CAPÍTULO 01 – SOBRE A METÁFORA CONCEPTUAL
1.5 A metáfora e a verdade
Na filosofia, as metáforas são interpretadas como meras questões de linguagem e os filósofos seguem a tendência de compreendê-las como expressões linguísticas, colocando o foco de suas discussões nas condições de verdade ou falsidade das expressões metafóricas e deixando de lado a contribuição da metáfora na compreensão da realidade cultural. Em Metáforas da vida cotidiana, Lakoff e Johnson (2002 [1980]) afirmam que os conceitos são metafóricos por natureza, e as metáforas são nossas principais ferramentas facilitadoras para a compreensão de conceitos abstratos.
A filosofia conclui que as metáforas não podem expressar verdades de forma direta, e se o fazem, isso ocorre apenas indiretamente; já na Teoria da Metáfora Conceptual, ao contrário, a verdade baseia-se na compreensão, sendo negado o pressuposto de que existe apenas uma verdade objetiva, absoluta e incondicional.
Lakoff e Johnson (1991) consideram que a visão tradicional da metáfora é empiricamente falsa, e, portanto, as visões acerca da realidade, da verdade, da linguagem e do conhecimento que estejam ligadas à teoria tradicional da metáfora são igualmente falsas, uma vez que consideram o pensamento ordinário como amplamente metafórico:
[...] Se a teoria do senso comum fosse verdadeira, a metáfora não serviria à função central da linguagem, a qual supostamente consiste em expressar e comunicar verdades literais sobre o mundo. Por causa disso, a metáfora tem sido tradicionalmente relegada à teoria dos tropos, a qual destina-se a lidar com usos da linguagem no discurso e assim por diante. Banir a metáfora do domínio da verdade explica o porquê de a metáfora ter sido tradicionalmente deixada para análises literárias e retóricas, em vez de ser levada a sério pela ciência, pela matemática e filosofia, as quais são vistas como empreendimentos que buscam a
metaphorical from nonmetaphorical thought, we probably can do some very minimal and unsophisticated nonmetaphorical reasoning. But almost no one ever does this, and such reasoning would never capture the full inferential capacity of complex metaphorical thought. (LAKOFF e JOHNSON, 1991, p.59)
verdade (LAKOFF e JOHNSON, 1991, p. 120, tradução nossa)13.
Os autores de Metáforas da vida cotidiana defendem que, na medida em que a verdade é baseada na compreensão, a explicação de como as metáforas podem ser verdadeiras pode revelar como a verdade depende da compreensão cotidiana. O posicionamento dos autores (2002 [1980], p. 287) é o de que apenas compreendemos uma afirmação como verdadeira quando nossa compreensão dessa afirmação corresponde à nossa compreensão da situação em função de nossos objetivos, e essa é a base experiencialista da verdade, que tem raízes em outras teorias filosóficas, como a teoria da correspondência, o realismo clássico e a teoria pragmática14.
A primeira explicação experencialista da verdade teria uma ligação direta com a teoria da correspondência15, mas Lakoff e Johnson (2002 [1980]) vão além da percepção rudimentar dessa teoria ao proporem que uma teoria da verdade significa compreender uma afirmação como verdadeira ou falsa em determinada situação, em decorrência de nossa interação com a situação em si. Na medida em que compreendemos as
13 No original: [...] If the commonsense theory were true, metaphor would not serve the central function of language, which is supposedly to express and communicate literal truths about the world. Because of this, metaphor has been traditionally relegated to a theory of tropes, which is intended to handle uses of language in discourse and so on. The banishment of metaphor from the realm of truth explains why metaphor has traditionally been left to rhetorical and literary analysis, rather than being taken seriously by science, mathematics, and philosophy, which are seen as truth-seeking enterprise. (Lakoff e Johnson, 1991, p. 120).
14 Em Filosofia das Lógicas, Haack (2002) explica as teorias da verdade. As teorias da correspondência, sustentadas por nomes como Russell e Wittgenstein, entendem que a verdade de uma proposição consiste não em suas relações com outras proposições, mas em sua relação com o mundo, sua correspondência com os fatos. A teoria pragmática da verdade, comunga afinidades com a teoria da coerência e da correspondência e admite “que a verdade de uma crença é manifestada pela sobrevivência da crença ao teste da experiência, sua coerência com ouras crenças.
15 De acordo com Pereira (2011), Aristóteles foi o primeiro a apresentar uma concepção de verdade como correspondência. Já para Russell, a correspondência consistiria em um isomorfismo estrutural entre as partes de uma crença e as partes de um fato; é a correspondência daquilo que se acredita ser verdadeiro ou falso que, junto aos fatos, tornam as crenças verdadeiras ou falsas.
situações e afirmações em termos de nosso sistema conceptual, a verdade será sempre relativa ao nosso sistema conceptual. Assim, jamais teríamos acesso a “toda verdade” ou a uma explicação definitiva da realidade, visto que nossa compreensão é sempre parcial.
A segunda explicação considera a compreensão baseada na experiência, a qual exige que compreendamos algo sempre em um esquema coerente relativo a um sistema conceptual. Por fim, a terceira explicação da verdade com base em uma teoria experiencialista defende que o nosso sistema conceptual emerge de nossas ações em ambientes físicos e sociais, as quais são constantemente testadas por meio de um agir contínuo de todos os membros de nossa cultura. Nesse sentido, a teoria experencialista também teria ligação com os elementos da teoria pragmática da verdade (LAKOFF E JOHNSON, 2002 [1980], p. 288).
Mesmo com alguns elementos em comum com o realismo clássico, a teoria experiencialista da verdade considera que os conceitos podem ser metafóricos por natureza e podem variar de acordo com cada cultura. A última característica dessa teoria apontada por Lakoff e Johnson (2002 [1980]) é a de que o corpo de verdades varia de acordo com cada cultura, pois pessoas com sistemas conceptuais muito diferentes compreendem o mundo de formas distintas, com critérios variados para estabelecer o que é real e o que é verdadeiro.
Nesse sentido, Lakoff e Johnson (2002 [1980]) acreditam que haja verdades e que a visão de uma verdade absoluta e objetiva não é simplesmente errônea, mas perigosa social e politicamente. Para eles (2002 [1980]),
[...] A verdade é sempre relativa a um sistema conceptual definido, em grande parte, pela metáfora. A maioria de nossas metáforas evoluiu em nossa cultura, durante um longo período, mas muitas nos foram impostas pelas pessoas que detêm o poder – líderes políticos, líderes religiosos, líderes empresarias, publicitários, a mídia, etc. Em uma cultura em que o mito do objetivismo está muito vivo, e a verdade é sempre absoluta, as pessoas que conseguem impor suas metáforas à cultura conseguem definir também o que consideramos verdadeiro – absoluta e objetivamente verdadeiro. (LAKOFF E JOHNSON, 2002 [1980], p. 88-89)
A ideia de que as metáforas conseguem criar realidades e de que essas realidades podem ser definidas por aqueles que detêm o poder é o que nos fez pensar que os discursos médico-psiquiátricos influenciavam na conceptualização da doença bipolar, a partir das metáforas conceptuais inerentes ao processo cognitivo.
Antes de explorar a literatura existente acerca de como as metáforas podem influenciar na recepção de doenças, daremos ênfase à abordagem crítica da metáfora, uma vez que pretendemos traçar um percurso interdisciplinar, que nos auxilie a compreender as evidências que o corpus delimitado para este estudo demonstrou.