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3.2 A trajetória da pesquisa

3.2.1 A metodologia de Piaget, Kohlberg e Blatt

Piaget, no delinear de seus estudos, estruturou um processo de investigação, baseado no discurso oral, o qual ocorreria pela intervenção do pesquisador, diante de cada resposta recebida dos participantes da pesquisa. Tal criação adquiriu uma sistemática própria constituindo-se assim, um método. Este

10 Os alunos (sujeitos) foram comunicados sobre a pesquisa em questão durante a aula de Língua

Portuguesa, em março do corrente ano. Nesta aula, foi explicado o que é uma pesquisa acadêmica, através de comparações / articulações com os trabalhos e/ou pesquisas que os alunos realizam na Escola, com o propósito de facilitar o entendimento dos sujeitos. Foi esclarecido que a participação seria de livre escolha e que essa, não implicaria em nenhum tipo de dano, risco ou acordo financeiro e assim, quem não aderisse à pesquisa, realizaria as atividades da mesma forma, somente não teriam os dados analisados. Neste ponto, foi explicado sobre a preservação da identidade do aluno e que nenhum dado seria motivo de avaliação e/ou nota. Os alunos / sujeitos tiveram contato com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para ler e assim, foram orientados a comunicar aos pais sobre o trabalho de pesquisa, bem como, sobre a reunião que contou com o referido assunto em pauta entre outras informações.

11 Para preservar a identidade dos participantes, optamos em denominar sujeito (S), número em lista

(1, 2, 3...), sexo (F ou M) e idade (14 ou 15). Assim, temos S1F14 a S17F14, ou seja, dezessete sujeitos do sexo feminino. E S1M15 a S13M14, sendo assim, treze sujeitos do sexo masculino.

método foi denominado como “método clínico”, ou seja, trata-se de processo interventivo, com rigor (DELVAL, 2002).

Sendo assim,

Piaget abandonó los tests estandarizados, y creó en su lugar un formato que permitiera el experimentador una visión más amplia de cómo llegan los ninõs a sus soluciones a problemas dados de razonamiento. Piaget seleccionó el método clínico elaborado por Freud y por otros psicólogos clínicos. Mientras que los clínicos usan este método para permitir a sus clientes la máxima libertad en seguir el curso espontáneo de su pensamiento, Piaget adaptó el método clínico para proponer problemas específicos a los ninõs y permitirles la libertad de resolverlos como mejor pudieran.( HERSH; REIMER; PAOLITTO, 2002, p. 27)

O método clínico piagetiano questiona, de acordo com a intervenção do pesquisador, as explicações dadas pelos sujeitos (crianças), diante de suas próprias respostas. Por meio de tal processo é possível, assim, pesquisar “[...] como as crianças pensam, percebem, agem e sentem [...]”, descobrindo “[...] o que não é evidente no que os sujeitos fazem ou dizem, o que está por trás da aparência de sua conduta, seja em ações ou palavras.” (DELVAL, 2002, p.67).

A metodologia de Piaget traz uma rica inovação, por promover a participação do pesquisador de maneira recorrente e criativa, não se pautando sobre perguntas pré-elaboradas. Ou seja, diante das respostas dos sujeitos são formuladas outras questões, as quais promoverão as próximas e assim por diante, como uma espécie de reação. Trata-se de um método complexo, tendo em vista que o pesquisador deve ter em mente suas hipóteses, bem como, destreza ao expor habilidades na formulação de questões e estas, devem trazer uma situação- problema a ser resolvida. Com esse enfoque, o método considera a lógica como os sujeitos concebem o mundo que o cerca, isto é, como ele vê seu contexto e sua sequência de entendimento dos fatos cotidianos.

A denominação “clínico” implica na análise do sujeito como um todo e ao mesmo tempo único, principal. Não se pode confundir o método clínico com uma entrevista oral, tendo em vista que o método não se fundamenta em uma conversa e sim, em um tipo de ação diferenciada do investigador, inserido em um processo de interação maciça com os sujeitos (DELVAL, 2002).

Perante a metodologia construída por Piaget, o teórico Kohlberg, em 1987, após estudos e aplicações, apresentou um instrumento de avaliação moral:

semiestruturada, avaliando o juízo moral. Com tal abordagem, por meio de respostas a dilemas (narrativas hipotéticas, as quais envolvem princípios éticos), delineava classificações, de acordo com estágios de desenvolvimento moral. O dilema mais conhecido é o de Heinz, no qual um homem, diante da esposa doente,

precisa de um remédio que custa muito caro, pois o farmacêutico que o manipulou está superfaturando o produto e assim, Heinz decide assaltar a farmácia. Após a exposição do dilema, segue-se uma série de questionamentos, buscando causar reflexão e conflito cognitivo-moral (BIAGGIO, 2002). De acordo com esta autora,

Os debates com os dilemas criam supostamente um conflito cognitivo, que leva ao amadurecimento do raciocínio moral. [...] as pessoas experimentam desconforto quando defrontadas com opiniões mais amadurecidas do que a sua própria. Esse conflito gera amadurecimento e modificação das opiniões em direção a estágios mais avançados de desenvolvimento cognitivo ou moral. (BIAGGIO et al., 1999, p.224)

Um manual criterioso foi elaborado por Kohlberg, contendo respostas típicas, clarificando os diferentes estágios. Estes denotam a forma de raciocínio do sujeito, ao apresentar a resposta que julgar mais adequada, frente aos questionamentos do dilema. Dessa maneira, a argumentação, apresentada pelo depoente, implica na análise do princípio ético prevalecente (KOHLBERG, 1989).

O método de Kohlberg promoveu a origem de outros instrumentos importantes, como o Defining Issues Test (DIT) – reelaborado por Rest e

colaboradores, em 1979 –, composto por dilemas morais e afirmações prontas, as quais são ordenadas, pelo sujeito, de acordo com o grau de relevância ou adequação. Difere-se do MJI por não trazer respostas abertas, livres (KOHLBERG, 1989). O Moral Judgment Test (MJT) – elaborado por Lind, em 1977 –, com

aplicação de dilemas, como o DIT, apresentando diferencial de avaliação sobre argumentos prós e contras dentro do dilema e também, diferentemente daquele, avalia a competência moral (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010).

Os instrumentos, propostos por Kohlberg, edificaram a possibilidade de tratamento científico da educação moral (LIND, 2000). E partindo dos estudos do referido teórico, alguns pesquisadores adaptaram tais instrumentos para a realidade brasileira, contribuindo de forma significativa para a continuidade de investigações, no campo da moralidade (BATAGLIA, 2010).

Kohlberg, por meio de seu método que abarca situações comuns e complexas de reflexão, adquiriu relevância inovadora porque solidificou "[...] um método que promove a educação moral sem usar de doutrinação nem de relativismo" (BIAGGIO, 2002, p.51).

Seguindo os passos de Kohlberg, Blatt – em sua tese de doutorado, em 1975 – delineou a discussão de dilemas morais em grupo, com o objetivo de promover o desenvolvimento moral, diante da exposição diversificada de opiniões (BIAGGIO, 2002).

Blatt, orientando de Kohlberg, elaborou, assim, um método de discussão de dilemas morais, objetivando avanços dos estágios de desenvolvimento, por meio de embates de opiniões diversificadas, bem como, exprimindo estágios e níveis diferentes também. Estruturou estudos com pré-adolescentes, os quais analisavam as respostas e posicionamentos de dilemas, dos diferentes patamares. Sua metodologia instigava o confronto de opiniões e por sua vez, um caloroso embate argumentativo, pois o sujeito tinha que buscar recursos persuasivos para construir seus posicionamentos, tendo em vista que se trata de um conflito cognitivo-moral. Este método é digno de significância porque busca fomentar, na escola, um ambiente propício às referidas discussões e não somente pontuar estágios e níveis de desenvolvimento moral, ou seja, Blatt considerou de suma importância a intervenção (KOHLBERG; POWER; HIGGINS, 1997).

Com supervisão de Kohlberg, Blatt dirigiu um projeto em uma escola judia, discutindo dilemas morais com os alunos. Ao findar essas primeiras ações, notou que os sujeitos avançaram, em relação aos estágios de desenvolvimento moral e dessa maneira, realizou outras investigações. Concluiu que seus estudos foram ponto de partida para outros trabalhos em instituições educacionais, alcançando resultados benéficos (HERSH; REIMER; PAOLITTO, 2002).

Partindo da assertiva de que a escola deve ser um espaço privilegiado de formação (DELVAL, 2002), optamos em elaborar estratégias de intervenção, consistindo em uma tentativa de propiciar momentos de reflexão, bem como, investigando os valores implícitos no sujeito, ao participar de tais práticas. Estas podem colaborar no enfrentamento de situações cotidianas, tendo em vista que “[...] as práticas morais são maneiras estabelecidas de tratar culturalmente as situações sociais ou pessoais que acarretam dificuldades morais recorrentes.” (PUIG, 2004, p.63).