SEÇÃO 2 O ESTATUTO TEÓRICO DA MERCADORIA
2.1 A mercadoria como valor de uso e valor de troca
Marx abre o Capítulo 1 de O Capital com a seguinte definição:
A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie. A natureza dessas necessidades, se elas se originam do estômago ou da fantasia, não altera nada na coisa. Aqui também não se trata de como a coisa satisfaz a necessidade humana, se imediatamente, como meio de subsistência, isto é, objeto de consumo, ou se indiretamente, como meio de produção. (MARX, 1996, p.165).
À esta definição bastante simplificada, de coisa que satisfaz necessidades humanas, Marx vai incorporando outros elementos que caracterizam uma mercadoria sob o sistema capitalista. Um dos principais aspectos, seguindo uma inspiração aristotélica, é a reunião do valor de uso com o valor de troca (a literatura inglesa usava worth para valor de uso e value para valor de troca) em um mesmo corpo material21.
20 A compreensão das relações entre a forma-mercadoria e a forma-dinheiro permite a Marx estabelecer a distinção entre as duas formas de circulação de mercadorias (mercadoria – dinheiro – mercadoria e dinheiro – mercadoria – dinheiro, sendo esta última a representação da fórmula geral do capitalismo).
21 Marx toma essa oposição de Aristóteles, e a une a lógica hegeliana para criar a base sobre a qual tece sua descrição crítica do capitalismo mundial (TAUSSIG, 2010, p. 43). Para uma análise da influência de Aristóteles em Marx, ver LIMA, Alexandre. Economia Política de Aristóteles e a Perspectiva de Marx.
48 Segundo Marx, a utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. Essa utilidade, porém, não paira no ar, sendo determinada pelas propriedades do corpo da mercadoria. Em outras palavras, pode-se dizer que o poder de satisfazer uma necessidade está posto na corporalidade da própria mercadoria. Os valores de uso são, então, os portadores materiais dos valores de troca, já que no sistema capitalista a mercadoria só se faz “útil” depois de posta em circulação no mercado.
Inicialmente o valor de troca aparece como a relação quantitativa, a proporção na qual valores de uso de uma espécie se trocam contra valores de uso de outra espécie, uma relação que muda constantemente no tempo e no espaço. Citemos um exemplo comumente repetido: como mercadoria, o sapato possui propriedades adicionais ao seu valor de uso (que pode ser facilitar o caminhar de quem o calça ou agradar aos olhos de quem vê); essa propriedade adicional é o valor de troca, que advém do processo de circulação e gera lucro para o capitalista. Como valor de troca, o sapato é igual (equivalente) a outras mercadorias que tenham esse mesmo valor (quantitativo), embora como valor de uso seja diferente, já que a apreciação qualitativa de suas características físicas e simbólicas varia. O meio de troca mais usado para facilitar a equivalência das mercadorias na circulação é o dinheiro.
Por conseguinte, primeiro: os valores de troca da mercadoria expressam algo igual. Segundo, porém: o valor de troca só pode ser o modo de expressão, a ‘forma de manifestação’ de um conteúdo dele distinguível (MARX, 1996, p. 166). Qual seria, então, este elemento igual, comum a todas as mercadorias, e ao mesmo tempo distinguível delas? Marx propõe analisar o valor de troca das mercadorias a partir da redução a um elemento que, sendo comum, não seja uma propriedade geométrica, física, química ou qualquer outra propriedade natural das mercadorias. Isso porque, como dito, as propriedades corpóreas só entram em consideração à medida que elas lhes conferem utilidade, isto é, tornam-nas valor de uso. Por outro lado, é precisamente a abstração de seus valores de uso que caracteriza a relação de troca das mercadorias. Colocando à parte, então, o valor de uso dos corpos das mercadorias, Marx encontra o elemento comum dos valores de troca em apenas uma propriedade, que é a de serem produtos do trabalho. Este é um trabalho abstrato 22 , desprovido de suas características e qualificações
Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Florianópolis, 2011.
22 Em contraposição encontra-se o trabalho útil (ou concreto), que assim se chama porque leva em consideração o fim (o objetivo) da produção da mercadoria, ou seja, o seu uso.
49 particularizadas. Ele é pensado através do método científico da abstração, por meio da qual Marx elimina as especificidades que marcam, por exemplo, o trabalho agrícola na produção do trigo, ou o trabalho industrial na produção do tecido, o trabalho metalúrgico na produção do ferro23. Assim:
Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados, e desaparecem também, portanto, as diferentes formas concretas desses trabalhos, que deixam de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual trabalho humano, a trabalho humano abstrato. (MARX, 1969, p. 168).
O trabalho humano abstrato é o elemento comum presente indistintamente em todas as mercadorias, a despeito das aparentes diversidades externas. Marx afirma que os trabalhos abstratos têm uma mesma objetividade fantasmagórica, sendo “uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado, sem consideração pela forma como foi despendida” (Marx, 1996, p. 168). Ao passo que, no processo de produção de uma mercadoria, é despendida força de trabalho humano, a cristalização dessa substância social comum a todas as mercadorias gera o valor mercantil. Nas palavras de Marx: um bem possui valor apenas porque nele está objetivado ou materializado trabalho humano abstrato; o valor de troca é a “maneira necessária de expressão” ou a “forma de manifestação” desse valor, e todos (valor, valor de troca, valor de uso) devem ser considerados independentemente24. Resumindo:
Uma coisa pode ser valor de uso, sem ser valor. É esse o caso quando a sua utilidade para o homem não é mediada por trabalho, assim, o ar, o solo virgem, os gramados naturais, as matas não cultivadas etc. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano, sem ser mercadoria. Quem com seu produto satisfaz sua própria necessidade cria valor de uso mas não mercadoria. Para produzir mercadoria, ele não precisa produzir apenas valor de uso, mas valor de uso para outros, valor de uso social. {E não só para outros simplesmente. O camponês da Idade Média produzia o trigo do tributo para o senhor feudal, e o trigo do dízimo para o clérigo. Embora fossem produzidos para outros, nem o trigo do tributo nem o do dízimo se tornaram por causa disso mercadorias. Para tornar-se mercadoria, é preciso que o produto seja transferido a quem vai servir como valor de uso por meio da troca}. Finalmente, nenhuma coisa pode ser
23 “Alfaiataria e tecelagem, apesar de serem atividades produtivas qualitativamente diferentes, são ambas dispêndio produtivo de cérebro, músculos, nervos, mãos etc. humanos, e nesse sentido são ambas trabalho humano” (MARX, 1996, p. 172).
24 Separá-los para fins analíticos, seguindo o método dialético, posto que tanto o valor de uso quanto o valor de troca estão presentes na mercadoria capitalista, unificados pelo “valor”.
50 valor, sem ser objeto de uso. Sendo inútil, do mesmo modo é inútil o trabalho nela contido, não conta como trabalho e não constitui nenhum valor. (MARX, 1996, p. 170).
Podemos dizer, assim, que o valor de uso se realiza no ato do consumo, e o valor de troca se realiza no ato da circulação (compra e venda) da mercadoria. A mercadoria só tem utilidade/valor de uso depois que circula e se realiza como valor de troca. Gorender esclarece:
No concernente à mercadoria, o valor de uso é o suporte físico do valor. Não pode ter valor o que carece de valor de uso. Que a mercadoria possua o caráter dúplice de valor de uso e valor resulta do caráter também dúplice do próprio trabalho que a produz: trabalho concreto, que responde pelas qualidades físicas do objeto, e trabalho abstrato, enquanto gasto indiferenciado de energia humana. O trabalho abstrato, pelo fato de estabelecer uma relação de equivalência entre os variadíssimos trabalhos concretos, vem a ser a substância do valor. (GORENDER, 1996, p.30).
Enquanto a substância do valor é o trabalho (abstrato), a medida de sua grandeza, por sua vez, é o tempo de trabalho (também abstrato). Pondera Marx (1996, p. 168) que se o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho despendido durante a sua produção, poderia parecer que quanto mais preguiçoso ou inábil fosse um homem, tanto maior o valor de sua mercadoria, pois mais tempo ele necessitaria para terminá-la. O trabalho que constitui a substância dos valores, entretanto, é o trabalho humano igual, à medida que possui o caráter de uma força média de trabalho social. O autor esclarece: “Tempo de trabalho socialmente necessário é aquele requerido para produzir um valor de uso qualquer, nas condições dadas de produção socialmente normais, e com o grau social médio de habilidade e de intensidade de trabalho” (MARX, 1996, p. 169). Trata-se, portanto, de um tempo de trabalho pensado em termos abstratos, condizentes com o método dialético, que abstrai os aspectos empíricos superficiais (peculiares ou individualizantes) para pensar as condições sociais de produção.
O tempo de trabalho explorado pelo capitalista para além da produção do equivalente ao salário recebido pelo trabalhador gera ao capitalista a mais-valia, ou o mais-valor, como algumas traduções mais recentes da obra de Marx pretendem enfatizar, sob a justificativa lógica de tratar-se de um valor extra somado ao bem ou serviço produzido. Assim explica Duayer, na apresentação que faz aos Grundrisse:
A produção capitalista, sendo produção de valor, tem necessariamente de ser produção de mais-valor. Mais-valor, por sua vez, subentende um processo por meio do qual um dos envolvidos no processo de produção – no caso, o trabalhador – produz mais valor do que recebe sob a forma
51 de salário. Por conseguinte, a determinação da produção capitalista como produção de valor pressupõe a exploração do trabalhador. (DUAYER, 2011, p. 25).
O processo de mercantilização oculta, portanto, que no interior da rede de instituições capitalistas, o trabalho constitui-se como fonte de lucro. Pela compra da mercadoria força de trabalho, o capitalista incorpora o trabalho social aos elementos inanimados das mercadorias produzidas. A principal consequência disso é que as mercadorias aparecem, em si, como fontes de valor e de lucro. “A definição do trabalho humano e de seus produtos como mercadoria camuflam tanto a base social e humanamente criativa do valor quanto a exploração desta atividade pelo sistema mercantil” (TAUSSIG, 2010, p. 55).
Assim, o processo de geração de mais-valia/mais-valor é, em geral, ignorado ou desprezado, uma vez que os processos sociais de reprodução e expansão do capital podem facilmente parecer uma propriedade inerente à mercadoria em si, não ao processo do qual fazem parte. Nesse processo de descontextualização, o lucro não mais parece ser resultado de uma relação social, mas uma coisa. Taussig (2010) pondera que quando “coisificamos” parte de um sistema vivo, ignoramos o contexto do qual essa coisa é parte e depois observamos que as coisas se “movem”, entendemos que tais coisas podem ser vistas e descritas como se estivessem vivas e tivessem poderes autônomos. “Se forem encaradas como meras coisas elas irão, portanto, aparecer como se fossem animadas, ou seja, como fetiches (...). Logo, a reificação leva ao fetichismo”. (TAUSSIG, 2010, p. 67).