1 INTRODUÇÃO
3.2 Conceitos neurocientíficos
3.2.2 Um panorama SN na concepção atual
3.2.2.4 A memória implícita
Diferentemente da memória explicita, que é consciente, a memória implícita é inconsciente, compreende conteúdos que não podem ser expressos por meio de palavras; mas por desempenho. (SCHACTER; TULVING, 1994).
De acordo com SCHACTER (1987), a memória implícita é revelada quando a experiência prévia facilita o desempenho numa tarefa que não requer a evocação consciente ou intencional daquela experiência.
COHEN (1984) declara que a aquisição de conhecimento implícito é dependente de mudanças cumulativas que acontecem a cada ocasião em que o sistema é acionado. Assim, adquirir esse conhecimento exige um treinamento repetitivo e a aquisição é gradual ao longo de várias experiências.
(1) Memória de representação perceptual
Corresponde à percepção de um evento antes mesmo que se saiba o seu significado, ou seja, um objeto pode ser retido nessa memória perceptual antes que se saiba exatamente o que ele é ou para que serve. Essa memória foi identificada e estudada por meio de testes cujo objetivo era que indivíduos identificassem objetos, sons e palavras a partir da apresentação de somente partes desses (LENT, 2010).
A comprovação de sua existência se deu por meio de estudos com pacientes que tinham lesões no córtex visual ou auditivo e ainda assim eram capazes de reconhecer certos objetos ou sons sem, entretanto, saber o que eram ou para que serviam tais objetos ou sons. Esses estudos permitiram concluir que os engramas dessa memória estão armazenados nas áreas corticais sensoriais. Por engrama entende-se o conjunto de modificações neurais resultantes de uma determinada experiência, constituindo-se, assim, no registro mnemônico dessa experiência.
Para que haja consolidação da memória perceptual é necessário que haja repetição, a qual fortalecerá fisiologicamente as conexões. Para a evocação dessa memória, é necessário que ocorra o fenômeno da pré-ativação, que corresponde à utilização de partes do objeto original para provocar a ativação dos circuitos neurais envolvidos. Assim, as pistas, como fragmentos de uma imagem, gestos, odores ou sons possibilitarão a evocação dessa memória.
A pré-ativação está relacionada à função do neocórtex, que é responsável pelas mais importantes funções cerebrais, como a percepção, o pensamento, a linguagem, a memória e a ação planejada (SINGI, 1996).
(2) Memória de procedimentos
Refere-se aos hábitos, habilidades e regras em geral como, por exemplo, saber os movimentos necessários para andar de bicicleta ou dirigir um veículo. Essa memória também depende da repetição. O treino permitirá que os movimentos sejam realizados sem que o indivíduo tenha que raciocinar sobre eles. Após ser consolidada por meio da repetição, a memória de procedimento se torna sólida (LOMBROSO, 2004; LENT, 2010).
Quanto ao seu armazenamento, a partir de experimentos constatou- se que esse tipo de memória fica nas próprias áreas motoras que coordenam os atos correspondentes (LENT, 2010).
As habilidades perceptuais, motoras e cognitivas, e hábitos estão todos relacionados ao funcionamento do estriado, uma das estruturas que compõem os núcleos da base (MISHKIN et al., 1984). O corpo estriado é o termo utilizado para definir o núcleo caudado e o putâmen. A designação estriado deve-se ao fato de que fibras estriadas atravessam a cápsula interna para interconectar o caudado ao putâmen, interligados funcionalmente.
(3) Memória associativa
Corresponde a uma memória em que um estímulo é associado a outro (condicionamento clássico) ou associado a uma resposta (condicionamento operante) (LENT, 2010).
Nas respostas emocionais, o condicionamento clássico simples está relacionado à amígdala, estrutura localizada na região antero-inferior do lobo temporal que se interconecta com o hipocampo, os núcleos septais, a área pré- frontal e o núcleo dorso-medial do tálamo. Essas conexões garantem seu importante desempenho na mediação e controle das atividades emocionais.
Nas respostas da musculatura esquelética, o condicionamento clássico simples está relacionado ao cerebelo, estrutura responsável pela coordenação das atividades dos músculos esqueléticos, do tato, visão e audição, em nível inconsciente, a partir de informações recebidas (KANDEL et al., 2000).
(4) Memória não associativa
Permite reconhecer estímulos familiares e ignorar estímulos irrelevantes repetitivos. Essa memória está associada às vias reflexas (KANDEL et al., 2000).
Ambas as memórias associativa e não associativa estão fortemente relacionadas a algum tipo de comportamento (LENT, 2010).
Na Figura 33, está demonstrada a taxonomia dos sistemas de memória de longa duração adaptada de SQUIRE e KNOWLTON (1995).
Figura 33 – Taxonomia adaptada dos sistemas de memória de longa duração
Fonte: SQUIRE e KNOWLTON (1995).
Embora as informações sejam armazenadas inconscientemente na memória implícita, essa memória influencia o comportamento (SCHACTER; TULVING, 1994). Segundo BASSILI e BROWN (2005), tanto o pensamento como o comportamento de um indivíduo podem ser influenciados por processos psicológicos implícitos.
Estima-se que um indivíduo só tenha consciência de 5% de sua função cognitiva; os outros 95% estão além da consciência e exercem enorme influência na vida (MLODINOW, 2013).
GAWRONSKI et al. (2006) apontaram hipóteses sobre o comportamento das atitudes implícitas no cérebro de um indivíduo. A primeira hipótese é chamada de consciência de origem, ou seja, a pessoa pode estar ou não consciente das causas de uma determinada atitude. A segunda corresponde à consciência de conteúdo, indicando que um indivíduo pode ou não estar consciente da atitude em si, ou seja, a pessoa às vezes apresenta reações positivas ou negativas para um objeto sem ter real consciência de suas respostas avaliativas. Outra hipótese se refere à consciência do impacto, que diz respeito ao fato de um indivíduo estar ou não consciente da influência que uma determinada atitude tem sobre os outros processos psíquicos.
Por meio de experimentos, FAZIO (2007) constatou que alguns tipos de atitudes podem ser ativados automaticamente a partir da memória ou apenas
pela observação de um objeto de atitude. Como o cérebro é constituído de redes semânticas que são influenciadas pelo meio, é por essas redes que percebemos e emitimos respostas. Para o autor, a rede semântica é influenciada pelos estímulos ativadores das atitudes implícitas, tornando-se mais intensa quando há uma associação mais forte entre a rede e o objeto de atitude. Assim, esse mecanismo depende das relações que o sujeito tem com o meio. O comportamento humano, portanto, é fruto de sensações, percepções e pensamentos, tanto no plano consciente (explícito) como inconsciente (implícito). Com base nessas considerações sobre a memória implícita, é possível desenvolver metodologias que busquem identificar associações implícitas acerca de determinado tema – neste caso, as aplicações benéficas da tecnologia nuclear – e modificar as associações por meio do conhecimento explícito.