2. O GOLPE DE 1964: UMA TRAMA CIVIL-MILITAR
2.4 A MEMÓRIA SELETIVA E CONVENIENTE DO GOLPE
O estudo da memória histórica de uma sociedade é fundamental para perceber as rusgas, as lacunas, o retraimento e o extravasamento de certos assuntos e acontecimentos. Esses indícios, e mesmo os silêncios, dizem muito do contexto histórico que se pretende analisar. Podemos afirmar que a memória coletiva pode ser manipulada de acordo com as conveniências de organizações e grupos sociais. Analisar as estruturas das memórias construídas e ressaltadas de certo período pode ser de grande importância para decifrar as entrelinhas ocultas na construção histórica.
[...] A memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva. O estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história, relativamente aos quais a memória está ora em retraimento, ora em transbordamento (LE GOFF, 2012, p. 408).
Reis Filho (2004, p. 29) alerta para as artimanhas da memória. “Imersa no presente, preocupada com o futuro, quando suscitada, a memória é sempre seletiva. Provoca, revela, mas também silencia”. Para o autor, não muitas vezes ela falsifica o passado, consciente ou inconscientemente. Cabe ao historiador saber interpretar tal falsificação que pode oferecer interessantes “pistas de compreensão do narrador, sua trajetória e do objeto recordado”.
Considerando a memória a respeito do Golpe civil-militar de 1964 e da ditadura que se seguiu no Brasil, é necessário compreender as formulações das memórias e suas contribuições para a construção histórica. Cabe reportar-nos novamente às palavras de Reis Filho (2005, p. 131) que diz: “as sociedades têm sempre dificuldades em exercitar a memória sobre as suas ditaduras”, e a ditadura militar no Brasil é “uma incômoda memória”, já que para a maioria da sociedade brasileira, “a ditadura e os ditadores foram demonizados”.
Analisar essa “incômoda memória” é remexer fatos e personagens militares e civis que fizeram parte da cúpula do poder no período ditatorial, e que ainda figuram no cenário político nacional. Pela ditadura ter sido “demonizada” na sociedade brasileira, é realmente incômodo trazer à tona qualquer ligação com esse passado.
Sobre o período, de modo geral, a memória da sociedade tendeu a adquirir uma arquitetura simplificada: de um lado, a ditadura, um tempo de trevas, o predomínio da truculência, o reino de exceção, os chamados anos de
chumbo. De outro, a nova república, livre, regida pela Lei, o reino da
cidadania, a sociedade reencontrando-se com sua vocação democrática (REIS FILHO, 2005, p. 9, grifos do autor).
Muitas personalidades devem à ditadura seu poder e sua riqueza, mas preferem ficar omissos, à sua sombra, do que correr em defesa desse período histórico.
Habitam discursos políticos, livros didáticos, filmes e materiais diversos de análise e divulgação. Em tudo isto, sobressai uma tese: a sociedade
brasileira viveu a ditadura como um pesadelo, que é preciso exorcizar, ou seja, a sociedade não tem, e nunca teve, nada a ver com a ditadura (REIS FILHO, 2005, p. 11).
Porém, de acordo com Reis Filho (2012, p. 31) “É inútil esconder a participação de amplos segmentos da população no movimento que levou à instauração da ditadura em 1964. É como tapar o sol com a peneira”. Sem dúvida é demagogo atribuir somente aos militares a responsabilidade do Golpe, uma vez que ele só foi possível devido a uma conjuntura política, econômica e social, que ia além das forças das armas, havia na fórmula do golpe, como já relatado anteriormente, forças de parcelas importantes da sociedade, como a imprensa conservadora, vários partidos políticos, lideranças políticas, parlamentares, empresariado nacional e internacional, alta hierarquia católica e outras lideranças religiosas, latifundiários, classe média conservadora, movimentos feministas e importantes organizações civis como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e organizações empresariais como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), além, é claro, de grande parte do oficialato das Forças Armadas. Enfim, apoiavam a deposição de Jango: os segmentos tradicionais e conservadores da sociedade, que Reis Filho (2012, p. 33) chamou de “as direitas”, além do governo dos Estados Unidos da América.
Dessa forma, todos esses setores se articularam e se somaram para a eclosão do golpe de Estado. E nos dias 1º e 2 de abril de 1964, milhares de pessoas ovacionavam os militares golpistas como os defensores da pátria frente à ameaça comunista, nas chamadas “Marchas da Vitória”, que se espalharam pelas principais cidades do Brasil, onde multidões de civis, de todas as classes sociais, comemoravam nas ruas a deposição de João Goulart e chamavam o Golpe de “Revolução Democrática”. O Jornal do Brasil (3 de abril de 1964, p. 8) anunciava: “Um milhão de pessoas na rua festeja vitória democrática”. Era a Marcha da Família
com Deus pela Liberdade21, que desta vez percorreu as ruas do Rio de Janeiro.
Assim saudavam e aplaudiam o novo governo, enfatizando que a multidão estava
21Ver relação completa de todas as Marchas da Família com Deus pela Liberdade que ocorreram no
Brasil, com descrição de data e local, em: FICO, Carlos. Além do Golpe: versões e controvérsias
sobre 1964 e da Ditadura Militar. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 208-210.
livre. De acordo com Reis Filho (2012, p. 32) “[...] sucederam-se marchas em todas as capitais dos Estados, sem falar em outras, incontáveis, em cidades médias e pequenas. Até setembro de 1964, marchou-se sem descanso no país”.
É notório que muitos civis apoiavam o governo de Jango e as Reformas de Base que ele pretendia implantar, segmentos como sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais, subalternos das Forças Armadas, partidos e movimentos nacionalistas e de esquerda. Porém, um impressionante movimento de massas apoiou o golpe. Um dos argumentos que explica o apoio de grande montante de civis encontra respaldo no “medo” e na falta de informação, pois, para muitos, as reformas significavam a implantação do comunismo, o qual no imaginário reforçado por uma ampla campanha anticomunista, que segundo Motta (2002) começou a ganhar força no Brasil desde a década de 1920 com a criação do Partido Comunista do Brasil (PCB), representava a negação religiosa e a oposição aos valores morais cristãos, restrições econômicas, falta de liberdade, injustiça, violência, Cuba, URSS, maldição, anti-Cristo, demonização e outros males. Temor este que contribuiu para que muitos se colocassem a favor da medida que consideravam a salvação nacional: o golpe contra o governo legal de Goulart. Para grande parte da população, o golpe de 1964 era visto como um “contragolpe preventivo”.
A maioria das representações envolve temas que denotam as características maléficas atribuídas aos comunistas, que eram responsabilizados pela ocorrência de uma gama variada de males. Eles trouxeram à tona temores arcaicos – foram associados à imagem da peste, por exemplo – mas também despertaram ansiedades do mundo moderno, como a inflação, que foram acusados de provocar visando à desestabilização da ordem econômica. No limite, chegou-se a operar a associação comunismo=demônio [...] Se os comunistas eram responsáveis por um cortejo tão grande de desgraças, não seria factível associar sua atuação aos desígnios do “príncipe das trevas”, que segundo o imaginário cristão era a fonte suprema de todo o mal? (MOTTA, 2002, p. 48).
À propaganda anticomunista somam-se os interesses comerciais de amplos setores do empresariado brasileiro e do capital internacional. Interessante verificar que essa tomada de poder passou a ser denominada de “Golpe Militar”, como se coubesse só a eles, os militares, todas as circunstâncias que desencadearam a queda do governo de Goulart. É inegável a participação conjunta de militares e civis na trama do golpe; porém, os livros didáticos e as memórias sobre o assunto insistem em manter o restrito discurso de “Golpe militar”, absolvendo a sociedade da participação
no processo. Curioso verificar a manutenção dessa memória seletiva, que oculta ou não enfatiza a participação de considerável multidão de civis, de diferentes classes sociais no Golpe de 1964, bem como esquecem convenientemente a grande manifestação popular, que apoiando o golpe, festejou a deposição de Jango e saudou os militares como defensores da ordem social, através do que consideravam uma “Revolução Democrática”.
Reis Filho (2012) faz um comentário interessante em seu artigo “O Sol com a peneira”, em que enfatiza o apoio fundamental da sociedade civil para a longa vida da ditadura militar no Brasil. Segundo ele:
Não se trata de um equívoco a ser “esclarecido”, mas de desvendar um interesse da memória e suas bases de sustentação. São interessadas na memória atual as lideranças e entidades civis que apoiaram a ditadura. Se ele foi “apenas” militar, todas elas, automática e sub-repticiamente, passam para o campo das oposições. Desde sempre. Desaparecem do radar os civis que se beneficiaram do regime ditatorial. Os que financiaram a máquina repressiva. Os que celebraram os atos de exceção. O mesmo pode dizer dos expressivos segmentos sociais que em algum momento apoiaram – direta ou indiretamente – a ditadura. [...] A história atual está saturada de memória seletista e conveniente, como quase toda memória. No exercício desta, absolve-se a sociedade de qualquer tipo de participação neste triste – e sinistro – processo (REIS FILHO, 2012, p. 34-35).
Portanto, ao contrário do que é atualmente sugerido pela memória do golpe, ele não foi apenas militar, mas uma trama civil-militar que englobou significativos segmentos sociais, que incentivaram, participaram e comemoraram o golpe. Ocultar tal fato é encobrir a participação efetiva de civis no Golpe de 1964, que saudaram a instalação de um governo autoritário como se fosse democrático e legal. Muitos desses civis mantiveram-se e se beneficiaram do governo militar que se seguiu, e outros acabaram, por motivos vários, passando para a oposição. Alguns esperavam que o golpe fosse apenas uma intervenção rápida, que logo tudo voltaria ao normal, com a passagem tranquila do poder para as mãos dos civis novamente, que a essa altura já estariam protegidos das esquerdas e da perigosa ameaça comunista. Porém, os militares não fizeram uma curta transição de limpeza, eles tomaram as rédeas da nação e do alto da cúpula governamental, regeram o país por longos 21 anos. Como já foi dito, não era bem isso que muitos dos civis golpistas imaginaram que aconteceria, ditadura não estava em seus planos.
Intrigante constatar a manutenção da denominação “Golpe Militar” na historiografia oficial do Brasil. Indaga-se por que ocultar ou pouco enfatizar importantes segmentos sociais e nomes de políticos civis que foram fundamentais na trama do golpe, como Juscelino Kubtischek, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Ademar de Barros, Ulysses Guimarães, entre tantos outros, que queriam que os militares procedessem à “operação limpeza”, ou seja, o “trabalho sujo”. O porquê não falar dos aplausos que os militares receberam das multidões de todo o Brasil, por “salvarem” a nação do governo legal e democrático de João Goulart.
Reis Filho, em seu livro Ditadura Militar, esquerdas e sociedade, tece um estudo intitulado “Ditadura Militar no Brasil: uma incômoda memória”, em que levanta alguns questionamentos:
Como compreender que permaneçam com tanta força lideranças e mecanismos de poder preservados e/ou construídos no período da ditadura, pela e para a ditadura? Como se sabe, do latifúndio ao poder incontrastável dos bancos, da mídia monopolizada por Roberto Marinho aos serviços públicos deteriorados da saúde e da educação, da dívida interna e externa, de José Sarney a Antonio Carlos Magalhães, passando por Delfim Neto, são inúmeras as continuidades entre as trevas da ditadura e as luzes da democracia. [...] Talvez seja necessário refletir um pouco mais sobre as raízes e os fundamentos históricos da ditadura militar, as complexas relações que se estabeleceram entre ela e a sociedade, e, em contraponto, sobre o papel desempenhado pelas esquerdas no período (REIS FILHO, 2005, p. 12, grifos do autor).
É conveniente levantar a questão da memória seletiva do golpe de 1964, discutir os porquês das omissões, dos silêncios e da parcialidade dada à trama. Uma memória que precisa ser revista e levada à coletividade. Algo que não pode ser esquecido, ocultado e muito menos ignorado. É necessário que se construa um novo olhar sobre a memória coletiva do Brasil a respeito de vários assuntos da nossa história, inclusive do período da ditadura militar, tirando do anonimato ações e atores que direta e indiretamente se envolveram no golpe de 1964 e no governo militar que se seguiu, procurando, com isso, alcançar uma visão mais ampla dos fatos, contribuindo para a politização e o desenvolvimento do pensamento histórico dos brasileiros.
3. OS PILARES DA REPRESSÃO POLÍTICA: MODUS OPERANDI, ALVOS E