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3.1 Aspectos pessoais na construção da narrativa de Tácito

3.1.1 A memória enquanto faculdade e representação

Segundo Joel Candau (2014, p. 21), a memória é uma faculdade inerente aos seres humanos, exceto em casos patológicos. A respeito dela, o autor traça três perspectivas: a memória de baixo nível (protomemória), a memória de alto nível e a metamemória. A primeira correlaciona-se ao habitus22, podendo ser imperceptível

à/na humanidade. A segunda seria a memória de recordação, a ―evocação deliberada ou invocação involuntária de lembranças autobiográficas ou pertencentes a uma memória enciclopédica (saberes, crenças, sensações, sentimentos)‖ (CANDAU, 2014, p. 23). A metamemória é uma representação da memória, ou seja, é a ―representação que cada indivíduo faz de sua própria memória, o conhecimento que tem dela e, de outro, o que diz dela, suas dimensões que remetem ao modo de afiliação de um indivíduo ao seu passado‖ (CANDAU, 2014, p. 23). Essas classificações de memória são enquadradas apenas no nível individual; quando passamos ao coletivo, torna-se impossível que todo grupo possua uma memória processual comum.

Apesar da nossa discussão central não visar o estudo da psicologia taciteana, achamos necessário pensar a partir dessa perspectiva, pois a memória atua nessa

22―O habitus como experiência incorporada é uma presença do passado – ou no passado -, ‗e não

uma memória do passado‘. A protomemória, de fato, é uma memória ‗imperceptível‘, que ocorre sem tomada de experiência‖ (CANDAU, 2014, p. 23).

dimensão23. Haynes (2006, p. 149) aponta uma ligação significante entre a memória e a História e como a primeira ajuda na construção narrativa da segunda para preservação do passado. Assim, a(s) memória(s) são recortes de representações e construções pessoais (individuais), ou seja, criam ―verdades‖ de ordens diferentes, e seu registro acaba ligando a memória ao objeto de forma a se nutrirem e apoiarem mutuamente24. A respeito desse registro, destacamos que a ―produção historiográfica não é senão um pequeno segmento da memória coletiva, um segmento que, a bem da verdade, possui uma esfera de atuação e uma influência social relativamente limitadas" (GUARINELLO, 2014, p. 9) e, contudo, possui espaço na legitimação da história na construção de uma identidade.

Os antigos historiógrafos também consideravam a conexão entre memória e História. Ela era pensada como uma narrativa e também como resguardo do passado25, um registro literário26, mas também uma das possibilidades de honrar os personagens a que se propunham descrever. Assim, ao efetuar um registro, a escrita não se torna apenas fruto de recordações individuais, mas também de fatos compartilhados que se relacionavam com a memória coletiva e social (HAYNES, 2006, p. 157).

Quando a memória deixa de ser uma faculdade no nível individual e passa a uma representação coletiva, ela constitui-se como ―uma memória supostamente comum a todos os membros desse grupo‖ (CANDAU, 2014, p. 24), isto é, torna-se uma ―descrição de um compartilhamento hipotético de lembranças‖ (CANDAU, 2014, p. 25), uma (re)construção27. Contudo, são necessárias ressalvas na compreensão

23

Ver Candau (2014), Haynes (2006), Le Goff (2003) e Pollak (1992).

24 ―Roman historiography makes a strong connection between memory and history. For the Roman

historian, the events of history prompted memoria, a narrative of the past that could be handed down to posterity and kept alive in memory. Knowledge of the past involved honoring its memory in writing; it did not wholly comprise what contemporary historians value as objective documentary research. To the extent that individual recollections were shared, memoria became a collective and cultural memory that could be called a truth of a different order than the rigorous unearthing of facts‖ (HAYNES, 2006, p. 149).

25

Meneses (1992, p. 10-11) aborda uma discussão a respeito da impossibilidade de se resgatar uma memória, afirmando que, a todo momento ela está em processo de reconstrução, ou seja, está se construindo de maneira contínua através da dinâmica social.

26Seu emprego de maneira eficaz através da ―escrita pode melhorar o processo de rememoração é

porque o alfabeto cristaliza as possibilidades auditivas de organização e fornece uma forma classificatória particularmente eficaz‖ (CANDAU, 2014, p. 84).

27 ―O consenso existe igualmente em reconhecer que a memória é, acima de tudo, uma reconstrução

continuamente atualizada do passado, mais do que uma reconstituição fiel do mesmo: ‗a memória é de fato mais um enquadramento do que um conteúdo, um objeto sempre alcançável, um conjunto de estratégias, um ‗estar aqui‘ que vale menos pelo que é do que pelo que fazemos dele‘. A ideia

de que as representações relativas aos atos de memórias transmitidas não são, necessariamente, um compartilhamento tal qual ocorreram. É preciso considerar que determinantes podem atuar no conjunto de lembranças e rememorações. Todos os processos já citados interagem com o cérebro de cada indivíduo, tornando a comunicação ímpar, isto é, no momento do relato, diferentes perspectivas podem ser elencadas.

Outro aspecto a destacar é a seletividade da memória. Michael Pollak (1992, p. 1-2), ao problematizar a questão, enquadra-a enquanto fenômeno de projeção e transferência em que se organizam as memórias individuais e coletivas. O autor aponta alguns de seus elementos constitutivos: a) os acontecimentos vivenciados pessoalmente e os ―vividos por tabela28‖; b) os personagens encontrados

diretamente e indiretamente29 no decorrer da vida; e c) os lugares ligados à memória (lembrança pessoal) e os longínquos, fora do espaço-tempo da vida de uma pessoa30. Esses dados podem contribuir para a observação dos fatos empíricos, baseados em fatos concretos, ou das projeções de outras circunstâncias. Ainda sobre essa organização da memória, devem ser consideradas as preocupações de ordem pessoal e política, que reverberam no sentimento de identidade31.

Nas obras de Tácito, as temáticas adotadas mostram uma busca por relembrar o passado, por meio do qual visa-se de forma constante legitimar o seu período. Essa característica revela seu conservadorismo moral – topos historiográfico que se constitui como parte inerente ao seu discurso e que visa

segundo a qual as experiências passadas seriam memorizadas, conservadas e recuperadas em toda sua integridade parece ‗insustentável‘‖ (CANDAU, 2014, p. 9).

28―Acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer. São

acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou, mas que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não. Se formos mais longe, a esses acontecimentos vividos por tabela vêm se juntar todos os eventos que não se situam dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo. É perfeitamente possível que, por meio da socialização política, ou da socialização histórica, ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada‖ (POLLAK, 1992, p. 2).

29 ―Transformaram quase que em conhecidas, e ainda de personagens que não pertenceram

necessariamente ao espaço-tempo da pessoa‖ (POLLAK, 1992, p. 2).

30―Constituir lugar importante para a memória do grupo, e por conseguinte da própria pessoa, seja

por tabela, seja por pertencimento a esse grupo‖ (POLLAK, 1992, p. 3).

31 ―Aqui o sentimento de identidade está sendo tomado no seu sentido mais superficial, mas que nos

basta no momento, que é o sentido da imagem de si, para si e para os outros. Isto é, a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, para acreditar na sua própria representação, mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros‖ (POLLAK, 1992, p. 5).

principalmente à emulação e à imitação como forma de celebrar o presente – (MARQUES, 2013b, p. 135). Esse conservadorismo pode ser compreendido pela memória, visto que ela ―organiza os traços do passado em função do engajamento do presente e logo por demandas do futuro‖ (CANDAU, 2014, p. 63).

Muitas são as perguntas que contribuem para reflexões sobre a forma como Tácito narra suas obras e seu comportamento estilístico. Devemos lembrar que ele está inserido em um grupo, a elite. Das fontes por ele escritas, todas chegaram fragmentadas ao presente e, mediante esse hiato, não temos certeza do grau de interação entre suas obras, ou seja, não podemos afirmar se são autossuficientes ou encadeamentos de ideias. Por último, cabe questionar: A escolha por divulgar parte considerável de seus escritos após o governo de Domiciano refletiria sua posição frente ao princeps? E eles poderiam ser chamados de reapropriações32?

A primeira indagação será retomada na seção 3.1.2. No entanto, temos consciência de que a postura do discurso de Tácito muda quando ele escreve durante os governos de Nerva e Trajano. No primeiro Principado, demonstra alegria e promessa em narrar os tempos de felicidade, o período Antonino (TAC., Ag., II, 3). No entanto, suas últimas obras visam narrar o período das guerras civis e dos Flavianos (Histórias) e os Julio-Claudianos (Anais), que analisaremos a seguir.

A respeito da segunda indagação, relativa à reapropriação, pode-se dizer que ela é baseada nas vivências do autor e, assim, reflete suas experiências, principalmente suas inserções na vida pública – sobretudo sua carreira senatorial, que em muito incidiu sobre sua observação da condução política, pois era integrante da camada que governava.