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CAPITULO III – OPERAÇÃO DE DETERMINAÇÃO: MODALIDADE

3.6. A MODALIDADE CULIOLIANA REVISTA POR CAMPOS

Campos (2001) concebe o enunciado como o resultado de um encadeamento de operações predicativas e enunciativas. A relação predicativa e a organização sintática constituem as operações predicativas, enquanto que as operações enunciativas têm a função de localizar a relação predicativa no espaço enunciativo, ou espaço referencial, que se constrói na e pela enunciação. Valores referenciais de tematização, diátese, pessoa, quantificação- qualificação, temporalidade, aspectualidade, modalidade surgem como resultado das operações enunciativas, afetando a relação predicativa subjacente à produção do enunciado (CAMPOS, 1998). Ressalta-se também que a origem enunciativa desempenha o papel de localizador absoluto na construção dos enunciados, sendo, portanto, responsável pela construção da significação.

Para Valentim (2004, p. 123), "a complexidade deste mecanismo decorre fundamentalmente do caráter intersubjecivo da actividade linguística, consubstanciado no facto de o sujeito construir o sistema referencial em relação a outro sujeito, com quem partilha a representação.". À medida que Campos conduzia sua investigação, esta permitiu a construção de um quadro coerente sobre as diferentes subcategorias da modalidade.

56 Excerto extraído de PT3 − A amizade.

57 Tradução nossa, do original: "If it is a question of a relationship to another, including oneself seen as another,

we shall be dealing with a problem of coercion, of deontics. In coercion we are dealing with a relationship where there is necessarily valuation."

A concepção de modalidade apresentada por esta pesquisadora portuguesa, constantemente ligada aos desenvolvimentos da TOPE, é de uma categoria entendida como fundacional em relação à atividade de linguagem (MORENO, 2009). É considerada onipresente na construção do enunciado, portanto, é necessário o acompanhamento de um estudo minucioso da diversidade e da multiplicidade de suas manifestações linguísticas.

A forma como o sujeito enunciador assume a validação da relação predicativa corresponde aos valores modais, ou seja, o sujeito enunciador ao se assumir como localizador, faz com que ocorra a construção da relação predicativa como verdadeira ou não verdadeira, desse modo, o enunciado exprime valor assertivo positivo ou negativo. Já o enunciado com valor interrogativo ocorre quando o sujeito enunciador antecipa o seu coenunciador como localizador modal da relação predicativa.

Em Campos (2004), há uma retomada da tipologia das quatro modalidades apresentadas no item 3.5.1., além de ser acompanhada pela introdução de algumas precisões teóricas na definição das modalidades classificadas (na sequência de Culioli) de tipo 3 (modalidade apreciativa) e de tipo 4 (modalidade intersujeitos), propõe um “rearranjo” de que resulta uma tipologia tripartida: modalidade epistêmica, modalidade apreciativa e modalidade deôntica.

Para Oliveira, M. T. F. (2001), a construção de um valor modal provém da manifestação da "atitude de um sujeito enunciador em relação ao conteúdo proposicional que enuncia e em relação ao seu coenunciador, no e pelo acto de enunciar" (CAMPOS apud OLIVEIRA, M. T. F., 1997, p. 417).

Na perspectiva da semântica enunciativa, interessa a representação da simulação referente à atividade significante da linguagem, que produz sobre a realidade dos atos enunciativos ligados ao espaço da intersubjetividade no sentido do semantismo linguístico. É imprescindível ressaltar que uma mesma relação predicativa pode apresentar um conjunto de enunciados com valores modais de tipos e graus diferentes, tal como expomos a seguir.

3.6.1. A modalidade epistêmica

Esta modalidade se destaca pelo fato de que é a partir dos valores epistêmicos que são construídos todos os outros valores modais. Segundo Campos (2000) é o tipo de

modalidade presente em todo enunciado por corresponder aos operadores lógicos de crença ou de saber, estes considerados constitutivos obrigatórios de todo e qualquer enunciado.

Para uma melhor compreensão desta modalidade, partimos da relação predicativa < Cigarra, aprender, lição >, da qual derivamos as seguintes proposições:

(a) A Cigarra aprendeu a lição; (b) A Cigarra não aprendeu a lição; (c) A Cigarra deve ter aprendido a lição; (d) Acho que a Cigarra aprendeu a lição; (e) Talvez a Cigarra tenha aprendido a lição;

(f) A Cigarra pode ter (ou não ter) aprendido a lição.

Espelhamos-nos em Campos e Xavier (1991) para realizar as explicitações de cada excerto. Inicialmente, é explícito que todos os enunciados constituem uma resposta à interrogação A Cigarra aprendeu a lição?. Isso significa que exprimem valores modais do mesmo tipo, porém de diferentes graus. Em (a) a (f) está evidente a atitude do sujeito enunciador quanto à validação − simbolizado pelo sim como em (a) − ou não-validação da relação predicativa − simbolizado pelo não como em (b) −, ou opta por não se responsabilizar inteiramente pela validação ou não-validação. Em relação à validação, uma distância, maior ou menor, é construída, representando o grau de conhecimento ao acontecimento construído.

Levando em consideração ainda a proposição (a), pelo fato de o sujeito enunciador assumir inteiramente a validação da relação predicativa, caracteriza o que denominamos de valor de asserção estrita positiva. O enunciado (b) possui valor de asserção

estrita negativa, pois o sujeito enunciador assume inteiramente a não-validação da relação predicativa. Tanto (a) quanto (b) se inserem no domínio do certo.

Em relação às outras proposições acima, em alguns casos há recusa por parte do sujeito enunciador em assumir a validação (ou não-validação) da relação predicativa, enquanto em outros somente assume parcialmente. Portanto, tais valores modais correspondem ao domínio do não-certo.

Na relação predicativa (f), trata-se de um exemplo de recusa total que se situa no pólo negativo, isto é, a assunção nula, pois nesse caso ocorre a equiponderação entre

elementos que possibilitem validar ou não-validar a relação predicativa (CAMPOS; XAVIER, 1991).

Quanto à (c) e (d), estes apresentam valores modais do mesmo tipo e graus diferentes, destacando que (c) se aproxima da asserção estrita. Por fim, o valor modal expresso pelo verbo dever, nessa perspectiva, é justificado pelas autoras por meio da afirmação: "o enunciador não dispõe de um conhecimento que lhe permita validar (ou não- validar) a relação predicativa; mas tem outros conhecimentos, que ele interpreta como indícios, nos quais se baseia para construir um valor modal quase-certo, próximo da asserção estrita" (CAMPOS; XAVIER, 1991, p. 340).

3.6.2. A modalidade apreciativa

Devido à dificuldade de sistematizar os diversos marcadores existentes, esta modalidade é a menos estudada. A construção de um juízo de valor ou de uma apreciação sobre uma relação predicativa já constituída e validada caracteriza a modalidade apreciativa.

Esses tipos de valores modais são marcados por uma estrutura de complementação de tipo impessoal tais como: foi bom que, é bom que, é natural que, etc.

Partindo da mesma relação predicativa utilizada no item 3.6.1., obtemos:

(g) Foi bom que a Cigarra tivesse aprendido a lição; (h) É bom que a Cigarra esteja a aprender a lição.

Nos enunciados acima, trata-se de uma relação predicativa validada, construída numa situação de enunciação anterior como em a Cigarra aprendeu/está aprendendo a lição, acarretando na constituição de um pré-construído, termo este introduzido por Culioli para designar o nível pré-lexical.

De acordo com Neves (2009), o pré-construído se situa no nível inassertado, possui natureza linguística, o que permite a identificação e caracterização por meio de regras metalinguísticas, independente de ser ou não verbalizado. Por fim, é essencial complementarmos esta designação com os dizeres de Moreno (2009, p. 27): "[...], os casos em que se verifica uma verbalização do pré-construído constituem exemplos particularmente ilustrativos da relação entre enunciação e pré-construção.".

3.6.3. A modalidade deôntica

Nesta citada modalidade, ocorre a construção de uma relação entre o sujeito da enunciação e o coenunciador, o que desencadeia na realização da situação dinâmica simbolizada pela relação predicativa < r > modalizada.

O modo imperativo e os seus substitutos marcam tradicionalmente a modalidade deôntica. O valor deôntico se insere nesta modalidade expressa pelos modais

dever e poder, a expressão É necessário, o verbo ter de/que, além de outras construções como a interrogação. A seguir, nos referimos às exemplificações deste tipo de valor modal por meio das predicações:

(i) A Cigarra deve aprender a lição; (j) A Cigarra pode aprender a lição.

Tais proposições indicam a construção de uma relação entre o sujeito enunciador e o sujeito do enunciado, A Cigarra, que pode ser pressionado como em (i) ou autorizado como em (j) pelo sujeito enunciador a realizar o evento ou a atividade expressos na relação predicativa (CAMPOS; XAVIER, 1991).