

interpelada, interligada, sendo esta última a que buscava, mas que por um instante chega

a rejeitar. Quando vem a palavra “entrelaçada”, também a rejeita, enfaticamente: “Não!”. É interessante notar que mesmo a palavra “entrelaçada” guarda relações semânticas com as demais. Como já dissemos, a palavra também revela aspectos da sua relação única e singular, no contexto em que ocorreu: uma variante culta, durante uma aula etc.

Já no segundo dado, durante uma conversa, o sujeito se esquece do nome de uma praia onde o amigo se casou. A história da palavra esquecida está intimamente relacionada a um acontecimento: o casamento. Contudo, VV se lembra que o nome da praia é o mesmo de uma música do grupo “A cor do Som” e diz que, durante uns dez minutos, tentou se lembrar desse nome, visualizando mentalmente o local que tinha visto

na foto. Isso também nos remete ao conceito de superassociação (Freud), tratado anteriormente.

Ainda que soubesse que a palavra terminava com “bar”, esta pista não lhe ajudou o suficiente. De fato, é raro que as pessoas tenham um TOT e se lembrem da sílaba final da palavra. Entretanto, neste caso, tratava-se da sílaba tônica, o que talvez possa explicar a sua proeminência. Acreditamos que, se “bar” fosse um sufixo, seria maior a chance de várias palavras surgirem, como foi o caso do prefixo “inter” no dado anterior. Outros estudos seriam necessários para avaliar esta hipótese. VV só se lembra da palavra “Zanzibar” quando recupera a canção: “O azul de Jezebel, no céu de Zanzibar, feliz constelação”. Deve-se ressaltar, ainda, que a letra da música não está correta; seria “no céu de Calcutá”. Tanto Calcutá, que foi trocada por Zanzibar, quanto Jezebel, apresentam a mesma métrica e mesmo número de sílabas, com a tônica posicionada no mesmo lugar dentro da palavra.

Poderíamos dizer que a palavra é lembrada conjuntamente com o seu contexto de ocorrência, sendo que o processo de seleção realizado pelo sujeito recupera o processo da própria criação poética e isso nos remete à história das palavras na língua, articulada em seus diversos níveis e de acordo com suas diversas funções, como assinalou Jakobson.