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CAPÍTULO 3 A TEORIA DE VIGOTSKI PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO

3.3 A METODOLOGIA EXPERIMENTAL DA TEORIA DE VIGOTSKI

Ao contrário dos métodos experimentais utilizados em psicologia, que se baseavam na estrutura estímulo-resposta e que tinham por finalidade testar relações de causa e efeito, Vigotski e seus colaboradores (1998) desenvolveram o método genético-experimental25, para

investigar e analisar os processos que culminam no desenvolvimento humano (MOREIRA, 2011).

O método em questão repousa sobre a abordagem materialista dialética para a compreesão da história humana, pois, para Vigotski, o desenvolvimento cognitivo do homem é inerente ao desenvolvimento histórico de sua espécie. Ao confrontar as abordagens naturalista e dialética de Engels26, Vigotski e seus colaboradores concluiram que o ponto-chave para

relacionar o desenvolvimento histórico humano com seu desenvolvimento psicológico está na nossa capacidade de reagir sobre a natureza, transformando-a a partir da criação e do uso de instrumentos. A partir desta concepção, Vigotski buscou identificar quais eram as consequências psicológicas da interação homem-naureza, culminando no constructo do signo como ferramenta psicológica que o indivíduo utiliza para agir sobre o próprio comportamento e criar novas funções psicológicas superiores (COLE; SCRIBNER, 1998).

Assim, em contraste com os métodos da psicologia experimental predominate da época, Vigotski e colaboradores apresentam uma nova proposta:

Nossa abordagem do estudo das funções cognitivas não requer que o experimentador forneça aos sujeitos os meios já prontos, externos ou artificiais, para que eles possam completar com sucesso uma tarefa dada. O experimento é igualamente válido se, ao invés de o experimentador fornecer às crianças meios artificiais, esperar até que elas, espontaneamente, apliquem algum método auxiliar ou símbolo novo que elas passam, então, a incorporar em suas operações. (VYGOTSKY, 1998, p. 97).

Segundo Vigotski (1998), os princípios norteadores dessa abordagem experimental seriam:

1) Enfatizar os processos e não os resultados. Vigotski se interessava pelo que as crianças faziam, e não pelas eventuais soluções que elas poderiam chegar

25 O termo genético não tem relação com os termos genes ou código genético da biologia; mas, sim, com gênese,

para se referir às origens do desenvolvimento cognitivo (REGO, 2009).

26 Na abordagem naturalista de Engels, somente a natureza interfere nos seres humanos, de modo que somente as

condições naturais são responsáveis pelo desenvolvimento histórico do homem. A abordagem dialética, ao admitir a interferência da natureza sobre o homem, afirma que este, consequentemente, age sobre a natureza, criando novas condições para a sua existência (COLE; SCRIBNER, 1998).

(MOREIRA, 2011). Para ele, qualquer processo psicológico que sofre mudanças pode ser notado a olhos vistos. Com efeito, a criação artificial de um processo de desenvolvimento psicológico poderia ser mensurada.

2) Analisar tais alterações à luz da análise genotípica em detrimento da

fenotípica. Esta caracteriza-se como a análise da aparência externa dos

fenômenos, ou seja, uma análise descritiva; enquanto aquela é caracterizada pela análise da sua origem, sendo, portanto, explicativa. Segundo Vigotski, somente por meio da análise genotípica é possível revelar a gênese e as bases dinâmico-causais do desenvolvimento cognitivo. Esta é a razão pela qual a maioria dos estudos empíricos envolvia crianças (PEREIRA; LIMA JUNIOR, 2014).

3) A partir da análise genotípica é possível reconstruir, no sentido histórico, o desenvolvimento de uma estrutura cognitiva (responsável pela mediação), mesmo que o comportamento esteja “fossilizado”, mecanizado, o que, a princípio, nada revela sobre o seu aspecto interno (psicológico).

Uma técnica experimental adotada por Vigotski, a fim de estudar o curso histórico do desenvolvimento das funções mentais superiores, foi introduzir obstáculos com a finalidade de perturbar os métodos rotineiros que as crianças empregavam ao solucionar problemas (COLE; SCRIBNER, 1998).

Por exemplo, em seu estudo para determinar a causa da fala egocênctrica, bem como as circunstâncias que a provocam, temos que:

(...) quando uma criança estava se preparando para desenhar, descobria subitamente que não havia papel, ou lápis da cor que ela necessitava. Em outras palavras, ao impedi-la de agir livremente, nós a forçávamos a enfrentar problemas. (VIGOTSKY, 2005, p. 19).

Em outra parte do mesmo estudo, visando constatar uma das observações de Piaget (de que a fala egocêntrica é produto de seu pensamento egocêntrico e de sua insuficiente socialização), Vigotski requeriu que a criança se engajasse em uma nova atividade de cooperação com outras crianças que não partilhavam a mesma linguagem (surdas-mudas e estrangeiras) (VIGOTSKY, 2005).

Outra técnica utilizada consistiu em fornecer meios alternativos para a solução do problema. No estudo sobre o papel dos signos na memória e atenção voluntária, Leontiev (COLE; SCRIBNER, 1998) propôs um jogo com 3 ou 4 conjuntos de 18 questões cada. As questões deveriam ser respondidas, prontamente, com apenas uma palavra. A partir da segunda

etapa, novas restrições eram impostas à criança, tornando o jogo mais difícil. Na terceira etapa as restrições se mantinham, mas era permitido à criança utilizar um novo elemento auxiliar para ajudá-la a resolver o problema e ganhar o jogo.

Uma das implicações do método genético-experimental é fato de que as descrições detalhadas dos experimentos psicológicos, obedecendo o rigor científico, podem adquirir o status de fato confirmado. Com efeito, proposições gerais podem ser extrapoladas a partir da análise qualitativa. Baseado na confiabilidade no método, Vigotski identificou duas linhas qualitativamente distintas quanto a origem do desenvolvimento humano: a biológica, responsável pelas funções elementares; e a sócio-histórica, para as funções mentais superiores. A partir da última foi enunciada a “lei genética geral do desenvolvimento cultural”. Ademais, tal abordagem representou uma ruptura de paradigma quanto às formas tradicionais de conduzir experimentos psicológicos, de modo que as observações e intervenções passaram a ser realizadas em diversos ambientes, como na escola (COLE; SCRIBNER, 1998; PEREIRA; LIMA JUNIOR, 2014).

3.4 IMPLICAÇÕES

EDUCACIONAIS

DA

TEORIA

HISTÓRICO-