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3. PROJETO UNIVERSIDADE LIVRE

3.1 A metodologia da pesquisa e o trabalho de campo

Na primeira etapa de minha pesquisa com o CECUNE, ainda na graduação, entrevistei Juarez e Suzana Ribeiro, mapeando suas histórias de vida e as motivações da criação da Ong. No segundo semestre de 2006 estive em Porto Alegre para realizar o “trabalho de campo”, coletar os dados para a pesquisa do mestrado. Solicitei, nesse período, nova entrevista com o casal mantenedor da entidade, para aprofundar-me nas questões específicas do projeto Universidade Livre, mas eles não puderam me receber em função das atividades da “semana da consciência negra” e depois por problemas de

saúde. Enviei-lhes então o questionário da entrevista, que foi respondido por

escrito.

Em reunião com Suzana Ribeiro recebi uma listagem com os nomes e endereços de todos os alunos do Universidade Livre, e para contatá-los me vali desde o serviço da companhia telefônica até a intermediação de terceiros. Cada entrevistado me indicava outro, amigo, parente, colega de turma ou trabalho e assim fui mapeando uma rede de

relações sociais, mas sempre buscando um equilíbrio por gênero e ano de

curso. Obtive ainda, com os coordenadores do CECUNE, a programação de cada módulo das edições de 99, 2001 e 2003, e ainda dados de gênero e escolaridade dos alunos de 99 e 2003.

Foram quinze as entrevistas selecionadas para a análise neste trabalho, todas realizadas de setembro a novembro de 2006, com ex- alunos(as) do projeto Universidade Livre. Foram cinco entrevistas com alunos que o cursaram em 1996, três alunos de 1999, três alunos da edição 2001 e quatro de 2003. As entrevistas foram de caráter semi-estruturado, pelo qual um roteiro (ANEXO 2) foi formulado para me guiar, mas cada entrevista fluía de acordo com o entrevistado e suas respostas.

O roteiro da entrevista foi pensado para estruturar a pesquisa em

três partes, partindo da hipótese do estigma (GOFFMAN, 1963) presente na

vida de cada indivíduo negro(a) e da re-elaboração da identidade de uma forma positiva a partir da vivência no “movimento negro”. A primeira parte da entrevista era então dedicada a percorrer a trajetória da vida de cada pesquisado, sem a intenção de realizar uma história de vida exaustiva.

Coletava seus dados pessoais, sua trajetória habitacional e educacional; inquiria sobre a educação religiosa recebida pelos pais, como foi tratada na

família a questão de ser negro, as experiências com a discriminação racial e

a inserção no “movimento negro”. A segunda parte da entrevista era destinada a investigar a experiência no curso Universidade Livre: como conheceu o CECUNE, as motivações para participar, as lembranças sobre os temas, os professores e a metodologia, o trabalho da psicóloga, as amizades iniciadas no curso, uma avaliação do projeto e os resultados obtidos a partir desta vivência. A terceira abordagem, por fim, visava inquirir as representações de cada entrevistado sobre identidade e cultura negras, e as percepções sobre sua identidade negra antes e depois do curso.

As entrevistas tiveram em média a duração de uma hora e meia, gravadas em formato digital e posteriormente transcritas integralmente. Apresento a seguir alguns dados referentes aos alunos entrevistados:

Alunos entrevistados

Turma 96 Turma 99

Sílvia Maria Prado da Silva Lúcia Regina Brito Pereira

Jorge Fróes Rudnei Alves Pinto

Maria Aparecida da Silva (Cida) Fábio Garcia Varny Ferreira Fagundes

Anselmo Accurso (Ratinho)

Turma 2001 Turma 2003

Vera Regina Rodrigues da Silva Anderson Moreira do Amaral Eliane Maria Severo Gonçalves Lessandro Braga (Koyade)

Maria Luísa Pereira de Oliveira Jader Luís Nogueira da Fontoura Cristiane Vaz

Alunos entrevistados – Idade e Profissão

Nome Idade Profissão

1 Sílvia 39 Psicóloga

2 Jorge 43 Professor de literatura

3 Cida 49 Cozinheira

4 Varny 57 Contador

5 Ratinho 49 Professor de capoeira

6 Lúcia 48 Historiadora

7 Rudnei 33 Sociólogo

8 Fábio 28 Historiador

9 Vera 39 Antropóloga

10 Eliane 48 Bibliotecária

11 Maria Luísa 41 Psicóloga

12 Anderson 27 Administrador

13 Koyade 31 Rapper

14 Jader 35 Funcionário público

15 Cristiane 29 Pedagoga

Sobre a escolaridade dos alunos, com a exceção de Cida, que tem o primeiro grau, e Jader e Koyade, que não concluíram o ensino superior, todos os entrevistados são graduados, e seis deles têm pós-graduação. Os dados referentes aos entrevistados reafirmam o entendimento de que, do “movimento negro”, participam, em maioria, indivíduos pertencentes às classes médias.

Em relação à religião praticada pelos entrevistados, temos variadas perspectivas. Alguns foram educados no catolicismo pelos pais, e quando adultos abandonaram a religião, como Sílvia e Vera. Outros também

são freqüentadores de terreiros e/ou adeptos da umbanda e batuque, como

Sílvia, Ratinho, Fábio, Lúcia e Koyade. Anderson declarou não seguir

nenhuma religião, enquanto Varny é budista e Rudnei freqüenta a Igreja Universal do Reino de Deus.

É importante salientar que o perfil destes selecionados não se pretende fidedigno à totalidade dos alunos que participaram do Universidade Livre, já que não existem dados sobre esta totalidade. Como afirmei anteriormente, meus entrevistados foram as pessoas que consegui contatar, especialmente através de uma rede de afinidade e relações sociais, da qual

não me excluo. O que é relevante nesta pesquisa de caráter qualitativo é a análise das trajetórias de vida e do conteúdo das entrevistas. Cito Gilberto Velho para me expor como pesquisadora-autora deste estudo: “os cortes que

faço, os indivíduos que privilegio, tudo isso delineia o âmbito de

arbitrariedade em que se move o pesquisador-autor” (VELHO, 1986, p. 20). Gilberto Velho apresenta um argumento do qual compartilho, para a velha discussão sobre a suposta neutralidade científica:

“Eu, o pesquisador, ao realizar entrevistas e recolher histórias de vida, estou aumentando diretamente o meu conhecimento sobre a minha sociedade e o meio social em que estou mais diretamente inserido, ou seja, claramente envolvido em um processo de auto-conhecimento. É importante salientar que este não é o objetivo principal de meu trabalho como antropólogo. No entanto, quando elegi a minha própria sociedade como objeto de pesquisa, assumi, desde o início, que fatalmente a minha subjetividade deveria ser, permanentemente, não só levada em consideração, mas incorporada ao processo de conhecimento desencadeado. Ou seja, deveria tentar não escamotear sua ‘interferência’ mas aprender a lidar com ela. Assim permaneci comprometido com a obtenção de um conhecimento mais objetivo, sem que isso significasse uma estéril tentativa de anulação ou neutralização de meus sentimentos, emoções, crenças. (...) O que importa é, sem ferir os padrões minimamente consensuais da atividade de pesquisa na nossa área de conhecimento, abrir espaço para investigações e trabalhos apoiados em mais liberdade, livres de certas camisas-de-força que cerceiam a criatividade” (ibid, pp. 17-8).

Ao mesmo tempo, tento, a seguir, privilegiar a fala de cada um dos entrevistados, na certeza que seus pensamentos e discursos constituem a parte mais marcante deste trabalho. Alio-me à perspectiva de James Clifford, para quem é importante que o “objeto” de pesquisa seja também sujeito da etnografia, por meio de um modo dialógico de escrita, no qual a etnografia se transforma em um “diálogo em que os interlocutores negociam ativamente uma visão compartilhada da realidade” (CLIFFORD, 1998, p. 45). Direciono- me também ao modo polifônico da escrita etnográfica, analisado dessa forma pelo autor:

“Se for concedido um espaço textual autônomo às afirmações nativas, se forem extensamente transcritas, elas farão sentido em termos distintos daqueles empregados pelo etnógrafo que as ordena. Isso sugere uma estratégia textual alternativa, a utopia de uma autoria plural” (James Clifford,