CAPÍTULO 1 – TEATRO, EDUCAÇÃO E INFÂNCIA
2.1. A METODOLOGIA DA PESQUISA COM A LINGUAGEM
Recentemente incorporada à educação básica, a educação infantil apresenta hoje um universo curricular não sedimentado. Dentro deste universo, as disciplinas – ou linguagens, ou campos, ou áreas, conforme seja definido pelo grupo de educadores responsáveis por esta nomenclatura, também mutável – buscam estabelecer maiores vínculos. Na tentativa de não se prender às fórmulas do ensino fundamental, a educação infantil redesenha-se, baseada em teóricos da cognição, da psicologia e da sociologia da infância, principalmente, para oferecer às crianças uma experiência educacional mais destinada à autoconsciência e à produção autoral. A criatividade, neste cenário, tem um papel de destaque e aparece nas propostas artísticas, linguísticas, psicomotoras, espaciais e várias outras.
O trabalho com o drama, especialmente considerando sua capacidade de promover interação e criação é cada vez mais valorizado.
Entretanto, não sabemos ao certo de que forma as educadoras da infância se apropriaram dos elementos teatrais.
Partindo do princípio de que pesquisar é encontrar o outro (AMORIM, 2004), o interesse maior desta pesquisa foi escutar as educadoras da infância. Sem a participação destas educadoras, a pesquisa não estaria completa, haveria uma lacuna nos lugares onde deveria aparecer o que dizem as protagonistas do trabalho docente. Escrever sobre a docência exige aproximar-se das professoras e ouvir-lhes.
A experiência de entrevistar professoras não foi apenas para que a pesquisa se esgotasse em suas opiniões e histórias pessoais mas, principalmente, para compreender como estas histórias foram permeadas por outras, como as visões particulares não se formam sem precedentes e sem planos futuros, sem choques com outras visões, sem constrangimentos ou sem compartilhamentos.
Este entendimento de um fazer científico que compreenda o ser humano em seu viés cultural condiz com os estudos de Bakhtin e o Círculo pois, como vemos em Medviédev:
Até nossos dias a ciência interessava-se somente pelos processos individuais, fisiológicos e, sobretudo, psicológicos da criação e da compreensão dos valores ideológicos, negligenciando o fato de que o homem individual e isolado não cria ideologia, que a criação ideológica e sua compreensão somente se realizam no processo da comunicação.
(MEDVIÉDEV, 2012. p. 49)
Nos encontros com as professoras, busquei conhecê-las para saber quais são suas experiências pessoais e de formação acadêmica, experiências estas entendidas como formadoras de um conceito ideológico e metodológico sobre o fazer teatral, uma vez que a imagem que estas educadoras tem da arte e do fazer artístico se reflete na sua ação docente.
A elaboração da entrevista buscou ser clara, com o objetivo de auxiliar as colaboradoras a compreenderem com facilidade os pontos cruciais do diálogo. A entrevista semiestruturada12 baseia-se na premissa de que haverá uma orientação durante o contato, embora esta orientação deverá ceder lugar às necessidades surgidas no momento e no local de cada interação. Isto porque esta interação entre pesquisadora e colaboradoras é um momento vivo e pulsante, permeado por incertezas e indagações pessoais que, no calor da necessidade de uma resposta, impõe-se aos presentes e influenciam o desenrolar da conversa.
Dessa forma, a estrutura da entrevista se preserva não pela sua ordem na sequência de questões, mas pelos conteúdos abordados abrangerem todos os interesses da pesquisa.
A entrevista também foi elaborada objetivando um encontro que não se estendesse demais, pois isso seria cansativo para as colaboradoras, podendo implicar em respostas menos completas a partir do momento em que este cansaço se fizesse notar. O resultado obtido foram conversas de duração média, com todos os pontos sendo bem explorados.
12 “Distingue-se da entrevista estruturada no sentido em que esta, visando igualmente a recolha de informações, não considera de modo absoluto a ordem de aparição das informações no desenvolvimento do processo” (LESSARD-HÉBERT; GOYETTE; BOUTIN, 2012. p. 162)
A atitude de questionar é, em certo ponto, invasiva ao ser humano que é questionado. Foi esse o motivo principal de o local das entrevistas ter sido o próprio local de trabalho das colaboradoras, uma vez que, no seu ambiente de trabalho, as professoras são as anfitriãs, estão mais à vontade, acolhidas por seus pares, por seu entorno estrutural, tanto física como psicologicamente falando, e poderiam, portanto, estar mais seguras e menos intimidadas pelo escrutínio.
A posição de anfitriãs, por outro lado, exige das colaboradoras algum nível de hospitalidade, e isso pode se traduzir em um comportamento de concordância e aceitação das premissas da pesquisa e do próprio ponto de vista da pesquisadora.
A interação entre a pesquisadora e as colaboradoras trouxe à tona uma linha de pensamento que envolveu memórias da infância, memórias de alunas, escolhas profissionais e pessoais. Os depoimentos surgidos foram estruturados sobre esta interação, isto é, foram construídos sobre a base da relação que se estabeleceu, pois aconteceram apenas por causa desta pesquisa, sendo preenchidos pelas valorações e considerações das envolvidas a respeito umas das outras e das palavras que ouviam.
Para produzir as análises, precisei compreender esta relação, compreender que buscar a verdade em uma pesquisa em ciências humanas não significa apresentar uma única hipótese para esta verdade, sabendo que o momento de interação faz surgir respostas e, ao mesmo tempo, outras indagações e novas linhas de pensamento.
Sendo assim, fiz as análises das vozes docentes partindo das seguintes perguntas norteadoras:
- Quais foram os elementos formadores da vivência estética das professoras ao longo de suas vidas, em especial, na infância?
- Quais os aspectos acadêmicos e profissionais que foram ofertados às professoras, a respeito da linguagem dramática, ao longo de seus estudos e de suas carreiras?
- Como é o olhar metodológico que as professoras têm a respeito da validade pedagógica da linguagem dramática na educação infantil?