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A modalidade deôntica na perspectiva da GDF

O modelo de análise da Gramática Discursivo-Funcional presta maiores subsídios aos estudos das modalidades linguísticas, por possuir como preceito básico o discurso, definido como a porção linguística no qual o Falante veicula intenções (subjetividades), levando em consideração o contexto e a interação. Sendo assim, é natural a relação entre a teoria do modal e a própria modalidade, por serem ambos influenciados pela subjetividade dos Participantes. O modelo teórico da Gramática Discursivo-Funcional estabelece a seguinte divisão de acordo com dois macro-critérios:

a) o alvo da avaliação, que diz respeito à porção da sentença que é afetada para a modalidade, no qual se subdividem a (i) modalidade-orientada-para- o-participante; (ii) modalidade-orientada-para-o-evento; e (iii) modalidade- orientada-para-a-proposição.

b) o domínio da modalidade, que se refere à carga semântica modal em si. Com base no domínio modal, tem-se: (i) Facultativa, (ii) Deôntica; (iii) Volitiva; (iv) Epistêmica e (v) Evidencial.

As modalidades, na estruturação da Gramática Discursivo-Funcional, são categorizadas a partir de três noções, a partir do parâmetro chamado alvo de avaliação, isto é, a porção modalizada do enunciado, que “direcionam os receptáculos da carga modal em questão e propõe as noções de objetividade e subjetividade da modalidade” (HENGEVELD, 2004, p.1114) sendo estas:

a) Modalidade-orientada-para-o-participante: afeta os aspectos interpessoais que podem afetar a produção linguística, estabelece as relações entre um participante em um evento e a potencial realização de dito evento;

b) Modalidade-orientada-para-o-evento: afeta a descrição do evento em si, involucrado à sentença. Refere-se a uma avaliação objetiva do estatuto de atualidade do evento. Entende-se que esta modalidade descreve a existência de possibilidades, obrigações gerais, etc., sem que o Falante tome responsabilidade por esses julgamentos;

c) Modalidade-orientada-para-a-proposição: afeta o conteúdo proposicional da sentença, isto é, a porção da sentença que diz respeito às opiniões, visões e crenças do Falante, estando vinculada à especificação do grau de comprometimento do Falante com a proposição apresentada.

Outro critério relacionado à divisão tipológica das modalidades é chamado domínio semântico, que diz respeito à semântica da modalidade em si, que as subdivide em: (i) facultativa; (ii) deôntica; (iii) volitiva; (iv) epistêmica e (v) evidencial. O cruzamento dos dois critérios para a tipologia modal resulta no Quadro 1, proposto por Hengeveld (2004), e incorporado à GDF (HENGEVELD; MACKENZIE, 2008):

Quadro 3 - Proposta de classificação modal

Fonte: Hengeveld (2004)

Observa-se, então, a designação da modalidade deôntica enquanto orientada- para-o-participante e orientada-para-o-evento, ambas definições objetivas, e de não vinculada ao tipo modalidade-orientada-para-a-proposição, sendo esta justamente a categoria destinada à introjeção das crenças e opiniões dos Falantes. Para a GDF, então, a modalidade deôntica é eminentemente objetiva. Segundo Neves (1996), esta modalidade não atua no nível da proposição por não estar atrelada a uma avaliação do Falante sobre a proposição, mas à realização de uma ação por parte deste e dos outros.

Tomando como base estas definições, Hengeveld e Mackenzie (2008) concebem a modalidade deôntica como voltada à realização dos Estado-de-Coisas descritos e uma relação entre este e o Participante apenas em nível de predicado, sendo então detentora de objetividade, por pautar-se em valores e noções estabelecidas em dito recorte social, uma vez que a conduta é um conceito construído em sociedade, através de valores religiosos, políticos, culturais, etc. Neste sentido, o Falante não possui força ou poder suficiente para estabelecer uma noção moral por si só.

No caso do domínio da avaliação, ainda em seu trabalho inicial, Hengeveld (2004) divide as modalidades em (i) Epistêmica; (ii) Deôntica e (iii) Volitiva, sendo expandidas em Hengeveld e Mackenzie (2008) para: (i) Facultativa/Inerente/Dinâmica, relacionada às habilidades (inerentes ou adquiridas) das quais é dotado o indivíduo, como em “‘I am not able

to work”;44 (ii) Deôntica, relativa ao que é moralmente aceito ou proibido, regulada pela

conduta, exemplificado em “Begging prohibited”;45 (iii) Volitiva, dedicada à expressão do que é desejável, como se pode ver em “We want to leave”;46 (iv) Epistêmica, relativa aos conhecimentos de que dispõem os Participantes, vista em “We’ll probably die for lack of water”;47 e (v) Evidencial, relacionada às fontes das informações dadas no discurso, observável em “It is said Manuel must have eaten”.48

No entanto, a modalidade, ao ser disposta nas primeiras versões da Gramática Discursivo-Funcional (GDF), em consonância com estudos precedentes, levou em consideração o conceito de Modalidade objetiva e Modalidade Subjetiva, segundo a qual a primeira estaria relacionada a uma simples descrição dos eventos por parte do Falante no discurso, e a segunda, à expressão de seu comprometimento no discurso (VERSTRAETE, 2004, p. 255). De acordo com Nagamura (2016, p. 34), diversos autores contribuíram para a categorização destas duas definições na GDF, sendo estas:

Basicamente, as modalidades objetivas se referem à avaliação do falante sobre um Estado-de-Coisas em termos de seu conhecimento, enquanto as modalidades subjetivas se referem ao comprometimento do falante como relação à veracidade do conteúdo da predicação. (Grifo nosso)

Hengeveld (2004) e Nagamura (2016, p.70-71) defendem a objetividade no estudo modal pela diferenciação da perspectiva de subjetividade gramatical e subjetividade inerente, no qual a primeira diz respeito a marcas linguísticas da objetividade no discurso. Tome-se o exemplo “Ana ainda não chegou” e “Ana ainda não chegou, infelizmente”.49 A marcação da

emotividade através do adjetivo infelizmente favorece o efeito de sentido da expressão da emoção do Falante, o que confere ao segundo caso uma marcação linguística de subjetividade que o primeiro não possui. Ainda que, através de aspectos contextuais ou relativos à entonação das sentenças, por exemplo, se possa recuperar alguma marca de subjetividade no primeiro exemplo, é através do uso lexical do adjetivo que o autor estabelece as duas perspectivas para o componente da subjetividade. Quanto à subjetividade inerente, parte-se de concepções já discutidas sobre a modalidade enquanto comprometimento, posicionamento ou

44 Tradução livre: “Não consigo trabalhar”. 45 Tradução livre: “Proibido mendigar”. 46 Tradução livre: “Nós queremos sair”.

47 Tradução livre: “Provavelmente morreremos por falta d’água”. 48 Tradução livre: “Dizem que Manuel deve ter comido”.

envolvimento do Falante com o seu enunciado.50

O autor estabelece, então, as disposições modais de acordo com o Alvo da avaliação, proposto para a GDF, sintetizadas no Quadro 4:

Quadro 4 - Alvo da avaliação da modalidade na GDF. ALVO DA AVALIAÇÃO

Orientada-para-o-

participante Orientada-para-o-evento

Orientada-para-a- proposição

Facultativa Facultativa Volitiva

Deôntica Deôntica Epistêmica

Epistêmica Volitiva Evidencial

Epistêmica

Fonte: Elaborado pela autora com base em Nagamura (2011; 2014; 2016)

No que tange ao Alvo da avaliação, o modelo inicialmente abordava somente as noções de Modalidade Objetiva e Modalidade Subjetiva (HENGEVELD, 2004). Posteriormente, as modalidades foram dotadas de maior sutileza, a partir das reflexões de Hengeveld (2004) e Hengeveld e Mackenzie (2008): orientada-para-o-participante, orientada- para-o-evento e orientada-para-a-proposição. No primeiro caso, estabelece-se a relação entre os Participantes/propriedades de um evento e a possível realização deste último, estando mais direcionada ao nível do predicado dos ECs. O segundo diz respeito a todo o EC, sem, no entanto, realizar-se nenhuma avaliação por parte do Falante (objetiva). Já o último fenômeno é afetado pelas crenças e opiniões do Falante sobre o evento, denotando maior grau de comprometimento deste na proposição, e possuindo caráter mais subjetivo.

No entanto, apesar de considerar as intenções do Falante como elementos pertencentes ao processo discursivo, Nagamura (2016, p. 3) salienta que a GDF não apresenta uma definição própria para o termo da ‘Subjetividade’. Estudos realizados por Laslop (1999), Verhagen (2005), Pessoa (2011), Nagamura (2016), Mackenzie (2017), ainda que não tenham, em sua totalidade, análises orientadas pela teoria da GDF, vem contribuindo no fornecimento de subsídios que podem auxiliar na reformulação no modelo.

Desta forma, observar-se-á o fenômeno das fontes modais e evidenciais como

50 Resulta de suma importância realizar a distinção entre a subjetividade gramatical e subjetividade inerente,

cabe ressaltar que, para este trabalhar, dar-se-á foco à noção subjetividade gramatical, por meio da observação dos elementos linguísticos (e extralinguísticos) que possam evidenciar o caráter subjetivo e intersubjetivo da modalidade deôntica em língua espanhola. Observa-se também, por meio da teoria escolhida, a Gramática Discursivo-Funcional, que a modalidade deôntica é categorizada como objetiva por meio dos elementos linguísticos que escopa, sendo assim, ao propor uma análise dos efeitos de (inter)subjetividade, parece coerente lançar mão dos mesmos elementos linguísticos, ampliando, porém, dito escopo.

possíveis indicadores do (des)envolvimento do Falante na expressão da modalidade, favorecendo os efeitos de objetividade, subjetividade e intersubjetividade.