De acordo com os princípios gerais de divulgação científica, ou seja, com o preceito de que divulgar não é ensinar, não é mitificar a ciência e, sobretudo, é despertar o espírito crítico, o Museu da Geodiversidade abriu suas portas em dezembro de 2008 com o intuito de difundir o conhecimento das Geociên- cias por meio do acesso do público às coleções reunidas pelo Departamento de Geologia ao longo de cinquenta anos.
Figura 2: inauguração do circuito expositivo do Museu da Geodiversidade em 04 de dezembro de 2008, com a presença da Decana do CCMN, do Diretor do Instituto
de Geociências, do Chefe de Departamento de Geologia e do Diretor Adjunto de Graduação dos Cursos de Ciências da Terra.
Tal acesso, que pode ser chamado de democratização dos espaços da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é promo- vido por meio de um trabalho de educação não formal que trata a ciência como fruto de um processo de descobertas, de construção de conhecimento, com erros e acertos, e não como algo envolto por uma aura mística sobre a qual só sabemos o resultado, mas desconhecemos a dinâmica que permitiu tal descoberta. No Museu da Geodiversidade, as Ciências da Ter- ra são tratadas sempre em conjunto com o conhecimento de como se dá o trabalho minucioso e perseverante dos cientistas, daqueles que permitem a construção de um conhecimento
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acadêmico que é, então, utilizado pelo Museu para despertar no público geral a criticidade quanto ao papel que a Humani- dade vem desempenhando no mundo.
O desenvolvimento deste espírito crítico permeia todas as atividades do Museu, não só pelo comprometimento desta ins- tituição museológica com o bem-estar da sociedade, mas tam- bém porque o Museu é parte integrante da UFRJ, o que o dota de deveres e responsabilidades ainda mais específicos. Em ou- tras palavras, o Museu da Geodiversidade é, tipologicamente falando, um museu universitário, ou seja, um local de produ- ção e difusão de conhecimento, que deve ser responsável por auxiliar a universidade a cumprir o preceito de indissociabili- dade entre extensão, ensino e pesquisa. Isso implica que seu objetivo maior no interior desta instituição acadêmica seja o de garantir a existência contínua de um compromisso vital en- tre universidade e sociedade, de modo que as fronteiras ainda existentes se diluam no processo de construção desse diálogo. Ademais, também não poderia deixar de ser dito que o ano de 2008 foi eleito, pela Assembléia Geral da Organização das Na- ções Unidas (ONU), o Ano Internacional do Planeta Terra (AIPT), que coincidiu com a organização do 44º Congresso Brasileiro de Geologia, realizado na cidade de Curitiba. A necessidade de se eleger um ano que carregasse essa conotação foi uma deman- da do Congresso Internacional de Geologia de 2000, que cla- mava pela atenção das autoridades e das pessoas em geral sobre o potencial que as Geociências apresentavam para a construção de um mundo sustentável para as próximas gerações. É bastante sintomático que o Museu da Geodiversidade tenha inaugurado seu circuito expositivo justamente neste ano, em que também se comemorava os cinquenta anos de criação do primeiro Curso de Geologia no Rio de Janeiro. Portanto, mais uma vez, a responsabi- lidade de atuação do Museu da Geodiversidade aumenta, fazen- do dele uma peça-chave de divulgação das Ciências da Terra.
Vale lembrar ainda que, para o AIPT, o centro de atuação dos projetos que precisam ser desenvolvidos neste sentido deve
residir na pesquisa científica e na sua divulgação, ambas foca- das nos dez temas considerados prioritários: água subterrânea, (mega)cidades, clima, crosta e núcleo terrestres, desastres ma- turais, oceanos, recursos naturais (minerais e energias), solos, Terra e saúde e Terra e vida. Dentre esses temas, o Museu da Geodiversidade trabalha especialmente com a indissociabili- dade de compreensão entre a evolução da Terra e a vida que nela se desenvolveu ao longo do tempo. Para o Museu, geo- diversidade e biodiversidade constituem uma unidade cujos saberes são complementares, para entendimento do passado terrestre como chave do presente e prognóstico do futuro.
Conclusão
Em resumo, a crise econômica mencionada anteriormente não só clama por uma redefinição dos meios irracionais de obtenção de lucro (especulação, desregulamentação e explo- ração) como também estabelece um ultimato quanto à for- ma de extração dos recursos naturais necessários à vida do ser humano e de todo e qualquer ser vivo habitante do Planeta Terra. Inclusive, de acordo com alguns teóricos, o século XXI é o século das Ciências da Terra, já que o mundo precisará en- contrar um meio de obtenção dos recursos naturais ao mesmo tempo em que se verifica a necessidade de sua preservação. E, sem sombra de dúvida, essa solução finca suas raízes numa colaboração entre as ciências geológicas, biológicas e sociais, cuja forma de aplicabilidade, dentre inúmeras outras, é o pa- pel educativo que exercem os museus na sociedade.
O primeiro passo em direção a uma árdua luta pela divul- gação das Ciências da Terra, com o objetivo de democratizar o conhecimento acadêmico e, com isso, construir em conjunto com a sociedade alternativas para o futuro, já foi dado em 2008 pelo Departamento de Geologia da UFRJ, por meio da inauguração do Museu da Geodiversidade.
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Figura 3: circuito expositivo do Museu da Geodiversidade: módulo que conta a história do estudo da Geologia no Brasil e módulo que trata da evolução dos diferentes animais que se desenvolveram na Terra, sobretudo, ao longo da Era
Mesozóica
Sua atuação tem congregado profissionais de diferentes áreas no sentido de transformar este espaço museológico num verdadeiro templo de manifestação das musas, tanto material (Mouseion) quanto imaterial (Mousàon), onde a ciência é com- preendida como uma manifestação cultural do Homem. Ma- nifestação essa que anuncia boas-novas, como novas tecnolo- gias ou novos medicamentos que prolongam a estada do ser humano na Terra, mas que também anuncia crises nos recur- sos naturais, catástrofes e, em última instância, cataclismos que podem levar a uma redefinição traumática dos usos e abusos do homem no planeta que lhe dá sustento.
Em outras palavras, as Geociências neste espaço são com- preendidas enquanto manifestação cultural no sentido mais etimológico da palavra, ou seja, como algo digno de cultivo. E, para ser cultivado, o Museu optou por unir História, Arte e Geociências na sua linha de ação educativa, entendendo que, se conhecer é necessariamente criar novas formas de ver e atuar no mundo, as Ciências da Terra e as Ciências Humanas devem caminhar juntas, para através de seu diálogo alicerça- rem a ponte que desejamos construir entre o sujeito criativo, que todos somos, e o cidadão participativo, que todos dese- jamos ser.
O estudo da Geologia e da história da Geologia nos mos- trará que nenhum estudo do passado é mais vivo do que o
geológico, sempre a nos fazer entender o presente e nos aju- dar a pensar alternativas para o futuro. E a prática artística le- vará a um autoconhecimento, ao conhecimento de como nos expressarmos, de como lidarmos com nossas emoções, como darmos sentidos a tudo que experimentamos. Juntas, ciência, arte e história ajudarão a transformar todo conhecimento em experiências criativas e estéticas e é essa beleza, esse senso estético, que nos fará querer sempre mais.
Figura 4: stand do Museu da Geodiversidade no evento Ciência no Parque – Oficina “Conhecendo os Fósseis”
Figura 5: stand do Museu da Geodiversidade no evento Ciência no Parque – Oficina “Conhecendo os Fósseis”
E, nesta sede por saber mais, uma visão mais questionadora irá se constituindo, fazendo-nos entender o grau de responsabi- lidade do rumo que tomamos em nossas vidas e das ações que iremos praticar ao longo da nossa jornada, que é individual, mas também coletiva, que é poética, mas também política.
Em síntese, o Museu da Geodiversidade foi criado pelo De- partamento de Geologia da UFRJ justamente com o propósito
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de possibilitar uma leitura crítica da realidade que compreen- da a evolução do Planeta Terra de forma integrada com a vida nele existente. O termo geodiversidade, inclusive, cunhado re- centemente, simboliza o conjunto de ambientes, fenômenos e processos ativos que geram as paisagens, rochas, minerais, fós- seis e outros depósitos superficiais que dão suporte à vida na Terra. E, partindo deste pressuposto, todas as atividades edu- cativas desenvolvidas nos espaços do Museu buscam sempre a construção de um olhar mais cuidadoso, valorativo e respei- toso do homem em relação ao Planeta em que vive. Tal olhar, sem dúvida mais consciente, permitirá a compreensão de que os valores econômicos, tão caros aos que hoje procuram os profissionais da Geologia, devem se coadunar com a melhoria das condições de vida da população e com a preservação do local que lhe fornece abrigo e sustento: a Terra.
Figura 7: distribuição de artesanato produzido com minerais e rochas de idades e formações variadas (Oficina “No nosso caminho sempre existe uma pedra. Você já se
perguntou o porquê?”)
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