6. O PROCESSO CONSTITUINTE COMO SUJEITO DE DISCURSO
6.6 A Metodologia dos Trabalhos Constituintes
Após a eleição do presidente da ANC, a primeira providência dos deputados e senadores constituintes foi a elaboração de um regimento interno disciplinando o funcionamento e a metodologia a ser seguida durante aos trabalhos dos delegados constituintes: o Regimento Interno da ANC.
Por questão metodológica, o Regimento da Constituinte dividiu os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte em 8 comissões, cada uma subdividida em 3 subcomissões temáticas, totalizando 24 subcomissões. As subcomissões eram responsáveis por discutir e apresentarem às suas respectivas comissões anteprojetos de constituição sobre os temas de sua pertinência, os quais seriam, por sua vez, enviados à Comissão de Sistematização. Esta última, por meio de seu relator, sistematizaria todas as ideias em um único anteprojeto denominado “anteprojeto do relator”, com fundamento nas propostas das comissões temáticas, que seria submetido ao Plenário da Comissão de Sistematização, sendo nessa fase permitida a possibilidade de apresentação de emendas de parlamentares e emendas populares.
Cada comissão temática teria 63 membros titulares e outros 63 suplentes, enquanto que o número dos integrantes das subcomissões variava em torno de 21 titulares e 21 suplentes – algumas tinham um pouco mais, outras um pouco menos que isso. As comissões e subcomissões eram dirigidas por uma mesa composta por presidente, 1º e 2º vice-presidentes e relator. Já a Comissão de Sistematização inicialmente era composta por 49 titulares, mais os 8 presidentes das comissões e os 32 relatores das subcomissões e comissões, além de 49 suplentes.
Ao todo, foram selecionadas para análise três comissões e suas respectivas subcomissões cujos temas guardam relação com o problema da presente pesquisa, identificadas como Comissão I, Ib, Ic; Comissão VII, VIIc, Comissão VIII, VIIIa, conforme abaixo discriminadas:
Comissão da Soberania e dos Direitos e Garantias do Homem e da Mulher – CSDGHM (I), com sua Subcomissão dos Direitos e Garantias Individuais (b) e Subcomissão dos Direitos Políticos, dos Direitos Coletivos e Garantias (c);
Comissão da Ordem Social - COS (VII), com sua Subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias (c);
Comissão da Família, da Educação, Cultura e Esportes, da Ciência e Tecnologia e da Comunicação – CE (VIII), com sua subcomissão de Educação, Cultura e Esportes (a).
A seleção dos temas para compor a agenda dos debates no seio de cada comissão e de suas subdivisões, notadamente nas Comissões CSDGHM e sua subcomissão I.b; na COS e sua Subcomissão VIII.c; na CE e sua Subcomissão VIII.a, sinalizava que a ANC efetivamente iria discutir os temas sociais de interesse da grande maioria do povo brasileiro, e não apenas os interesses da elite. Dentre os temas presentes nas pautas das subcomissões inseria-se o debate sobre a inclusão social, com ênfase para a inclusão educativa.
Os debates versando sobre direitos e garantias individuais e coletivos, direitos sociais e educação constituem o corpo material, objeto desta pesquisa. O contexto aponta que a pauta dos debates das mudanças desejadas e esperadas pelo conjunto da sociedade brasileira contemplava as grandes aspirações por justiça social e inclusão das parcelas da sociedade excluídas, que palmilhavam à margem dos serviços sociais prestados pelo Estado, especialmente das políticas sociais. Tais parcelas viviam um profundo processo de exclusão, abrangendo nesse contexto o caso dos deficientes, quanto à sua inclusão no sistema educacional, como observa Jannuzzi (2006) em sua obra intitulada A educação do deficiente no Brasil - dos primórdios ao início do século XXI.
O discurso enredado do texto do Regimento Interno anunciava que era preciso discutir com a sociedade os caminhos a serem construídos para que se estabelecessem novos paradigmas de valores da pessoa humana, colocando-a como centro de preocupação do poder constituinte que, como dito em linhas anteriores, tinha a prerrogativa, a imperatividade e a exclusividade para corrigir os descaminhos trilhados ao longo de décadas com olhares
estrábicos para com as pessoas excluídas, notadamente com os física e mentalmente diferentes.
O regimento interno da ANC assegurou, com louvor, a possibilidade da participação direta da sociedade civil, por meio de suas entidades representativas, na discussão e apresentação de proposta para a elaboração do projeto de uma constituição que incluísse todas as pessoas no conceito de cidadania, sem preconceito de qualquer natureza. Nesse ponto, o discurso da maioria dos constituintes se alinha ao discurso do Presidente da República, materializado na mensagem nº 48 (Anexo I), que convocou a Assembleia Nacional Constituinte, reafirmando, segundo o mandatário da nação, que a mensagem convocatória tratava-se de um compromisso histórico firmado no curso do movimento cívico, congregando brasileiros de todas as condições a fim de democratizar a sociedade e o Estado.
A expressão movimento cívico, no contexto nos dá o sentido de tratar-se de uma ação coletiva e organizada promovida por cidadãos, membros de uma nação independente e soberana, tendente a produzir mudanças de caráter social, política, institucional e cultural. O discurso presidencial reconheceu que o movimento cívico era em busca de mudanças, mas uma mudança a ser garantida por meio de uma lei fundamental a ser elaborada pelo conjunto da sociedade e que representasse a possibilidade e as condições de uma vida com dignidade, a ser vivida em paz e com liberdade (SARNEY, 1985).
A ANC, apropriando-se do discurso presidencial, testificado na mensagem endereçada ao Congresso Nacional convocando a Constituinte, fez constatar, em seu Regimento Interno (RI), a possibilidade da participação popular por meio de suas entidades representativas, corroborando com a ideia presidencial, ao proclamar: “de procurarem, juntos, uma lei fundamental que a todos proporcione os bens necessários à vida digna, vivida em paz e liberdade” (SARNEY, 1985, p. 1). Desse modo, abriu-se a possibilidade de, pela primeira vez na história das constituintes brasileiras, a sociedade civil se manifestar por meio de suas organizações civis, fato até então desconhecido no Brasil.
A função legislativa é, como regra, desempenhada por legislados, sendo, portanto, uma função pública. Nesse ponto, o regimento interno inovou ao permitir a participação popular nos debates dentro da casa legislativa, podendo tal participação, com seu poder de persuasão, influir diretamente nos resultados das votações nas diversas comissões e no plenário da Assembleia Constituinte, rompendo com um modelo de discurso tradicional e conservador, e estabelecendo um novo marco no reconhecimento dos direitos sociais,
inserindo a pessoa humana como figura central na nova ordem constitucional e tutelando como bem jurídico a dignidade humana.
Os trabalhos da ANC, instalada em 01 março de 1987, foram então organizados em torno de três grandes etapas: as Comissões Temáticas, a Comissão de Sistematização e do Plenário. A discussão da temática sobre a pessoa deficiente ficou a cargo da Subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias VII.c, presidida e relatada, respectivamente, pelos constituintes Ivo Lech e Alcenir Guerra.
A aglutinação desses segmentos sociais assim foi construída pelo fato de apresentarem demandas comuns, como a exclusão de todos os benefícios ofertados pelo estado brasileiro a certas elites ou classes sociais, de melhores condições econômicas ou sociais e culturais. Os negros, as populações indígenas, as pessoas com deficiências e outros setores da sociedade, denominados de minorias, como os homossexuais e outras, eram excluídas da escola, do mercado de trabalho, dos programas de habitação, da cultura, do lazer, do saneamento básico.
Enfim, como disse o presidente em sua mensagem, estavam essas minorias à espera de uma vida digna, de “uma lei fundamental que a todos proporcione os bens necessários à vida digna, vivida em paz e liberdade”. Vê-se, portanto, que o tema inclusão foi debatido no processo da constituinte de forma bem mais amplo que um simples debate sobre inclusão/exclusão educativa, considerando-se o fato de que havia outras necessidades a serem contempladas para se resgatar a dignidade humana, como a moradia, o trabalho e rendas, a saúde, etc.
As discussões e os debates do sistema de educação, na constituinte de 1987/88, iniciaram-se pela Subcomissão da Educação, Cultura e Esportes (VIII.a), presidida e relatada, respectivamente, pelo deputado Hermes Zaneti e pelo Senador João Calmon. Nessa temática foi grande a participação dos constituintes, da sociedade civil organizada, entidades representativas dos profissionais em educação, governos estaduais e municipais, conforme noticiam as atas das seções realizadas pela Comissão de Educação e sua respectiva subcomissão (VIII. a).
A segunda etapa de trabalhos da ANC se deu a partir da Comissão de Sistematização (identificada a seguir como CS), que reunia os presidentes e relatores das oito comissões temáticas e mais um grupo de constituintes especialmente indicados pelos respectivos partidos (que não integraram nenhuma comissão setorial). Tal comissão foi presidida e relatada pelos constituintes Afonso Arinos e Bernardo Cabral, respectivamente, assumindo Cabral também, nessa condição, a função de relator-geral da ANC. A fase seguinte, de discussão e votação no
plenário da ANC, sobreveio após aprovado o projeto de constituição pela CS. Essa última fase de elaboração da Constituição, ocorrida no período de 24 de novembro de 1987 até o dia 05 de outubro de 1988, culminou com a aprovação, em plenário da ANC, do texto da nova ordem constitucional, com a sua promulgação.