• Nenhum resultado encontrado

Se até aqui tensionamos a ausência da voz de sujeitos reais sobre aquilo que se é produzido e reproduzido sobre seus costumes, suas tradições e seus valores, é porque entendemos que ao longo dos séculos as ferramentas de linguagens foram apropriadas e anexadas ao sentido de colonização do Outro.

Sendo assim, a única forma de quebrarmos essa “casca” que se formou em torno dos saberes, singularizando aquilo que é plural, é usando essa ferramenta de linguagem para outros fins: o de decolonizar. Isto é, o que estamos propondo aqui é usar a principal arma do colono, a palavra, contra ele mesmo.

55 Eu às tratava com tanto respeito que quando a comitiva cruzava pelo mesmo caminho tinha disputa entre as meninas para quem ia fazer companhia pra mim. E os peões nem desconfiavam. Pra eles eu era “sapatão”, por isso passavam longe, nem se arriscavam mexer comigo (GELLER apud RIBEIRO, 2019, p. 223).

Resgatando o trabalho de Lucrécia Mello (2004, p. 24), entende-se aqui que “os discursos reais produzidos pelos indivíduos ou grupos revelam e ocultam o que estão pensando ou dizendo”. A autora complementa apontando que mesmo diante do não conhecimento destes indivíduos/grupos sobre o significado das palavras, a fala expressa pensamentos que “devem ser decifrados e restituídos, tanto quanto possível, na sua vivacidade representativa” (MELLO, 2004, p. 24).

É através da fala dessas mulheres que encontramos meios para desatarmos os nós que funcionam como barreira, por exemplo, no entendimento sobre as categorias de gênero que segregam o Pantanal entre “oficial” e não “oficial”. Por isso, utilizamos aqui recursos metodológicos baseados no olhar qualitativo, que conforme a autora, consiste em olhar para toda essa linguagem valorizando a “riqueza de informação” que a compõe:

Em pesquisa qualitativa não se recolhem dados ou provas com o objetivo de confirmar ou refutar hipóteses construídas previamente; ao invés disso, as abstrações são construídas à que os dados particulares que foram recolhidos se vão agrupando (...) não se trata de montar um quebra-cabeça cuja forma final conhecemos de antemão. O quadro vai se constituindo à medida que se recolhem e examinam as partes (MELLO, 2004, p. 26).

Deste modo, é de interesse nosso, como pesquisadores que atuam dentro do método qualitativo, que as “pessoas pensem por elas mesmas” (MELLO, 2004, p. 26). É claro que, como já foi mencionado no início deste estudo, toda essa abordagem qualitativa requer do pesquisador o olhar interdisciplinar56, proporcionado sobretudo pelos Estudos Culturais dos quais nos apropriamos de tantos materiais bibliográficos.

O fato é que a partir deste ponto, pretendemos unir todo esse material, essas concepções acerca dos estudos culturais e da episteme pantaneira, as quatro vozes das mulheres pantaneiras da região de Miranda (MS) que aceitaram colaborar na realização deste estudo. Isto é, os escritos a seguir contemplam quatro vozes que, assim como da peoa Geller e das trabalhadoras do Cerrapan ou das pousadas do turismo pantaneiro, exibem um outro lado do “ser pantaneiro” que a televisão não mostra.

Quatro mulheres que, através das suas vozes, expressam não só uma outra realidade obliterada pelos discursos dominantes ao longo das últimas décadas, mas também a existência de sujeitos reais que sentem necessidades, que possuem vontades, desejos. Essas vozes estão

56 Em linhas gerais, por meio da vivência interdisciplinar aprende-se a “gerar” significados essenciais para compreender o mundo que nos rodeia e participar dele. A relação com o simbólico, por nós amplamente exercitada, é uma relação com a interpretação. Nela edificamos a base da própria constituição do sentido, uma vez que, diante do recurso simbólico, os participantes são levados a interpretar, dar um sentido determinado pela história, pela natureza do fato simbólico, pela linguagem (MELLO, 2004, p. 43).

recheadas de memórias da infância, experiências de trabalho e das percepções sobre si e o Outro.

Para cada uma delas, foi apresentado inicialmente o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), no qual constava todo o objetivo da pesquisa. Alcançá-las não foi um trabalho difícil, considerando que a própria autoria deste estudo vem de berço pantaneiro e por isso, o acesso à região não foi um obstáculo, consideramos também as ajudas, as indicações e as pontes que outros colaboradores deste estudo se propuseram em construir.

Após concordarem em participar, contemplando este estudo com suas experiências riquíssimas, partimos para as entrevistas semiestruturadas (ANEXO I), com perguntas elaboradas a partir dos nossos estudos. No entanto, é valido ressaltar, que mesmo diante dessas perguntar previamente elaboradas, todo o diálogo foi aberto, de modo que nossas colaboradoras se sentissem livres para falar daquilo que gostariam de falar e não somente o que gostaríamos de ouvir.

Outro detalhe é que, infelizmente, até encontrarmos cada uma delas, muitos problemas aconteceram. A começar pelo fato de inicialmente termos em mente estabelecermos o diálogo com cinco perfis de mulheres pantaneiras, no entanto, o ano de 2020 foi marcado pela explosão de casos de COVID-19 e seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), permanecemos em nossas casas até que os primeiros testes em massa começaram a ser feitos (já na metade de 2020).

Toda essa contaminação que persiste até os dias atuais, dada as negligências do governo atual na compra das vacinas, prejudicou inclusive o nosso método inicial de pesquisa: o cotejo bibliográfico. Tendo em mente que para fazê-lo é necessário o acesso a esses livros e que as bibliotecas, como recurso democrático de pesquisa, estavam fechadas, boa parte dos materiais consultados aqui foram retirados dos bancos digitais conforme a disponibilidade.

Além da corona vírus como um risco global, outro fator nos impediu de descer para o Pantanal (sul): as queimadas. Se por um lado nós, uma ameaça global ameaça a vida dos povos pantaneiro, por outro, as queimadas destruíram boa parte do ambiente onde estes sujeitos vivem. Então, por questões de saúde tanto das colaboradoras quanto dos pesquisadores, essas entrevistas só foram aplicadas no final do ano de 2020, após uma série de testes de COVID-19 que garantiram a segurança dos envolvidos.

Outro detalhe que não podemos deixar de mencionar é que, conforme as barreiras burocráticas que limitam à ciência ao discurso da “meritocracia”, este estudo não contou com quaisquer financiamentos científicos. Toda a nossa iniciativa aqui teve como base, sobretudo,

a força de vontade dos pesquisadores que se propuseram em fazê-lo, mesmo diante das barreiras e, sobretudo, dos colaboradores que ao conhecerem a proposta se disponibilizaram em ajudar. Dentre esses colaboradores, as mulheres entrevistadas, os professores parceiros e o próprio Programa de Pós-graduação de Estudos Culturais, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.