Capítulo IV. Resultados e discussão
4.1.3 A menina Daniela
Porque no fim do ano a Tia P pode falar... Se eu levar três verme, vermelhos, não... Se eu levar cinco vermelho, não, é quatro mesmo. Quatro vermelho aí a Tia P vai falar com a minha mãe, com meu pai e eu não gosto.
Percebe-se que ao atingir um número máximo estipulado de vermelhos, a professora irá conversar com os responsáveis da criança. Diante da importância da autoavaliação em um momento de reflexão do dia na escola, Renato explica que através do que o outro fez para receber a cor verde, pode-se tentar fazer da mesma forma para alcançar essa cor: “É bom, pra ver do jeito que você... Que você tá se comportando, do jeito que os seus colegas tá se comportando, você vê, aí se um colega seu tá verde por isso, isso e isso, você tenta fazer. Pra ser verde também”.
Com isso, o mural de autoavaliação torna exemplo de bom os alunos que alcançam o verde e de ruim aqueles que receberam o amarelo ou o vermelho. Comentando sobre o conselho de classe participativo, Renato expõe a importância deste pelo fato de ser o momento para falar o que fez de bom e de ruim durante o semestre, mas não consegue responder o que essa reflexão irá adicionar para si.
Quadro 8 – Conceitos morais escolhidos pela Daniela
Conceito Moral Definição
Situações e (Inter)ações Representativas
Sentimento Pessoal
Amor É felicidade e namorar alguém
A criança L dizia que estava namorando o H;
L recebeu uma cartinha de amor e disse que foi de autoria de H
Sente-se feliz e diz que ama a mãe
Felicidade É ter um namorado
A mãe de Daniela ficou feliz ao ter um namorado
Acha legal e sente-se feliz brincando e sorrindo
Cuidado É não ter perigo e não morrer
Daniela conta sobre como o irmão dela morreu por não ter
“olhado para os lados”
e em sala somente ela e outros três colegas (R, B e C) que tem cuidado com os amigos
Tem que ter mais atenção nos lados da rua
Daniela, ao ser questionada se há amor entre seus amigos, responde que não, quando a entrevistadora pergunta para reafirmar sua resposta, ela a muda, afirmando que há amor pelo fato dos colegas nunca terem brigado. A pergunta sobre o que ela acha de si mesma, vem com a resposta de ser um coração de Deus e afirma que quando algo acontece, ela reza para não fazer aquilo novamente.
Ao conversar sobre uma situação envolvendo os colegas em relação ao amor, Daniela explica quem estava participando e todo o movimento em torno de uma carta de amor e criações de histórias de paixão entre quatro colegas. Ela explica que a confusão foi partilhada e discutida durante a autoavaliação e ao ser questionada se a professora não gostou do que ocorrido, Daniela imediatamente diz que não estava envolvida e justifica dizendo que é uma menina educada.
Durante as perguntas sobre sua posição durante as autoavaliações, Daniela explica de forma confusa qual dos níveis de classificação ela mais se encaixou durante o ano. E disse que recebeu a cor vermelha somente uma vez e quando é pedido para justificar a classificação, Daniela conta a história de outro dia, acusando L de lhe bater constantemente.
Entretanto, afirma que no presente L parou com essa atitude. Os diálogos mais importantes que envolvem a autoavaliação e a percepção de outras instâncias encontram-se destacados a seguir:
Quadro 9 – Significado de algumas instâncias pedagógicas para Daniela Instância Pedagógica
Significativa Diálogo
Mural de autoavaliação
13:10 Entrevistadora: Verde e amarelo, né? Tá. Por quê isso? Quais as coisas que você faz, por exemplo, pra receber amarelo?
13:16 Daniela: Hm... Às vezes eu... O, o... Eu tô entre essa fofoquinha de namorado. Mas eu não tô. Aí ele falou que eu tava aí... Às vezes eu pego, às vezes os meninos. Eu peço, mas eles nem ouvem, eles diz: “Tá bom”. Aí eu pego, aí eles: “Você pegou... Sem pedir, Daniela”. Eu tinha pedido, ela, ele: “Não, você não pediu, não”.
13:51 Entrevistadora: Hm... Mas você tenta, você insiste em pedir?
Fica lá pedindo e tal, pra não pegar?
14:00 Daniela: Tia, eu não sou assim não.
14:01 Entrevistadora: Não, não é, né? Eu acredito... Eu acredito. E verde? Quais são as coisas que você faz pra merecer verde?
14:10 Daniela: Fico calada, sentada, na minha.
20:40 Entrevistadora: (...) E daquele mural de autoavaliação? Que que você acha dele? Você acha que ele...
20:45 Daniela: Legal.
20:48 Entrevistadora: Você acha legal? Que que mudanças que ele trouxe?
20:49 Daniela: Hm... Respeito... Sabedoria... O compor... O corpo...
Ai! O comportamento.
Conselho de classe participativo
21:25 Entrevistadora: É. Aquele conselho de classe que vai a coordenadora e todo mundo. Que que você acha dele? O que você acha?
21:31 Daniela: Legal.
21:31 Entrevistadora: Legal, né? E que que serviu?
21:34 Daniela: Bom.
21:25 Entrevistadora: Bom?
21:35 Daniela: Eu parei de xingar (...) Mas eu nem xingava.
Trabalhos individuais e em grupo
20:20 Entrevistadora: E individual ou em grupo? Qual que você mais gosta?
20:24 Daniela: É... Todos.
20:24 Entrevistadora: Todos? Por quê todos?
20:25 Daniela: É melhor, você termina mais rápido e... Você não fica de bra... Bra... Bra...
20:36 Entrevistadora: Braço? Não é isso que você ia falar?
20:38 Daniela: Par de conversa.
Quando é perguntando sobre mudança, Daniela afirma que mudou muito em relação aos xingamentos que pronunciava em sala de aula e diz que o quer mudar é a menina L, afirmando que este tinha uma atitude agressiva, como aludido acima, e diz que não são amigas, somente colegas. Ela diz que a diferença entre amiga e colega é que esta última não é
inimiga e que para ser sua amiga é necessário ser gentil, legal e não gostar de namorar.
Daniela explica que L é a causa de não se sentir bem dentro de sala de aula.
Daniela diz que há respeito e amizade dentro de sala, mas exclui a menina N desse grupo, explicando uma situação que ocorrera em sua casa, acusando N de não deixá-la dormir na noite anterior. A entrevistadora pergunta se não disse como havia se sentido para N, mas ela explica que não é dessa forma e que vai haver desculpas no momento da autoavaliação.
As respostas e as construções em torno da problemática trabalhada sobre os conceitos morais pré-estabelecidos, encontram-se organizados no quadro a seguir:
Quadro 10 – Conceitos morais desenvolvidos com Daniela a partir do roteiro da entrevista
Conceito Moral Definição
Situações e (Inter)ações Representativas
Sentimento Pessoal
Certo Nunca brigar com alguém, pois é “feio”
Ninguém disse a ela que é feio brigar, mas ela assim o considera Errado
Regras Comportamento e sabedoria
Contribuir para o banheiro continuar limpo, limpar a sala, sentar em rodinha, não sujar a carteira, não jogar lixo no chão; não
acha que os
combinados são regras
Aprende mais, limpa mais e quando crescer já vai saber de tudo
Bom aluno / comportamento
Bom aluno é aquele inteligente, pois sabe de tudo, é quieto, sabe ler e tem cuidado com os amigos; bom comportamento é ser quieto, fazer silêncio e ouvir
Mau aluno / comportamento
Mau aluno é aquele que belisca e morde, não sabe ler e não tem cuidado com os
amigos; mau
comportamento é fazer bagunça e barulho
Daniela, ao responder sobre o que gostaria de mudar em si mesma, diz que ano que vem quer ser mais inteligente, saber de tudo e responder todas as perguntas feitas durante as aulas. A entrevistadora pergunta se ela não se considera inteligente e Daniela justifica que ela
conversa em determinados momentos e que ganhará um celular de sua mãe quando souber ler, explicando que é a única de sua casa que não possui um.
Daniela considera que não participa de certas situações repreendidas pela professora em sala de aula por ser educada, significação a educação como comportamentos que são bem vistos pela professora. Para conseguir a cor verde no mural da autoavaliação, por exemplo, diz que permanece calada e sentada. Daniela expõe que a colega L é o único motivo para não se sentir bem dentro da sala de aula e deseja mudá-la, apesar de reconhecer que a colega melhorou bastante desde o começo do ano.
Ao falar sobre o conselho de classe participativo, Daniela diz sobre ter parado de xingar, mas de uma maneira confusa, afirma que não xingava anteriormente. Percebe-se um conflito entre o que ela compreende estar fazendo e o que os outros possam ter falado a ela.
Essa emoção moral pode ter diferenciação a partir de sua subjetividade, regulando-se de forma a estar na configuração subjetiva de Daniela.
Para Daniela, brigar é feio. Ela diz que não houve alguém para considerar dessa forma, mas não consegue explicar o porquê de ser feio. Apesar da clara intenção de que não há uma pessoa dizendo a ela que é feio, Daniela expõe que vê dessa forma, sem explicações ou razões, observando um aspecto heterônomo em relação a brigar ser feio. Ela também expõe o fato das regras serem um objetivo para se saber tudo quando for mais velho. O interessante dessa fala é a demonstração da importância das regras no desenvolvimento de uma pessoa, pois é através dela que se aprende a limpar e a aprender.
Entretanto, ao comentar sobre os combinados, Daniela não os considera como regra, apesar de alguns dos exemplos dados por ela como regras (sentar na rodinha, por exemplo) estão listadas nos combinados da sala de aula, conforme figura 3 na página 50. Para ela, há uma diferenciação entre as regras e os combinados, certamente pelo fato de o primeiro ser algo externo e imposto e o segundo ter sido produto de reuniões com os próprios alunos e feitos por ele, como é o caso da autonomia da moral descrita por Piaget, onde a regra não é imutável pelo fato de ter sido compreendida em sua essência, produto do acordo em conjunto dos alunos da sala.