Outra grande fonte do estereótipo da mulher fraca e impotente era a moda. Os espartilhos trazidos pelo início do período vitoriano (1837-1860), além de deixar a mulher mais esbelta, contribuíam realmente para agravar sua saúde, deformando a coluna e os órgãos internos. Muitas morriam de tuberculose por conta do mal estar provocado pelo acessório que dificultava a respiração e a circulação. Outras desmaiavam com freqüência, desvelando fragilidades próprias
ao belo sexo. Às vezes chegavam a três ou quatro os corpetes vestidos um sobre o outro.74 [Anexo 19]
O sacrifício do corpo modelado era, na verdade, uma conseqüência da transformação da sociedade tradicional pelos novos valores modernos, que exigia uma diferenciação cada vez mais precisa entre os sexos. Os novos papéis desempenhados na vida pública e na privada inscreviam- se violentamente nos corpos e eram reforçados nos mais mínimos detalhes pelo traje portado: “(...) não só um contraste biológico (...) afasta a mulher do homem. (...) todo um conjunto de diferenças acentua através da roupa as características sexuais, modula de modo diferente a voz da mulher, produz um vagar maior dos movimentos, um jeito de cabeça mais langue sobre os ombros. (...) A vestimenta acentuará esse antagonismo, criando, no século XIX, duas ‘formas’, uma para o homem, outra para a mulher, regidas por princípios completamente diversos de evolução e desenvolvimento”.75
Este é, segundo Lipovetsky, o princípio que rege o desenvolvimento da Moda de Cem Anos, como é denominado o movimento que começa na segunda metade do século XIX e vai século XX adentro até por volta de seus anos sessenta.76 Para o autor, a Moda de Cem Anos designa essencialmente a moda feminina, o que não quer dizer que não houvesse uma moda masculina, mas sim que esta não tinha por trás uma instituição de peso como a Alta Costura. Até os anos 30, a moda masculina continua a ser regida por Londres, enquanto a feminina o é por Paris. Em conformidade com o trecho de Gilda de Mello e Souza apresentado no parágrafo anterior, eram dois princípios diferentes que regiam a moda, duas velocidades, dois sentidos,: « Comparée à la mode Couture, la mode masculine est lente, moderée, sans heurt, ‘égalitaire´ (...). Incontestablement, la Haute Couture est l’institution la plus significative de la mode moderne, elle seule a dû mobiliser en permanence l’arsenal de lois afin de se protéger contre le plagiat et les contrefacterus, elle seule a suscité des débats passionnés, elle seule a joui d’une célébrité mondiale (...) Prolongeant un phénomène déjà manifesté au XVIIIe siècle, la mode moderne est d’essence féminine ».77
74 Alison Lurie. A linguagem das roupas. Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1997.
75 Gilda de Mello e Souza. O espírito das roupas: a moda no século XIX. 5ª reimpressão. São Paulo, Companhia das
Letras, 1987, pp. 55-59.
76 Gilles Lipovetsky. L'empire de l'éphémère. La mode et son destin dans les sociétés modernes. Paris, Gallimard,
1987, p. 80.
Ao final da era vitoriana, a infantilização e a fragilização da mulher já não eram mais tão fortes, mas continuavam presentes. A vestimenta feminina, “de uma composição complicada, ‘cheia de atavios e pudica’, (...) sofre uma série de simplificações, a contar pelo desuso de coletes e corpetes, uma verdadeira revolução para a mulher”.78 Era o começo da era eduardiana, que opunha os excessos do Rei Eduardo VII ao recato de sua mãe.
O estilo Belle Époque oscila entre as influências do Art Nouveau, que adere às formas simples da natureza, e a luxúria desmedida da era eduardiana, que se orienta pelo desborde de acessórios. A síntese dessas tendências contrárias resulta num estilo mais simples do que o seu precedente, mas bem mais rebuscado do que aquele que o sucede, já que mantinha os adornos, as fitas, as rendas, os laços. A entrada do art nouveau para o mundo da moda era um fenômeno que não passava em branco pelos coevos. Ao contrário, a chegada dos produtos nos portos era grandemente celebrada: “(...) acabam de sair da alfândega e brevemente a receber, lindíssimas bodas da Índia para vestidos e blusas, gostos art nouveau, rendadas e listadas, de todas as cores”.79 [Anexos 20 a 25]
A partir de 1908, em consonância com o Art Nouveau, a silhueta feminina vai se tornando mais longilínea, evitando os excessos de tecidos e buscando uma valorização maior das formas naturais: “(...) a silhueta feminina começou a ser ligeiramente modificada em 1908. O busto já não era tão empurrado para trás. As blusas mais folgadas caindo sobre a cintura na frente foram abandonadas”.80 A cauda das saias foi desaparecendo até que apareceram as saias “trotteuses”, mais longas e folgadas, distando cerca de três centímetros do solo.81 [Anexo 26]
Em linhas gerais, a tendência preconizada pela moda entre 1905 e 1915 é a de uma menor austeridade dos modelos. As saias encurtam e se tornam mais folgadas; os vestidos tomam maior distância do solo, contrariando os demasiadamente longos vestidos vitorianos e caminhando no mesmo sentido da inclusão da prática de esportes no quotidiano feminino; sob influência do
78James Laver. A roupa e a moda – uma história concisa. São Paulo, Cia. das Letras, 1989, p. 177. “(...) o usado era
o corpinho – espécie de colete, abotoado ou amarrado, que recobria todo o busto até abaixo do estômago. Por cima deste corpinho, vinha a camisa, com rendas na cava e na barra. Sob a camisa, vinham as calças, compridas até o joelho e presas às pernas por meio de elásticos. Neste remate, usavam ainda um colar de rendas. As meias eram compridas e enroladas acima do joelho. Por cima disso tudo, instalavam o colete ao qual se costumavam também prender as meias por elásticos”. (Nelson Palma Travassos. Quando eu era menino. São Paulo, Edart, 1960, p. 77).
79 O Estado de São Paulo. São Paulo, 25/02/1903. 80 Laver, A roupa..., Op. cit., p. 222.
Oriente, abandonam-se os tons pastéis e sóbrios em favor dos tons tropicais quentes; a silhueta feminina torna-se mais esguia, já que os novos modelos favorecem a curva em “S” formada por um desnível mais gradual e menos brusco entre as costas e os quadris; os tecidos, mais pesados, acabavam por si mesmos valorizando as curvas, sem que fossem necessários grandes recortes. Essa transformação, que, no fundo, contraria a moda estética e racional inaugurada pelo movimento da Reforma Religiosa, será completada em 1920. [Anexo 27]
A virada do século é o momento em que Paris dita a moda e todas as mulheres atualizadas do mundo seguem as novas tendências. Nos trópicos, sua exposição se fazia por três formas. A primeira eram os catálogos dos grands magasins que, sendo o principal veículo das vendas à longa distância, foram traduzidos para o espanhol, o português e o inglês, ampliando assim sua cobertura por toda a América. Outra maneira de acesso à última moda parisiense eram os próprios anúncios difundidos pelas casas pertencentes geralmente a proprietários estrangeiros. As exposições de tais produtos em vitrines eram ansiosamente esperadas pelas mulheres e divulgadas com júbilo pelos comerciantes: “Aux modes parisiennes. O Sr. C. Spitz de volta de sua viagem à Europa faz hoje e nos dias seguintes uma grande exposição de novidades em chapéus para senhoras e meninas que comprou pessoalmente em Paris e convida as Exmas. Senhoras a visitar a sua casa”.82 Outras formas de exposição, embora criativas, nem sempre conseguiam o resultado esperado: “(...) comenta-se a tentativa de implantar a ‘jupe culotte’. A Casa Alemã contratara, há tempos, uma modelo para passear pela cidade, protegida por um caixeiro corpulento, muito vermelho que lhe suspendia sombrinha. Era uma calça em seda leve, muito larga, muito longa, e ajustava no tornozelo. –‘Não pega’”.83
A terceira forma de acesso à moda eram as viagens feitas pela elite endinheirada a Paris, como, por exemplo, a narrada por Paulo de Almeida Nogueira que, em curto período de tempo, havia ido duas vezes à Cidade Luz: uma na passagem de 1908 para 1909 e outra em fevereiro de 1913. Em cada uma das vezes, a família ficou na capital francesa por mais de três meses. Eram momentos propícios para a consulta de especialistas consagrados no mundo todo, fosse em termos de saúde, fosse em termos de moda: “Fui ao alfaiate do Galeno, onde encomendei um
82 O Estado de São Paulo. São Paulo, 25/07/1890. 83 Americano, São Paulo..., Op. cit., p. 337
fraque; depois fui ao Gelôt, onde encomendei uma cartola”.84 Além dos passeios nos bulevares e no Bois de Bologne, dos agradáveis chás no Lipton e no Armenon-Ville, constituíam também passagem obrigatória os renomados alfaiates e modistas de Paris que costuravam sob medida. Durante a viagem de 1913, momento em que o automóvel se disseminava pelo velho mundo, a família programou uma viagem por toda a Europa Central em um Renault verde-escuro: “Recebi a Renault, com Lafon, indo ensaiá-la em Saint-Cloud; achei-a ótima. Como na garage Charon, ela não ficasse muito à vontade no box, coloquei-a na Malakof, a 190 francos por mês (...) Fomos à Versailles, visitamos os Trianons, tomamos chá no Trianon-Palace e voltamos à tardinha”.85
Além dos “banhos de civilização”, como viam os membros de elite as incursões ao exterior, era muito comum famílias abastadas encontrarem outras famílias da elite brasileira a passeio ou habitando no estrangeiro. Em agosto de 1908, a família Almeida Nogueira encontra-se com a família Teles morando em Genebra. Em setembro do mesmo ano, visitam a família Penteado e a Baronesa Oliveira de Castro, também residindo na Suíça. Já na viagem de 1913, a família vai ao casamento da filha de D. Nhãnhã, amiga de longa data da família, realizado em grande estilo na Igreja da Madeleine. Não raros eram os casamentos de brasileiros notáveis em Paris. A compra do vestido de noiva ou a realização da cerimônia na Cidade Luz conferiam um caráter especial à passagem para a vida a dois, relegando o momento à posteridade e tornando-o motivo de comentário dos demais, em especial daqueles que pertenciam ao mesmo estrato social. Os gastos de brasileiros abastados na Europa eram bastante vultosos e os perdulários não deixavam de ter isso em conta, tratando o assunto até mesmo com certo bom humor: “Enviei ao Roux, de Lausanne, os 300 francos da conta do tratamento de Ester! Esta conta é a noite dissonante no avanço aos estrangeiros, que é a mot d’ordre da Europa”.86
Dentre os inúmeros acessórios femininos criados na virada do século estavam: paninhos bordados e rendados para adorno, de algodão, linho, ou seda, ligas de qualquer tecido, ou de seda; espartilhos e cintas de algodão ou de linho, com ou sem rendas finas; boas (estola de plumas, estreita e comprida, usada pelas mulheres em volta do pescoço), peles e manchons (acessório de formato cilíndrico, feito em geral de pele e que serve para proteger as mãos do frio), sapatos de seda, sandálias de seda e sapatos de banho, chapéus de sol ou de chuva, de seda mesclada, com
84 Paulo de Almeida Nogueira. Minha Vida – Diário de 1893 a 1951. São Paulo, R. dos Tribunais, 1955, p. 142. 85 Nogueira, Minha vida..., Op. cit., pp. 210-211.
cabo de prata, de ouro ou de pedras preciosas; bolsas, valises ou saco, porta-lenços, cintos à fantasia, luvas de algodão, seda, lã com enfeites ou simples.
Já os tipos tecidos com que contava a moda feminina vinham se multiplicando desde 1870. Crescia a produção de lãs e tecidos de algodão, mas também a dos sintéticos, como o náilon, material das capas de chuva, o jérsei, e outros que imitavam a pelica e a pelúcia.87 Em paralelo à produção industrial em grande escala, os tecidos ainda produzidos quase que artesanalmente, afetados pela maquinaria somente o suficiente para não comprometer o refino, diversificavam-se. A França, que passara por uma Revolução Industrial bastante peculiar, conservando a pequena propriedade rural e a produção artesanal ao lado da grande indústria, era a maior produtora desse tipo de tecido.88 Nos anúncios veiculados pelos jornais, os tecidos ainda preservavam seus nomes franceses originais, o que não deixava de ser uma estratégia inteligente de garantia da autenticidade do produto. As novidades, não poucas, em termos de tecidos e tipos de vestimentas, eram anunciadas em letras garrafais: “failles pretos e de cores, damassé de seda, surahs de todas as cores, pelúcias de seda, elamines lavrados para vestidos, voiles de lã (ALTA NOVIDADE!), alta novidade em zephir aberto, cretones estampados, parisienne para vestidos, setineta adamascada (TECIDO NOVIDADE), gaze de seda (ARTIGO NOVIDADE), cretones para reposteiros, gola à maruja (para crianças), aventais de gaze para senhoras, matinées de seda e de lã para senhoras, sombrinhas de seda para senhoras, meias de seda e fio de escossia (tanto para mulheres como para homens), mantetes pretos para senhoras, capotes de seda, casacos, jerseys, waterproofs, saídas de baile e teatro, toucas e chapéus de renda de seda”.89
A moda do século XIX, ao se associar às conquistas de duas revoluções industriais, aos novos materiais, às novas formas de distribuição e aos novos meios de transporte, adotava dois sentidos de exposição. O primeiro, no interior de vitrines, com a revolução do vidro e da luz, que, em contexto periférico exercia não somente o feitiço da indução às compras, promovendo a comercialização e ativando o consumo, como também, uma espécie de educação daquilo que era de bom tom na Europa em um dado momento. O segundo sentido da exposição é o da exposição
87 David Landes. Prometeu Desacorrentado: transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa
Ocidental, de 1750 até os dias de hoje. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994.
88 Sobre a industrialização no continente vide Landes, Prometeu..., Op. cit. e Eric J. Hobsbawm. Da Revolução
Industrial Inglesa ao Imperialismo. Trad. de Donaldson Magalhães Garshagen. 5ª edição. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2003.
dos corpos, que adota a rua como o seu principal veículo: “Vinham ao Largo as senhoras e moças, ao voltar para casa depois das compras no Triângulo. Os vestidos apertados, as saias longas entravées, cortadas ao lado, à altura do tornozelo. (...) Encostavam-se à parede [os homens], em frente à parada dos bondes, para assistirem ao embarque das moças de saia entravée. Ao levantar a perna, a saia subia até o meio da canela da segunda perna. Houve quem descobrisse melhor espetáculo. O observador colocava-se do lado oposto, no meio da praça, onde havia uma ‘ilha’, que se chamava ‘dos prontos’. Quando embarcada a senhora ou moça de saia entravée, o observador via levantar-se a primeira perna e o vestido e enxergava tudo até o joelho, e, às vezes, umas rendas de baptiste, acima do joelho”.90 Criada por Paul Poiret, um dos costureiros mais célebres da Belle Époque, a saia entravée teria aparecido no Brasil por volta de 1910, 1911.91
A exposição dos artigos era a grande novidade do fin-de-siècle, inventada também pela revolução comercial encadeada pelo grand magasin. Nesta revolução, como acima dissemos, a mulher era o principal sujeito e o principal objeto. Além da venda em rayons, que servia para atrair o sexo suscetível às compras para o maior número possível de artigos, outra estratégia empregada para aumentar o volume das vendas fora a criação de uma seção para crianças dentro dos próprios magasins. A variedade de artigos para crianças vinha aumentando imensamente desde os anos de 1890. Eram principalmente brinquedos que substituíam aqueles antes feitos em casa a partir de materiais simples, como a madeira e o barbante, e roupas altamente sofisticadas, com modelos temáticos que reproduziam os figurinos adultos, embora de uma forma lúdica. [Anexo 28] Enxovais eram montados especialmente para meninos em idade escolar e eram vendidos pelo estabelecimento À La Ville de Paris com 5% de desconto para aqueles que tivessem até doze anos. O enxoval de um garoto contava com toalhas, colchas, fronhas, lençóis, guarda-chuva, calção de banho, objetos de toilette, além do próprio uniforme: “Farda, boné, calça
90 Americano, São Paulo..., Op. cit., pp. 152-153.
91 Influenciado pela moda oriental, Paul Poiret criou a saia entravée que, por ser afunilada e colada ao corpo
feminino tal um quimono, impedia que a mulher desse passos largos. Devido à dificuldade em andar, seria tema de crônicas e charges: "(...) a chamada saia entravée. Sabes o que isso é? Figura-se um chouriço preso apenas embaixo, e terás a impressão exata da saia moderna. Agora, põe sobre esse chouriço uma farta rodela de salame e terás a reprodução exata do tipo feminino na moda de hoje. (...) Entretanto, confesso que a moda de hoje abre uma excessão deplorável às senhoras gordas. É triste, mas é verdade. A gordura não se ajeita às saias entravées pela necessidade do seu transbordamento. (...) Se digo isso é porque vi ontem [uma senhora avantajada em carnes] nestas condições, que me assustou, palavra que me assustou. Já não era um chouriço, era antes um indigestíssimo paio português com toda a dispepsia do seu recheio". (Fon-Fon! Rio de Janeiro, 1910).
de pano azul marinho, segundo o modelo do colégio. Gravata preta, par de botinas pretas”.92 [Anexo 29 e 30]
O setor para bebês também se diversificava enormemente. Em 1912, chegava uma enorme remessa de carrinhos de bebês e roupinhas das mais diversas encomendados pelo Grand Bazar Parisien às mães de família.93 Dessa forma, além dos objetos para si mesma, a mulher acabava enfeitiçada pelos artigos para crianças. A contar pelas vitrines natalinas instaladas pelas Galeries Lafayette, que começaram a ser fielmente montadas todo o final de ano a partir de 1910. As exposições de Natal atraíam não somente crianças, mas também adultos que percorriam, às vezes, longas distâncias do interior da França até a capital, simplesmente para levar seus filhos para ver aquele lindo espetáculo de luz e magia.
Assim, ao lado de uma revolução nos ramos da produção e dos transportes, processava-se também uma profunda transformação nas técnicas de comercialização, que se associavam, por sua vez, a uma reviravolta nos hábitos de consumo. Os diferentes ramos comerciais - antes marcados pela relação individual entre a unidade produtiva e o mercador - passam a constituir intrincadas teias de relações a partir do surgimento dos monopólios e da grande indústria. A publicidade desempenha, então, um papel fundamental na ligação entre as formas de produção e comercialização monopolistas e o consumo capitalista: “A publicidade opera visivelmente no domínio do consumo, se bem que, cada vez mais, sua presença é perceptível na própria concepção dos produtos. Como um componente do planejamento do setor de vendas, que é tanto mais importante, quanto mais complexa for a estrutura produtiva, que gera não somente a diversificação, mas sobretudo a existência de mercadorias similares, à publicidade cabe introduzir uma maior ‘certeza’ do consumo”.94 As diversas estratégias de comercialização acima vistas, dentre as quais a associação entre produtos para crianças e artigos femininos, impõem-se entre a produção e o consumo, tornando-o cada vez mais atraente: “Esplêndido sortimento de brinquedos, de todas e especiais qualidades, confetes e serpentinas, livros de leitura com figuras para crianças, escolhido sortimento de objetos de fantasia, objetos de luxo, cartões, surpresas e
92 O Estado de São Paulo. São Paulo, 05/04/1912.
93 “Variadíssimo e luxuoso sortimento de carrinhos para crianças. Grand Bazar Parisien, São Bento, 87”. (O Estado
de São Paulo. São Paulo, 3/3/1912).
94 Maria Arminda do Nascimento Arruda. A embalagem do sistema – A publicidade no capitalismo brasileiro. São
mais artigos próprios para as festas de Natal, Ano Bom e Reis”.95 Em outro anúncio vinculado à casa Genin, junto à sessão de brinquedos, expunha-se uma sessão de bordados, tapeçarias e crochês inteligentemente colocados lado a lado.96
Um outro hábito instituído com a virada do século fora o de freqüentar os cabeleireiros, cujos anúncios se tornavam cada vez mais freqüentes nos jornais. Além dos últimos penteados trazidos de Paris, os cabeleireiros comumente vendiam os mais variados e modernos apetrechos cobiçados pelas cabeças femininas: “João Baleno, cabeleireiro de Paris, participa às Exmas. Freguesas que mandou vir um excelente oficial de França expressamente para o seu estabelecimento de cabeleireiro no Largo do Rosário, n. 1, sobrado, esquina da praça, onde as senhoras encontrarão um lindo e especial sortimento de postiços de cabelos, como sejam: coques crescentes, niniches e frixequetes da última moda,97 assim como penteados para bailes ou casamentos. Especialidades de cabeleiras chinós, e diademas sob medidas, trabalhos a capricho executados pelo hábil oficial de senhoras Mr. Henrique Thomas”.98 Outros profissionais dedicavam-se aos cuidados tanto dos cabelos masculinos quanto femininos, aproveitando-se para vender artigos de perfumaria importadas: “Faz-se qualquer trabalho em cabelos, como seja: em penteados de senhora, pastinhas,99 viniches, grampos frisados para cabelos, tudo por preço sem