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CAPÍTULO 1 – A PAISAGEM DO RECIFE OITOCENTISTA

60 FREIRE, Gilberto “Sobrados e Mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do

3.1 A mentalidade escravocrata nos oitocentos

Na segunda metade do século XIX, apesar da crescente perda de legitimidade181 do sistema escravocrata, o pensamento cientifico de cunho positivista defendia a inferioridade da raça negra e justificava, através das teorias raciais vigentes, a propensão dos negros a atos criminosos. Adepto a essa corrente de pensamento, destaca-se o médico maranhense Nina Rodrigues182, para quem a inferioridade da raça negra era algo inquestionável e independente da condição social na qual os negros estivessem inseridos. Segundo essa corrente de pensamento, o negro apresentava deformações que os tornava mais propícios a atos criminosos, omitindo, assim, a violência intrínseca ao sistema escravocrata.

A mentalidade vigente no oitocentos sobre a criminalidade escrava, não era vista como um problema social, fruto do violento sistema escravocrata, mas como um problema étnico e orgânico inerente aos negros e à condição em que estes se encontravam, legitimando e fortalecendo a mentalidade das classes dominantes.

No espaço urbano, as transgressões escravas eram constantes, revelando aspectos da complexa sociabilidade cativa, pois proporcionava uma maior liberdade de movimentação e uma relativa diversidade de trabalho, em especial com os trabalhos de ganho e aluguel, o que facilitou aos escravos maior interação com outras camadas sociais, deixando-os mais informados sobre os acontecimentos, bem como de seus poucos direitos.

Outro aspecto interessante observado na pesquisa, e consagrado na historiografia, foi que não se pode entender os crimes apenas pelo binômio senhor – escravo. Era corriqueiro os crimes entre escravos ou que envolvessem cativos e forros ou homens livres, o que evidencia a complexidade das relações existentes na sociedade escravocrata. As transgressões que envolviam cativos eram divididas em três categorias: os crimes contra a propriedade, os contra a ordem pública e os contra a pessoa. O primeiro deles, o crime contra propriedade, permite evidenciar

181 Dentre as leis que davam visibilidade a essa perda de legitimidade, destacam-se a lei Eusébio de

Queirós de 1850, que extinguiu o tráfico, a lei do ventre livre de 1871, que tornou de condição livre os filhos de mulher escrava nascidos a partir dessa data e a lei Saraiva-Cotegipe de 1885, que declarou livre os escravos acima de 65 anos.

182 Nina Rodrigues nasceu n cidade de Vargem Grande no Maranhão, em 1862, estudou na Escola

de Medicina da Bahia, onde se formou no ano de 1888, sendo posteriormente professor dessa mesma faculdade, onde desenvolveu pesquisas sobre o negro no Brasil.

alguns aspectos e estratégias que envolviam a sobrevivência escrava na cidade, tais como o roubo e o furto, diferenciados, essencialmente, pelo emprego da violência. Na documentação pesquisada, não encontramos crimes contra a propriedade praticados por escravos que envolvessem grandes repercussões na imprensa ou destaque social; grande parte era praticada dentro dos limites senhoriais e envolviam pequenas somas em dinheiros e os objetos, tais como roupas, alfinete, anéis, colheres, tijolos, instrumentos de trabalho, dentre outros como já foi visto em alguns anúncios de fuga.

Na cidade, esses furtos e roubos deveriam ser mais facilmente praticados, a grande movimentação escrava e seu trabalho freqüente nas ruas, eram fatores que facilitavam essas ações. As ruas, os becos, as praças da cidade não serviam só para passeio, eram largamente usados para venda de miudezas pelos escravos, espaço ainda mais propício quando se aproveitava ainda a escuridão da noite, em uma cidade mal iluminada como era o Recife, ou os períodos festivos. Além disso, muitos escravos trabalhavam como carregadores, que poderia ajudar no escoamento dos objetos, pois o carreto dos itens roubados não deveria causar estranheza e seria facilmente confundido com o trabalho dos carregadores. Assim, pode-se afirmar que as transgressões escravas eram cercadas por uma rede de pessoas que viabilizavam a dispersão dos furtos, envolvendo pessoas de diversas camadas sociais interessadas no lucro maior, conforme indica Boris Fausto183.

Quanto às transgressões contra a ordem pública, estão intimamente relacionadas ao cotidiano escravo na cidade que, em geral, expressavam o descumprimento às leis que buscavam regular a ação nesse ambiente. A regulamentação social previa que o escravo não podia portar armas, não devia dirigir palavras ofensivas, nem tampouco andar embriagado, fazer vozerias, dentre muitos outros dispositivos, como já vimos. Essas leis, que buscavam controlar ou direcionar o comportamento escravo, indicam a conduta idealizada pela sociedade. Porém, em contrapartida, os inúmeros casos de descumprimento dessas leis e as artimanhas usadas para burlá-las sugerem que a capacidade de reação escrava ia muito além do esperado ou do que era conveniente socialmente.

Nas sessões policiais presentes nos jornais da época, encontram-se freqüentemente casos de transgressões à ordem pública em uma possível

183

FAUSTO, Boris. “Crime e cotidiano: a criminalidade em São Paulo (1880-1924)”. São Paulo: Brasiliense, 1984. P. 138.

demonstração de rejeição às regras impostas, conforme os vários exemplos extraídos e estudados do periódico “Diário de Pernambuco” no capítulo anterior. O controle da ordem pública ficava a cargo do corpo policial que deveria vigiar os escravos dia e noite, porém, a efetivação desse controle social se deu em meio a uma tensão sempre presente no sistema escravocrata.

Outro fator que aterrorizava a ordem pública era o porte de armas pelos escravos, que “transformavam em armas qualquer utensílio que caísse nas mãos: navalhas, pedaços de pau e ferro, garrafas” 184, e uma vez aliados a utilização da destreza corporal, em especial o uso da capoeira, poderiam ser fatais. De modo geral, as transgressões contra a ordem pública demonstram a dificuldade em efetivar o controle escravo em uma sociedade repressora, ao mesmo tempo, em que apontam estratégias escravas para também imprimir o ritmo dessa “ordem”. O cativo tinha a possibilidade de interagir com a cidade, e esta não era apenas fruto dos desejos e ambições da ordem escravocrata, pois, a medida que resistiam a dominação imposta, os escravos criavam espaços próprios de sociabilidade.

Por fim, o crime contra a pessoa, revela uma forma de violência presente no sistema escravista, que reflete a própria sociedade, eram ferimentos, ofensas físicas, tentativas de morte, homicídios. Os casos mais freqüentes na documentação estudada eram de ferimentos e ofensas físicas, retratados no “Diário de Pernambuco”, e também nos processos criminais a seguir, em que predominavam ações individuais e os instrumentos comumente utilizados eram faca, canivete e pau. Ainda, pode-se afirmar que eles estão ligados às especificidades do cativeiro urbano, à “liberdade de movimentação” escrava, à dificuldade do controle, ao convívio mais próximo com outros segmentos sociais, estando esses fatores entre aqueles que pulverizavam a ação e reação escrava em tal ambiente.

O espaço urbano traz consigo uma natureza multifacetada, com isso o controle dos escravos era mais diversificado, o que exigia mecanismos que extrapolavam a atuação dos senhores, tais como patrulhas noturnas; os fiscais dos ajuntamentos de forros e cativos e os que encarregavam de capturá-los, quando fugitivos, personificavam também instrumentos do mando e dessa maneira, foram

184 ALGRANTI, Leila Mezan. “O feitor ausente: estudos sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro,

igualmente objeto dos ataques dos escravos contra a violência institucional a que estavam sujeitos185, conforme argumenta Algranti, e de fato se constatará.

Na documentação pesquisada para o período em questão – cerca de 8 processos entre Habeas Corpus e Recursos Crime – destacam-se dois referentes ao Recife, que analisaremos daqui para frente, um envolveu o escravo Manoel da Penha de 1877 e o outro diz respeito ao assassinato do escravo Florentino de 1871, onde a concretização das agressões de escravos contra policiais leva a reflexão sobre as tensões características do espaço urbano. Neste espaço, não havia a figura do feitor, elemento fundamental do controle escravo no campo, ficando encarregado dessa fiscalização na esfera pública o corpo policial, desencadeando tanto a prática de violência por parte dos policiais como os tornava passíveis de sofrer diretamente com a violência.