2.3 As dimensões da modelagem de roupas
2.3.1 A modelagem geométrica e a modelagem tridimensional
Adoto o termo modelagem geométrica, usado pela Tecnicus ([1948?]) por sua expressividade, pois se refere a um partido projetual em que a reprodução da superfície do corpo, em um plano, em sua gênese de formação, parte de suas proporções e da geometria85. A superfície do corpo, um esquema tridimensional, é transferida para o têxtil, um elemento bidimensional. De acordo com Wong (1998, p. 238)
O desenho bidimensional se refere à criação de um mundo bidimensional por meio de esforços conscientes de organização dos vários elementos, (sic) ele objetiva principalmente estabelecer harmonia e ordem visual ou gerar interesse visual intencional.
O mundo bidimensional é uma representação, já que é completamente diferente do mundo em que vivemos, que é o mundo tridimensional de nossa experiência cotidiana, na qual
O que vemos a nossa frente não é uma imagem plana, tendo somente comprimento e largura, mas um espaço com profundidade física, a terceira dimensão. [...] Qualquer objeto pequeno, leve e próximo pode ser girado em nossas mãos. Cada movimento do objeto mostra um formato diferente porque a relação do objeto e nossos olhos foi modificada. (WONG, 1998, p. 237).
A modelagem geométrica estabelece bases para as quais essa transferência do corpo para o têxtil exige um elaborado domínio de conhecimentos de medidas e
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morfologia do corpo/suporte (comprimento, largura, profundidade), de geometria (linhas retas, círculos, circunferências), de equações matemáticas, e, por fim, da capacidade de relacionar estes conteúdos para se chegar a um objeto tridimensional que veste o corpo, ou seja, da capacidade de imaginar em planos a forma da roupa. A visualização da roupa, como objeto que contém o corpo, é o resultado de um longo processo construtivo que implica em: 1. modelar em base plana (tecido, papel físico, papel virtual etc.); 2. cortar a matéria e, por fim, 3. juntar as partes (costura e acabamentos). Esta segmentação dissocia o suporte, o material e o método.
Modelagem plana, como já foi mencionado, é uma expressão cuja ambiguidade provoca equívocos, pois pode indicar tanto a gênese quanto à gênese de formação do molde, quando se refere à modelagem geométrica, como o meio de registro da forma plana da modelagem, geométrica ou tridimensional. Segundo Wong (1998, p. 45),
Em uma superfície bidimensional, todas as formas planas que não são comumente reconhecidas como pontos ou linhas são formas enquanto plano. Uma forma plana é limitada por linhas conceituais, as quais constituem as bordas da forma. As características destas linhas conceituais e suas inter-relações determinam o formato da forma plana.
Independente da gênese de formação (geométrica ou tridimensional), desconstruída, no plano bidimensional, a roupa é um conjunto de planos em variados formatos. Esses formatos podem ser geométricos ou orgânicos. O formato orgânico apresenta ―convexidades e concavidades por meio de curvas que fluem suavemente. Ele também inclui pontos de contato entre curvas‖ (WONG, 1998, p. 150) e sugerem fluidez e crescimento. Esse formato é muito próprio de uma modelagem indiciária que objetiva a extração de formas naturais, ou seja, aquelas que remetem a temas da natureza, incluindo seres vivos ou objetos inanimados (WONG, 1998). Segundo Wong (2006, p. 155), ―os formatos geométricos são construídos mecanicamente‖, que quer dizer através de instrumentos como réguas, compassos e esquadros que são ―mais adaptados às formas abstratas‖.
FIG. 63 ― Gráfico da gênese de formação modelagem geométrica e tridimensional. Fonte: Arquivo da autora.
A modelagem geométrica é concedida em base plana e a modelagem tridimensional, geralmente, em tecido sobre o suporte (Fig. 63). Ocorre que, depois de definida a forma, as proporções, as margens de junções dos planos etc., o tecido é removido e, havendo necessidade de registro da modelagem, pode ser copiado em um molde de papel ou transposto para uma mídia digital. Nesse estágio, a modelagem tridimensional é planificada. No processo de planificação, instrumentos mecânicos (réguas, curvas, compassos, esquadros etc.) podem ser usados para o estabelecimento da precisão das linhas do contorno. Um formato criado pela modelagem tridimensional ―com curvas e linhas retas exibe características geométricas assim como orgânicas‖ (WONG, 2006, p. 172), mesmo reforçado com instrumentos mecânicos, ele não tem sua gênese de formação alterada. Desse modo, a modelagem plana pode indicar uma gênese de formação ou um estado da modelagem tridimensional.
A Tecnicus ([1948?], p. 73), nomina como modelagem natural plástica aquela que, ―sendo contrária à modelagem geométrica‖, objetiva a obtenção da superfície do busto humano ou de uma parte essencial deste, sobre a qual se produz um modelo adaptado à conformação do sujeito ―mediante uma cobertura ou um registro especial. [...] Diz-se plástica se baseada em uma cobertura de papel, tecido ou similar‖. Esse é um método indiciário, de reprodução do suporte como a moldagem na escultura. Esse procedimento pode ser feito sobre o corpo do sujeito ou sobre o manequim de costura padronizado ou com proporções personalizadas. Esta técnica, como é classificada e descrita pela Tecnicus (Id., Ibid.) pode ser uma etapa de configuração da moulage como nós a conhecemos hoje.
A modelagem tridimensional ― em inglês draping ― é um método escultórico. Segundo Jones (2005, p. 149),
Moulage ― literalmente moldagem em francês ― significa ajustar um tecido (musselina ou morim) diretamente no manequim do tamanho apropriado ou no próprio corpo da pessoa. Moulage é esculpir com tecido, e funciona melhor com tecidos maleáveis e em quantidades generosas.
O desenho tridimensional é também uma forma de organizar o espaço. Segundo Wong (1998, p. 239),
O desenho tridimensional lida com formas e materiais tangíveis no espaço real de modo que todos os problemas presentes na representação ilusória de formas tridimensionais no papel (ou em qualquer tipo de superfície plana) podem ser evitados.
A modelagem tridimensional de roupas trabalha suporte/corpo e matéria simultaneamente, estabelecendo um diálogo direto entre o imaginário, o comportamento da matéria e o suporte/corpo, proporcionando ao construtor de roupas maior domínio das formas e das proporções, além da visualização de acabamentos e das margens de junção ou união das partes da roupa. Em outras palavras, essa modelagem permite a visualização imediata da roupa no espaço pela interação dinâmica entre os planos e possibilita a descoberta intuitiva dos recursos de construção da modelagem e de junção dos planos (costura, amarrações, pontos, soldas, entrelaçamentos etc.).
FIG. 64 ― Construção de roupa que abstrai a forma do corpo pela modelagem geométrica. Fonte: NAKAMICHI, 2007, p. 28.
Segundo Saltzman (2008, p. 306), ―através da vestimenta o que se redesenha ou se modela é o próprio corpo.‖ As técnicas de modelagem geométrica e tridimensional possibilitam a criação de formas figurativas (anatômicas) e/ou abstratas (quando expandem ou alteram a forma) numa reconstrução do corpo pelo vestuário. O trabalho de Nakamichi (Fig. 64) é um exemplo de como, pela modelagem geométrica, é possível abstrair as formas do corpo criando volumes inusitados na construção da roupa. Essa construção, no entanto, torna o processo de modelagem ainda mais elaborado. A criação de formas abstratas na modelagem da vestimenta é, desse modo, muito adequada aos recursos da modelagem tridimensional.