1. Processos de Modernidade
1.2. A Metanarrativa da Modernidade
A metanarrativa da modernidade envolve um quadro compósito de dimensões complexas (e processos), cujo esboço continuaremos a traçar com o objectivo de poder depois esclarecer o conceito e o ideal de realização da autonomia.
Numa perspectiva descritiva, e de acordo com Sousa Santos (1991), o projecto modernidade encontra-se ancorado em dois pilares: o da regulação e o da emancipação, e cada um destes pilares tem três princípios, lógicas ou racionalidades.
O pilar da regulação é constituído pelo princípio de estado (Hobbes), pelo princípio de mercado (Locke) e pelo princípio de comunidade presente essencialmente na filosofia política de Rousseau.
O pilar da emancipação é formado por três lógicas de racionalidade: a racionalidade estético-expressiva da arte e da literatura, a racionalidade moral- prática da ética e do direito, a racionalidade cognitivo-instrumental da ciência e da técnica. Cada uma destas racionalidades tem correspondência com um dos princípios e representam nas suas dinâmicas de conjunto a orientação da vida dos cidadãos.
No entanto, este paradigma cultural da modernidade apresenta claros sintomas de esgotamento e extinção porque algumas das promessas cumpriu- as em demasia, outras estará impossibilitado de cumprir porque a época presente é de crise, ruptura ou transição.
Segundo o mesmo autor, só partindo da modernidade a poderemos transcender. Seguindo as suas ideias, nos últimos duzentos anos o princípio da
comunidade tem sido o mais abandonado, sendo quase absolutamente absorvido pelos princípios do estado e do mercado.
À medida que o capitalismo avançou, o projecto da modernidade prosseguiu, acabando ambas as trajectórias por colidirem, originando tensões, contrariedades, inviabilizando a realização do desejado equilíbrio. Num processo histórico, contraditório, o pilar da regulação veio fortalecer-se à custa do pilar da emancipação, daí resultando diversos desequilíbrios.
Nas suas palavras, “Como em qualquer outra construção, estes dois pilares e seus respectivos princípios ou lógicas estão ligados por cálculos de correspondência. Dos três princípios da regulação, o princípio da comunidade foi o mais negligenciado [...] portanto o mais bem posicionado para instaurar uma dialéctica positiva com o pilar da emancipação [...]” (Sousa Santos, 1991: 27).
Só que após os excessos de regulação já referidos, esta vinculação não poderá ter por base a dinâmica de equilíbrio, correspondência e articulação entre os pilares e seus princípios e racionalidades, pois que esta falhou por falta de equidade e de distribuição das dinâmicas, levando todo o projecto a ressentir-se; será na base de dinâmicas desequilibradas a favor da emancipação e do princípio da comunidade que se encerram as possibilidades deste projecto. Aliás, “Se o pós-moderno significa alguma coisa, significa o desequilibro dinâmico a favor da emancipação com a cumplicidade activa do princípio da comunidade” (ibidem).
Na generalidade, o projecto social e histórico da modernidade nas suas principais características obtém uma ampla aceitação da parte de muitos. A lógica de construção do projecto da modernidade não é muito clara, pelo modo como tem sido concebida ao longo dos séculos e pela sua própria concepção sobre a problemática em torno de princípios e de racionalidades.
Mas as principais contestações surgem por causa de denominações, nomenclaturas e períodos de modernidade, em que uns nos falam de pós-
modernidade, como Lyotard,39 Sousa Santos, Hargreaves, Freire,40 Stoer ou Magalhães, entre outros.
Há ainda os que nos falam de “modernidade tardia” ou “modernidade radicalizada”, como Giddens. Outros ainda manifestam o desejo de recuperar a modernidade, como refere Habermas no seu discurso proferido em 1980 com o título “a modernidade – um projecto inacabado”.
Neste registo, seria ainda de referir nesta nomenclatura o “fim da modernidade”41. Para Cabral Pinto (1996: 13), “Aqueles que proclamam o fim da modernidade (La fine della modernitá) podem não ter razão (e é de crer que não a tenham), mas indubitavelmente sabem do que estão a falar. Eles falam da perda das ilusões sobre o progresso como emancipação, da morte do sujeito unitário da história universal e da descrença na educação, ou perfectibilidade do género humano”.
Referimo-nos assim aos diferentes autores, agrupando-os de acordo com a análise e a nomenclatura que utilizam para definir a modernidade, porque simplifica e sintetiza a nossa abordagem. No entanto, salientamos que com esta análise não queremos vincular posições intelectuais, somente definir áreas de interesse e estudo42.
Para além destes aspectos, a ambiciosa emergência da modernidade ocidental no seu paradigma sociocultural arrasta tensões, dilemas e ambiguidades a vários níveis. Sousa Santos (2000: 15) salienta a este propósito que, “[...] ao contrário do que sucede com os indivíduos, só muitos
39 Considerado por muitos o filósofo de excelência da pós-modernidade, independentemente da justeza
da afirmação, a obviedade é que Lyotard é a figura central no debate da abordagem pós- moderna na Educação. Poderemos não concordar com a nomenclatura dada, mas o que nos importa é a clareza com que identifica as mudanças no moderno sistema social em que vivemos e assinala a intensificação e a complexidade das relações estruturais assentes hoje em contextos de ruptura. A este propósito ver Lyotard (s/d).
40 O autor caracteriza a pós-modernidade como reaccionária, usando o conceito de pós-
modernidade e acrescentando-lhe “reaccionária” em que nos enuncia as suas preocupações de despolitização quer na vida das pessoas quer na educação. Assim, refere Freire (1994: 112), “A pós-modernidade reaccionária vem tendo certo êxito na sua propaganda ideológica ao propagar o sumiço das ideologias, a emersão de uma nova história sem classes sociais, portanto sem interesses antagônicos, sem luta, ao apregoar não haver por que continuarmos a falar em sonho, em utopia, em justiça social”.
41 Para aprofundar esta ideia, ver G. Vattimo (1987).
42 A este propósito é esclarecedor, neste texto, Hargreaves (1998: 46): “a minha posição
intelectual não é pós-moderna. Embora esteja interessado em fenómenos como o colapso da certeza científica enquanto fenómeno social e as suas implicações para a educação, não abraço pessoalmente tal ausência de certeza na maneira como a analiso!”.
anos, senão mesmo séculos, depois da morte de um paradigma sociocultural, é possível afirmar com segurança que morreu e determinar a data, sempre aproximada, da sua morte. A passagem entre paradigmas – a transição paradigmática – é, assim, semi-cega e semi-invisível. Só pode ser percorrida por um pensamento construído, ele próprio, com economia de pilares e habituado a transformar silêncios, sussurros e ressaltos insignificantes em preciosos sinais de orientação. Esse pensamento é a utopia [...]”.
De facto, as grandes promessas da modernidade – de igualdade, de liberdade, de paz perpétua e de dominação da Natureza – ou permanecem em incumprimento ou o seu cumprimento revelou efeitos perversos.
A título de exemplo, e voltando a Sousa Santos (2000), no que respeita à promessa da igualdade, a distância entre os países pobres e ricos tem aumentado sempre, as assimetrias e disparidades são esmagadoras. Assim, os países capitalistas avançados, com 21% de população mundial, controlam 78% da produção mundial de bens e serviços e consomem 75% de toda a energia produzida. Os trabalhadores do Terceiro Mundo ganham em média 20 vezes menos do que os trabalhadores da Europa nas áreas têxteis e da electrónica; morreram mais pessoas de fome no século XX do que em qualquer um dos séculos precedentes.43
No que respeita à promessa de liberdade, assistimos a guerras sangrentas, à total violação dos direitos humanos, mesmo em países que vivem em Paz e Democracia; na Índia, quinze milhões de crianças trabalham em cativeiro, milhões de crianças são vítimas de guerra; as discriminações raciais, étnicas e sexuais continuam e atingem novas e velhas formas, em Inglaterra, entre 1989/1996, os incidentes raciais aumentaram 276%; a violência doméstica contra crianças e mulheres prossegue, a prostituição infantil, meninos de rua, são apenas alguns dados dos flagelos das desigualdades.44
No que respeita à promessa da paz perpétua, nos últimos anos, em função da (re)estruturação do mundo, da queda do muro de Berlim, da independência de vários Estados, aumentaram desmesuradamente os conflitos
43 Dados referidos em Sousa Santos, 2000: 23-24. 44 Dados referidos em Sousa Santos, 2000: 23-24.
entre Estados. De referir que enquanto no século XVIII morreram 4,4 milhões de pessoas em 68 guerras, no nosso século XX morreram 99 milhões de pessoas em 237 guerras; mesmo considerando o aumento da população mundial – 3,6 vezes –, não podemos descurar os mortos na guerra que aumentaram 22,4 vezes.
Por último, no que respeita à dominação da natureza, a actual crise ecológica espelha-nos a destruição maciça da Natureza. Vários são os exemplos: o abate de árvores nas florestas tropicais, a doença e o abate dos animais, a poluição ambiental, a falta de recursos naturais – a falta essencial de água – um quinto da humanidade já não tem acesso a água potável.45
Poderemos dizer com Sousa Santos (2000: 23, 25) que “O problema mais intrigante que as ciências sociais hoje enfrentam pode ser assim formulado: vivendo nós no início do milénio num mundo onde há tanto para criticar, porque se tornou tão difícil produzir uma teoria crítica? [...] Em resultado disto a pergunta que serviu de ponto de partida para a teoria crítica – de que lado estamos? – tornou-se, para alguns, uma pergunta ilegítima, para outros uma pergunta irrelevante e para outros ainda uma pergunta irrespondível”.
Se alguns deixaram de se preocupar com a questão, outros há que, apesar das dificuldades e radicalmente, tentam encontrar e identificar alternativas e perspectivas pelas quais possam tomar partido.
Ainda a este propósito, Smedt (2002: 24), afirma que “Não nos preocuparmos com a ecologia equivale, pois, a cortar o ramo onde estamos sentados”. Tenta falar-nos, metaforicamente, sobre o equilíbrio ecológico à escala planetária (não deixando de enunciar, também, as diversas catástrofes ocorridas ou possíveis de ocorrer), com a pretensão de demonstrar que há incongruência no comportamento humano, pois como é que será possível ligar exclusivamente ou ao ambiente interior ou ao ambiente exterior? A sua estranheza advém da convicção de que “Pelo contrário, quanto mais nos ocuparmos com a ecologia, mais deveremos trabalhar a nossa consciência […]” (ibidem).
Neste modo de abordagem, que interpela a história do progresso, que analisa épocas, gerações, transições e que pressupõe mudanças é genericamente referido como tempos de crise (e nessa lógica tanto se pode falar da crise da modernidade, da crise social, pessoal, ou outras), o enfoque passa a ser o processo crítico, que se espelha quer na radicalidade quer na conformidade. Porém, “A vida moderna supertecnicista facilitou muitas comodidades às pessoas, mas também deu azo a realidades nefastas. Talvez a mais imediata seja a desumanização atroz que observamos, como se o progresso técnico e o progresso humano fossem inconciliáveis.” (Rojas, 2004: 68).
Ainda sobre o estado de crise, Smedt (2002: 27) recorda-nos que não será “a única saída para a evolução global ou pessoal: digamos que ela obriga a agir e a reagir. A mudar de paradigma. A inventar novas soluções.” Fala-nos com este sentido também na proposta do filósofo Russell, que aplica ao mundo em crise um estado de “emergência na urgência” capaz de transformar e alterar o limite crítico iminente (ibidem: 26).
A principal tarefa continua por cumprir: usufruir da técnica sem desumanizar as pessoas. Rojas (2004: 69) considera essa a chave para “Conseguir alargar as margens da cultura ao máximo, mas sem reduzir o ser humano, sem ameaçar o verdadeiro sentido, sem o despojar dos recursos adequados a uma correcta interpretação da vida”.
Não devemos ter exclusivamente um olhar sobre as características da modernidade; um dos contributos que lhe podemos atribuir é precisamente as perspectivas complexas, multidimensionais, que nos traz.
Ora, o projecto da modernidade fornece fontes de segurança e confiança com o seu pensamento racional e libertador e também com a evolução da ciência, inigualáveis a longo prazo a quaisquer outras orientações; reúne, simultânea e paradoxalmente, ideais emancipatórios, de autonomia, de solidariedade, de identidade, de subjectividade, e ideais regulatórios de rotinas, burocracias, capitalismo desorganizado, iminência de desastres irreparáveis.
Tentou-se conceptualizar diversos domínios da modernidade, sem a preocupação de encontrar traços dominantes ou especificidades de um olhar
moderno. Pelo contrário, procurou-se desenvolver a modernidade através de uma argumentação dialéctica e heurística.