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3. Defesa da concorrência e inovação: O caso U.S. v. Microsoft

3.2. U.S. v.s Microsoft

3.2.1. A Microsoft e o mercado de navegadores ( browsers )

Fundada em 1975 por Bill Gates e Paul Allen, a Microsoft é uma empresa desenvolvedora de software variados, responsável pela criação do Windows, sistema operacional que ainda hoje é o mais utilizado pelos usuários de microcomputadores, e por uma série de outros programas capazes de funcionar neste sistema56. Para Weinstein (2002), o Windows seria “o sol do sistema do solar da economia da informação”, sendo a maioria dos produtos desenvolvidos pela empresa, complementares a este sistema.

O início da década de 1990 foi um período de grande expansão para a Microsoft. Em 1990 e 1992 foram lançados, respectivamente, o Windows 3.0 e 3.1 que “juntos venderam mais de 10 milhões de cópias nos dois primeiros anos (após o lançamento), tornando o Windows o sistema operacional mais utilizado até então” 57

. A popularização dos microcomputadores, juntamente com o lançamento do pacote Office fez com que, no início desta década, a Microsoft ganhasse espaço, também, na

56

Merece destaque a “família” MS-OFFICE, composta por Excel, Word, Outlook, PowerPoint e Access.

comercialização de aplicativos para o Windows, uma atividade que até então não se destacava dentre os serviços da empresa 58.

Em 1993, um jovem universitário chamado Marc Andreessen e seus colegas da faculdade de Illinois desenvolveram um software navegador gráfico (“browser”), o chamado Mosaic. Naquele tempo, a internet ainda era um campo bastante inexplorado e a popularidade do Mosaic se espalhou rapidamente, chegando a marca de dois milhões

de downloads no final de 1994. A introdução desta tecnologia (navegador gráfico),

segundo Mc Fadden et al (2000), foi fundamental para a disseminação do interesse da população pela internet59.

No ano seguinte, Andreessen formou uma parceria com o empresário James Clark e juntos eles fundaram a Netscape Communications. A proposta da empresa, naquele momento, era criar um navegador comercial com a interface mais amigável o possível, facilitando a interação dos usuários com a nova tecnologia. Em dezembro de 1994 foi lançado o Netscape Navigator, que nos meses seguintes alcançaria a marca de 60% do market share no mercado de navegadores comerciais. Aproximadamente um ano depois, este domínio seria ampliado e a empresa passaria a atender 90% da

demanda do mercado 60. A alta qualidade do produto, juntamente a um sistema inovador em que o usuário teria um período gratuito de experiência antes de precisar adquiri-lo, foram fundamentais para a receptividade do navegador junto ao público.

A Microsoft demorou a entrar no mercado de software navegadores61. Antes do surgimento da Netscape, a Internet era vista pela Microsoft como “um pequeno ambiente acadêmico” (Economides, 2001, p.24), menosprezado em comparação a suas demais atividades. Apesar de pretender lançar um navegador para a plataforma Windows 95, a empresa não se preocupava com o efeito que o crescimento da Netscape poderia vir a ter sobre seu negócio principal, o de sistemas operacionais. A situação começou a mudar com o surgimento de uma tecnologia que permitiria a outros desenvolvedores de software criar programas que “necessitassem apenas da presença do Netscape Navigator (e não do Windows) para rodar” (Cusumano e Yoffe, 1998, p.107, apud Mc Fadden et al, 2000, p. 5).

Devido a um acordo firmado entre a Netscape e a Sun Systems, o Navigator se tornou “o canal principal pelo qual a tecnologia Java62

poderia entrar nos computadores de usuários do Windows” (Motta, 2002, p.538). O navegador passou a carregar os API’s

58

Como a empresa era responsável pelo sistema operacional, alguns competidores a acusavam de usar este conhecimento para ampliar a performance de seus aplicativos em comparação ao de seus rivais.

59 O número de usuários da internet cresceu de menos de 10 milhões na metade de 1995 para 190 milhões em meados de 2002 (Mc Fadden et al, 2000, p. 5)

60

Em fevereiro, 1996.

61

Segundo a avaliação de Mc Fadden et al (2000).

Java e “uma máquina virtual de Java (JVM) que tornaria possível rodar programas escritos em Java em qualquer computador, operando qualquer sistema operacional, em que o Navigator estivesse instalado” (Schmalensee, 2000, 195). Dessa maneira, o Netscape Navigator seria uma fonte “disseminadora” da linguagem Java. Como o próprio Navigator era compatível com diversos sistemas operacionais, a ampliação do número de aplicativos escritos em Java tornaria, cada vez mais, estes aplicativos independentes do sistema operacional utilizado.

Em junho de 1995 foi marcada uma reunião entre os executivos das duas empresas. Como esta não foi gravada, o conteúdo e a forma como esta procedeu são, ainda hoje, motivo de controvérsia entre as partes envolvidas. A Microsoft afirma que abordou a concorrente de forma amigável, propondo um acordo de cooperação entre elas que seria vantajoso para ambas as empresas. A Netscape diz ter sido ameaçada pela rival nesta ocasião. Mc Fadden et al (2000) afirma que neste episódio foi dada à Netscape “a opção de entrar em acordo com a Microsoft e produzir, apenas, navegadores incompatíveis com o sistema Windows 95, ou ser considerada uma concorrente e ser tratada como tal” (Mc Fadden et al, 2000, p.6). Como a evolução dos sistemas operacionais era iminente e a tendência de domínio da Microsoft provavelmente se perpetuaria, a Netscape viu-se obrigada a tornar-se uma concorrente. Bill Gates declarou, naquele momento, teria declarado que a Netscape havia “acordado um gigante”, e assim teve início a guerra dos Navegadores.

Em 1995 as duas empresas lançaram versões consecutivas de seus navegadores, tendo tido o Navigator melhor desempenho devido a seu maior conjunto de funções. Mc Fadden et al (2000) destaca que, mesmo com a estratégia da Microsoft de “pré-instalar” seu navegador na plataforma Windows, no ano de 1995, o navegador da Netscape era melhor, o que fazia com que o público abrisse mão desta “comodidade” e instalasse o produto independente da Netscape. Com o tempo estas diferenças foram se tornando cada vez mais escassas e em meados de 1996, os produtos eram praticamente iguais em termos de qualidade.

Ainda neste ano (1996) a Microsoft tomou a polêmica decisão de integrar o Internet Explorer (IE), seu navegador comercial, ao Windows, ou seja, a partir daquele momento, consumidores que adquirissem aquele sistema operacional teriam, gratuitamente, acesso ao navegador e este já viria instalado como uma função padrão do Windows. Além disto, o produto ainda poderia ser baixado diretamente da internet sem custos. A Netscape, por sua vez, não seria capaz de adotar a mesma estratégia utilizada

pela rival já que, diferentemente do verificado na Microsoft63, a empresa possuía sua renda integralmente associada à comercialização de seu navegador.

Etro (2012), citando a obra de Klein (2001), afirma que a Microsoft “gastou milhões de dólares desenvolvendo versões melhoradas do Internet Explorer e, posteriormente, ofertou o produto de forma agressiva, chegando a integrá-lo ao Windows, não cobrando por ele e pagando serviços provedores de internet e fabricantes de equipamento para sua divulgação. Tudo isto para aumentar a utilização do Internet Explorer neste mercado, tanto por usuários finais quanto por desenvolvedores de

software, mitigando a ameaça de domínio do Netscape Navigator no mercado de

sistemas operacionais” (Etro, 2012, p. 219).

A estratégia adotada pela Microsoft foi considerada decisiva no desfecho da competição no mercado de browsers. A demanda por computadores ao longo da década de 1990 cresceu exponencialmente. Muitos usuários estavam tendo seu primeiro microcomputador e, naquele momento, por estarem pouco familiarizados com a nova tecnologia, seriam incapazes de distinguir qualquer funcionalidade diferente dos dois

browsers. Já teriam, porém, acesso imediato ao IE, que vinha instalado junto com o

Windows. A parcela da demanda atendida pelo IE cresceu nos anos que se seguiram, forçando a Netscape, em 1998, a “reduzir o preço de seu browser a zero” (Mc Fadden et al, 2000, p.8). Neste mesmo ano, a Netscape foi comprada pela “America Online” e o IE passou a ter 96% do market share no mercado de navegadores. Desta maneira, a primeira guerra dos navegadores terminou de forma favorável a Microsoft, com esta empresa preservando sua posição dominante dentro do mercado.