BERTRAND RUSSELL (1872-1970)
A METÁFORA
Objectivo: A partir de uma história da teoria da metáfora, desenvolver uma posição coerente e própria acerca da natureza do fenómeno.
Aristóteles
Cf. Poética e Retórica. Metáfora é o transporte de um nome de acordo com uma regra ou razão. Aristóteles enumera quatro regras ou razões. Duas delas (o ‘transporte do género para a espécie’ e o ‘transporte da espécie para o género’) supõem algo como uma organização taxinómica das línguas naturais. A terceira e a quarta dizem respeito a semelhança e figurabilidade. Aristóteles propõe uma ainda explicação das virtudes cognitivas da metáfora: através das metáforas a alma ‘vê melhor e mais longe’. Isto acontece porque as metáforas põem debaixo dos olhos as semelhanças, dão a conhecer verdades, provocando o espanto e o prazer pela aprendizagem de coisas novas. Assim, em geral, a metáfora é um fenómeno no qual palavras deslocadas do seu âmbito de ocorrência próprio provocam no espírito uma ‘iluminação’, uma compreensão súbita do que não seria compreensível de outro modo. A deslocação das palavras não provoca o não-sentido, mas sim uma nova inteligibilidade. A metáfora não é um fenómeno restringido à arte e à eloquência, mas antes um fenómeno comum.
Linguística Cognitiva
Cf. Lakoff & Johnson, Metaphors We Live By. A natureza da metáfora é explicada pela preservação – mediante um mapeamento ou projecção (mapping) – de propriedades topológicas, apercebidas de forma não linguística, sobre domínios linguísticos abstractos. Compreender a experiência através da metáfora é como usar um sentido mais. O
‘entendimento directo’ propiciado por algumas metáforas deriva do facto de elas constituírem uma projecção de esquemas de imagem sobre o léxico. Esses esquemas de imagem ‘organizam a conceptualização’, i.e. o entendimento subjectivo, das unidades linguísticas. A omnipresença de metáforas em todas as línguas naturais mostra que a compreensão de linguagem, o processamento semântico, envolve representações universais, que não são de natureza algorítmica, mas perceptiva. De forma geral, a explicação que Lakoff e Johnson dão da metáfora evidencia a incorporação da mente bem como a natureza não modular do processamento de linguagem.
Eco
Cf. Metáfora e semiose, em Semiótica e Filosofia da Linguagem. O filósofo italiano Umberto Eco define a natureza da metáfora a partir de três conceitos do filósofo pragmatista americano Charles Sanders Peirce. Esses conceitos são os conceitos de interpretante, semiose ilimitada e abdução. De acordo com Eco, a metáfora é um ‘fenómeno de enciclopédia no quadro da semiose ilimitada, que envolve um processo de abdução’. A compreensão de metáforas envolve processos subdoxásticos complexos, não conscientes nem voluntários, que exploram a organização semântica das unidades das línguas naturais no quadro da semiose ilimitada, bem como um tipo de inferência a que Eco, a partir de Peirce, chama abdução. Segundo Eco, para compreendermos o que permite desambiguar (compreender, capturar) uma expressão metafórica, temos que considerar o processo semiótico em geral (a forma como as lingaugens e outros sinais funcionam), a possibilidade de decomposição semântica das unidades linguísticas (palavras), e em particular, na decomposição semântica (i.e. na analise dos componentes do significado
96 Este guião introduz os dados mínimos para uma aula sobre o fenómeno da significação não literal.
Apresenta-se depois em Complementos um desenvolvimento, explicação e aprofundamento de conceitos que no Guião são apenas mencionados, e que poderá servir de apoio à realização de trabalhos de investigação.
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de palavras), a existência de ‘fenómenos de dicionário’ e ‘fenómenos de enciclopédia’. Os fenómenos de enciclopédia envolvidos na produção e compreensão de metáforas são fenómenos pragmáticos e dependentes do contexto.
Derrida
Cf. Mitologia branca, em Margens da Filosofia. Segundo Derrida, considerar que a linguagem comporta uma divisão entre o metafórico e o não-metafórico pressupõe (injustificadamente) a possibilidade de distinguir de forma não problemática aquilo que é o próprio ou literal. Ora, Derrida põe em causa a possibilidade de estabelecer claramente uma tal distinção, embora defenda que a crença na possibilidade de a estabelecer subjaz ao ‘pensamento ocidental’
e à distinção que no seio deste é feita entre aquilo que é claramente racional (científico, filosófico) e portanto valorizado e aquilo que é artístico, da ordem da imaginação, não racional, e portanto desvalorizado. O par conceito-metáfora é mais uma das divisões hierarquizadas que organizam o ‘pensamento ocidental’, que se concebe a si próprio de uma forma que Derrida procura capturar com a expressão – que tem vários sentidos - ‘mitologia branca’, ao lado de pares como originário-cópia, espírito-corpo, etc.
Searle
Cf. «Metaphor» (Expression and Meaning). De acordo com Searle, o significado metafórico é speaker’s meaning (significado do falante), daí que se imponha uma análise pragmática do fenómeno. A situação é a seguinte: A. O falante diz ‘…….’ B. O ouvinte utiliza um raciocínio de tipo griceano97 para determinar aquilo que o falante disse. Isto mostra que a explicação do funcionamento das metáforas é um caso especial da explicação da divergência entre significado do falante (speaker’s meaning) e significado de palavra (significado convencional) e que é necessário explicitar os princípios que relacionam o significado literal da expressão com o significado metafórico enquanto significado do falante. Searle vê o processo interpretativo da seguinte maneira: um ouvinte que compreende uma metáfora dá três passos depois de ‘ouvir’ a elocução em causa: 1. determina se deve ou não procurar uma interpretação não literal, 2. se se decide a procurar uma interpretação metafórica, precisa de mobilizar estratégias para gerar ‘significados do falante’ possíveis 3. utiliza princípios ou estratégias para identificar que significados de entre os significados do falante gerados em 2 estão em jogo na ocasião particular da elocução. Ao contrário de Davidson, Searle pensa que as elocuções metafóricas constituem genuiína comunicação linguística, e não mera causação. Além disso, o mecanismo cognitivo postulado por Searle discerne alguma coisa a que ele considera que vale pena chamar significado metafórico.
Davidson
Cf. «What Metaphors Mean», (Inquiries into Truth and Interpretation). Davidson pretende descrever o que são as metáforas (e outros fenómenos de linguagem com elas relacionados, como os ditos de espírito e os jogos de palavras) sem pressupor que aquilo que fundamenta o entendimento linguístico são convenções baseadas em regras e sem admitir a existência de entidades que seriam ‘significados metafóricos’. Propõe por isso que o que está em jogo nas expressões metafóricas é o próprio significado literal. As metáforas dependem do uso de expressões com o significado literal habitual, de uma forma que dá origem a insights, em função de um efeito bruto, causal (que poderia ser o efeito de um comprimido ou de uma pancada na cabeça). O efeito é fazer ver semelhanças. As metáforas significam o que as palavras no seu uso literal significam, nada mais. Não há aí lógica alguma, ou pelo menos, não há nenhum fenómeno especificamente linguístico a explicar. Trata-se apenas de provocar efeitos psicológicos, que aliás podem ser diferentes de pessoa para pessoa, conforme a arquitectura cognitiva de cada uma, sem que se possa dizer que ocorreu uma boa ou má interpretação da metáfora.
Ricoeur
Cf. A Metáfora Viva. A análise que Ricoeur faz da metáfora insere-se na sua concepção hermenêutica de filosofia e na sua análise da existência humana como interpretação. Essa interpretação é uma interpretação sem fim, e por meio dos mais variados discursos – face à chamada ‘via curta’ de Heidegger (a hermenêutica ontológica) Ricoeur defende uma via longa para a hermenêutica, i.e. defende que a filosofia hermenêutica deve ser feita em contacto com as disciplinas da interpretação tais como a psicanálise, a análise textual, etc. O estudo da metáfora feito por Ricoeur em A Metáfora Viva passa pela palavra e pela frase até chegar ao discurso. Ricoeur considera que já ao nível dos fenómenos de transporte e deslocamento de palavras o mecanismo metafórico é mais do que uma substituição mecânica – ele envolve transgressão categorial, recategorização, evidenciando por isso de alguma forma a própria natureza (criativa) do pensamento enquanto processo do qual provêm as classificações, os conceitos estáveis (estes são instituídos devido a uma semelhança que teve que ser primeiro ‘vista’). O aspecto
97 P. Grice, em Meaning (1957), defende que dizer que A quis-dizer (meant) alguma coisa com x é dizer que ‘A tinha a intenção de que a elocução de x produzisse algum efeito numa determinada audiência através do reconhecimento da sua intenção’.
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mais original da proposta de Ricoeur é a inserção da análise da metáfora-discurso numa tarefa hermenêutica geral.
Ricoeur vê no discurso metafórico a libertação de um ‘poder de referência de segundo grau’, que tem como condição a suspensão da referência literal. Para Ricoeur o discurso metafórico não é auto-referencial e centrado em si mesmo mas antes ocasião de ‘referência desdobrada’. A análise da metáfora conduz Ricoeur a pensar sobre a natureza da inovação no pensamento, a natureza da imaginação criadora, capaz de redescrever a realidade do mundo habitável, nomeadamente em termos éticos e estéticos. Fugindo ao logos apofântico, à primazia do dizer o verdadeiro de forma descritiva, ‘a metáfora é o processo retórico pelo qual o discurso liberta o poder que certas ficções têm de redescrever a realidade’.
Para posições mais recentes sobre a natureza do significado não literal, ligadas aos temas anteriormente tratados (actos de fala, pragmática, contextualismo e anti-contextualismo), cf. F.
Recanati, Non literal uses em Literal Meaning. R. Carston, Kittay 1987, Moran in Wright & Hale.
Cf. Também os trabalhos de Ester Romero e Belen Soria.
164 Metáfora – Complementos98
O Guião acima oferece uma visão panorâmica e sumária de algumas teorias da metáfora. Aqui pretende-se aprofundar tais referências. A constatação que desde logo se impõe a partir da justaposição das teorias da metáfora é que o problema está longe de ser meramente um problema retórico, relativo à sofisticação ou embelezamento de conteúdos conceptuais que estariam previamente definidos. Pelo contrário, aquilo que está em causa na concepção de metáfora são teorias acerca da natureza da linguagem e do pensamento e da natureza do humano enquanto associada à linguagem e ao pensamento. Ao longo dos muitos séculos em que tem vindo a ser tratada como problema, a metáfora foi encarada com diferentes olhares e interesses. Consequentemente, as teorias que a analisam situam-se em âmbitos eles próprios distintos.
Encontram-se assim teorias da metáfora feitas com propósitos linguísticos e estéticos, tendo em mente a composição e recomposição mais ou menos voluntária e artística de palavras e outros materiais simbólicos, teorias feitas com propósitos cognitivos, visando capturar a estrutura do funcionamento (mais ou menos inconsciente) da mente, teorias feitas com propósitos ontológicos, visando a importância da transfiguração ou criação conceptual naquilo que é ser humano, teorias feitas com propósitos de desconstrução, visando revelar decisões arbitrárias ou infundadas na concepção de
‘pensamento’ ou de ‘conceito’, etc.
No entanto, por entre o grande número de propostas avançadas ao longo da história do pensamento filosófico e artístico, a teoria aristotélica da metáfora, desenvolvida na Poética e na Retórica, é um ponto de referência incontornável.
Segundo U. Eco, «dos milhares e milhares de páginas escritas sobre a metáfora poucas acrescentam alguma coisa aos dois ou três conceitos fundamentais enunciados por Aristóteles»99. O que é que Aristóteles faz de tão importante? Aristóteles define ‘metáfora’ como o transporte de um nome de acordo com alguma ‘regra’ ou razão e enumera quatro regras ou razões para esse transporte100. Duas delas (o transporte ‘do género para a espécie’ e o transporte ‘da espécie para o género’) supõem a organização taxinómica do léxoco das línguas naturais, i.e. assume que existe algo como uma estrutura de encaixe de classes presente no significado das palavras, no uso comum destas (por exemplo quando se diz ‘homem’ supõe-se o género ‘animal ou animado’).
A terceira e a quarta razões (respectivamente o transporte ‘da espécie para a espécie’ e o transporte ‘por analogia’) dizem respeito a uma dimensão de semelhança mais complicada.
Aristóteles não apenas apresenta uma hipótese acerca do funcionamento estrutural da linguagem que propicia o surgimento de metáforas como também propõe uma explicação das virtudes cognitivas destas, i.e. dos
98 O material que se segue foi em grande medida retirado do meu artigo «Metáfora», ele próprio escrito, tal como o presente manual, a partir da leccionação da filosofia da Linguagem na FLUP, bem como do trabalho realizado no âmbito da tese de Mestrado intitulada As Ciências Cognitivas e a Naturalização do Simbólico (Lisboa, FCSH – UNL, 1995), orientada por Fernando Gil.
99 ECO 2001: 154.
100 É na Poética, XXI, 1457b, que aparece a célebre definição de metáfora: A metáfora (metaphora) é o transporte (epiphora) para uma coisa de um nome (onomatos) que designa uma outra (allotriou), sendo o transporte ou do género para a espécie (apo tou genos epi eidos), ou da espécie para o género (apo tou eidos epi to genos) ou da espécie para a espécie (apo tou eidous epi eidos), ou por analogia (è kata to analogon).
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seus efeitos no espírito de quem as ouve ou produz. Segundo Aristóteles, através das metáforas a alma vê mais e mais longe: as metáforas permitem ver semelhanças (a expressão grega é to homoion theorein), estas são postas anteriormente desconhecido. Se as metáforas são deslocações ou transportes de palavras, palavras fora do âmbito próprio, é importante notar que essa de persuasão dos espíritos que ele acaba por tratar das metáforas. De facto, a questão das metáforas é de certa forma adjacente e secundária em relação à mimesis e à persuasão, que são, elas sim, os temas centrais da Poética e da Retórica. Estas obras, por sua vez, não são propriamente a ùltima palavra de Aristóteles quanto à natureza linguagem. Talvez ele preferisse indicar como mais centrais as doutrinas acerca da relação entre a linguagem, os estados de alma e as coisas que se encontram no tratado Acerca da Interpretação101, ou as doutrinas que exploram as relações entre as categorias da linguagem e as categorias do ser, que se encontram nas Categorias. Noutras palavras:
provavelmente, de acordo com o próprio Aristóteles, se é que é possível encontrar na linguagem indícios para uma teoria geral da realidade, será possivelmente numa linguagem mais ‘dominada’.
São no entanto as palavras de Aristóteles sobre a metáfora que definem esta para os séculos vindouros. É também nas palavras de Aristóteles que se encontra um meta-problema acerca da metáfora que perseguirá os autores que se lhe dedicam, e que algumas pessoas (por exemplo Derrida), considerariam como sintoma de algo de mais importante por trás de uma questão que pode parecer meramente linguística. Acontece que a própria palavra grega metaphora é uma metáfora, um pedido de empréstimo à ordem do movimento.
Ora, isto parece condenar aquele que procura definir a metáfora à ausência de fundamentação, a mover-se em círculos. Phora é mudança segundo o lugar:
uma metáfora é, assim, literalmente uma palavra fora do lugar. Mas que lugar?
Se se considera, como alguns autores (por exemplo G. Vico ou F. Nietzsche102) que a linguagem é irredutivelmente, por natureza e originalmente, metafórica, aquilo que se vislumbra é a possibilidade de toda a linguagem estar naturalmente e desde sempre ‘fora do lugar’.
101 «A fala é um conjunto de elementos simbolizando os estados de alma, e a escrita é um conjunto de elementos simbolizando a fala. E, assim como os homens não têm todos o mesmo sistema de escrita, eles não falam todos da mesma maneira. No entanto o que a fala significa imediatamente são os estados de alma, que são, esses, idênticos para todos os homens; e o que esses estados de alma representam são as coisas, não menos idênticas para todos», ARISTÓTELES, Acerca da Interpretação, I, 16a.
102 Cf. por exemplo Nietzsche: «O que é então a verdade? Uma multidão movente de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos (...) uma soma de relações humanas poeticamente (...) transpostas (...) metáforas usadas que perderam a sua força sensível», (NIETZSCHE 1969, Le Livre du Philosophe, p.181-183).
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Voltando a Aristóteles, tanto na Poética como na Retórica o tratamento da metáfora surge no âmbito de uma teoria da lexis (elocução, estilo). Isto não significa, repita-se, que o discurso metafórico seja excepcional, restringido ao poeta trágico ou ao retórico: segundo Aristóteles «todos usam metáforas na conversação, assim como termos comuns e próprios»103. Em suma, todos transportamos palavras. Digamos ‘nomes’, para efeitos de percurso da argumentação de Aristóteles, na medida em que onoma (o nome) é o que há de comum à definição de metáfora como epiphora onomatos (transporte do nome) e à enumeração das partes da lexis (enunciação). Estas são as seguintes: letra, sílaba, conjunção, artigo, nome, verbo, flexão e logos ou proposição. É aliás esta enumeração, e a análise dos elementos enumerados, que precede a definição de metáfora no texto da Poética. Aristóteles nota que onoma é phonê semantiké (som significativo, sem indicação do tempo). É isto que distingue onoma de rhema, o verbo, no qual existe marca do tempo. Aquilo que na linguagem é nome opõe-se ainda a stoikheion, a letra (som indivisível), e a assemos (o que não significa). Mas aquilo que é ‘metaforizável’ não se restringe aos nomes. Nome e verbo, nomeadamente, estão, enquanto sons significativos, dentro do ‘limiar semântico’, por contraste com as partes antecedentes da lexis que são assemos, não dotadas de significação. Ora, os fenómenos metafóricos dão-se no interior deste limiar semântico. A ligação da metáfora à lexis a partir do nome dá-se da seguinte maneira na Poética.
Quando Aristóteles pergunta que nomes existem, segue-se uma enumeração:
há nomes correntes (kyrion), estrangeiros, ornatos, inventados, alongados e metáforas. É portanto no núcleo semântico da enunciação ou lexis que pode haver metáfora. Metaphora é, assim, até agora, algo que acontece aos ‘nomes’
(no sentido generalizado de sons significativos), que é descrito em termos de um movimento, que transpõe um nome que Aristóteles chama allotrios (‘estranho’, que designa uma outra coisa), de uma forma que é ‘para to kyrion’
(contra o uso vulgar).
Voltando à definição, vamos seguir uma a uma as espécies do género
‘metáfora’ enumeradas por Aristóteles. Hoje dir-se-ia talvez que as duas primeiras espécies aristotélicas de metáfora são sinédoques, formas de tomar a parte pelo todo ou o todo pela parte, e que a sua explicação é diferente e bem mais simples do que a explicação da metáfora: elas dizem respeito a
‘trajectos’ no interior de classificações incorporadas e estabelecidas na língua, ao passo que a terceira e quarta espécies podem, elas sim, provocar algum tipo de insight, algum abalo cognitivo. A primeira espécie do género metáfora na definição aristotélica é, recorde-se, aquela pela qual se dá à espécie o nome do género. O exemplo de Aristóteles é ‘Aqui minha nave se deteve’ por ‘Aqui minha nave está ancorada’ («pois o estar ancorado’ é parte do género ‘deter-se»’104). Para se ter em mente um exemplo mais claro pense-se no uso de
‘mortais’ por ‘homens’: sendo homens uma espécie do género mortais, quando se chama aos ‘homens’ os ‘mortais’, está-se a usar o género pela espécie, de uma forma bastante estandardizada (é por essa razão aliás que não entendemos ‘crocodilos’ ou ‘aves’, ou ‘vacas’ quando ouvimos dizer ‘mortais’, mesmo se ‘mortais’ é género de ‘crocodilos’ ‘aves’, ‘vacas’, ‘homens’, etc).
103 ARISTÓTELES, Retórica, Livro III, 1404b.
104 ARISTÓTELES, Poética, 1457 b.
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A segunda espécie do género metáfora é aquela pela qual se nomeia o género através do nome da espécie. O exemplo de Aristóteles é ‘Milhares e milhares de gloriosos feitos Ulisses levou a cabo’, em que ‘milhares e milhares’ está por
‘muitos’. O que importa notar é que apesar de as duas primeiras espécies de metáfora envolverem movimentos interpretativos de ‘sentidos’ opostos (ascendente ou descendente na classificação existente na língua, para utilizar uma metáfora...) elas apoiam-se numa mesma estrutura lógica ou semântica segundo, em lugar de ‘esgotar’, ‘cortar’, mas ambas as palavras especificam o tirar a vida»105. Como nota Eco106, esta metáfora parece mais genuinamente metafórica: nela entram em jogo semelhanças e dissemelhanças, fusões de significados, e já não apenas identificações de percursos no seio de géneros e espécies estabelecidos na língua. Neste tipo de metafóras parece que aquele considerando que «’donzela’ e ‘junco’ participam do género ‘corpo flexível’»107.
Há novos problemas neste mecanismo. Em primeiro lugar, é preciso classificações com que os dois primeiros tipos de metáfora jogam. Ela tem que ser colocada como hipótese por quem compreende ou quer compreender metáforas. Eco chama, nos seus escritos, a essa estrutura de géneros e espécies uma árvore de Porfírio109. Uma árvore de Porfírio, considerada de modo puramente formal e deixando em suspenso as questões acerca da
‘organização do ser’ a que naturalmente conduz, é um diagrama de géneros e espécies, uma classificação que permite alcançar definições por sucessivos
‘organização do ser’ a que naturalmente conduz, é um diagrama de géneros e espécies, uma classificação que permite alcançar definições por sucessivos