Capítulo III. A Modernidade em Saturday
1. A Modernidade
O conceito de modernidade tem sido alvo de vários enquadramentos e pode ser lido de acordo com os contextos epistemológicos em que é referido.
No contexto das ciências sociais, a modernidade refere-se ao período histórico que acontece na transição do feudalismo para o capitalismo, no qual ocorrem fenómenos como a industrialização e onde aparece todo um conjunto de instituições ligadas ao surgimento do Estado-nação. A modernidade liga-se, sobretudo, às relações sociais que emanam do crescimento do capitalismo.
O seu enquadramento temporal é igualmente entendido de diferente forma, de acordo com diferentes autores. Se para alguns, como Lyotard8, a modernidade terminou em meados ou finais do século XX, dando lugar a uma “pós-modernidade”, para Bauman (2004) e Giddens (1992) vive-se, atualmente, numa outra fase da modernidade, à volta da qual Bauman construiu o seu conceito de “modernidade líquida” e Anthony Giddens apelida de “alta modernidade”, “modernidade tardia” ou “modernidade radical”. Porém, todos eles procuram analisar e refletir sobre as condições sociais, os discursos e os processos surgidos na sequência do Iluminismo e do primado da razão.
Giddens identifica como modernidade os “modos de vida e de organização social que emergiram na Europa cerca do século XVII e que adquiriram, subsequentemente, uma influência mais ou menos universal.” (1992, 1)
Tomando um caminho próprio na investigação de uma época posterior à modernidade e recusando tratar o tema, somente, através da utilização de novos termos, tal como pós- modernidade, Giddens orienta o seu estudo para a análise de uma “época em que as consequências da modernidade se tornam mais radicalizadas e universalizadas do que antes.” (1992, 2)
A sua análise assenta no entendimento de que o desenvolvimento social moderno se faz através de um “conjunto de descontinuidades”. Identifica três aspetos como aqueles que
67 contribuem para a descontinuidade entre as instituições sociais modernas e as tradicionais, a saber: o ritmo de mudança, o alcance da mudança e a natureza das instituições modernas. Paralelamente, a modernidade é caracterizada por Giddens (1992) como “um fenómeno de duas faces”, em que as oportunidades arrastam igualmente o que o autor designa como “um lado sombrio”. A sua pesquisa centra-se nas dicotomias segurança/perigo e confiança/risco. A modernidade tem um caráter eminentemente dinâmico, o qual advém dos seguintes elementos estruturantes, na interpretação de Giddens (1992): a separação do tempo e do espaço, a descontextualização dos sistemas sociais e a apropriação reflexiva do conhecimento. Usando conceitos como “esvaziamento do tempo e do espaço” Giddens (1992) afirma que, em condições de modernidade, o tempo, ao contrário do que sucedia antes, deixa de estar obrigatoriamente ligado a um espaço, o que constitui um fator determinante para que este, por sua vez, se torne “fantasmagórico”, isto é, que seja permeável a influências sociais próximas ou distantes.
Em muitos sentidos [o mundo em que agora vivemos] é um só mundo, com um enquadramento único de experiência (por exemplo, no respeitante aos eixos básicos do tempo e do espaço), mas ao mesmo tempo é um mundo que cria novas formas de fragmentação e dispersão. (Giddens, 2001, 4)
Em Liquid Modernity (2004), Zygmunt Bauman apresenta o conceito de “modernidade líquida” onde o termo “fluidez” emerge como uma imagem do atual estado da era moderna/modernidade.
Os fluidos não se prendem nem no espaço nem no tempo, não mantêm uma forma e estão em constante mudança, o que conta é a corrente do tempo e não a forma; também a época que vivemos tem essas características. Fluidez e leveza surgem como metáforas para entender a natureza da época atual no contexto da história da modernidade.
Vivem-se tempos em que não há um padrão pré-estabelecido, mas antes uma multiplicidade de padrões que se podem sobrepor ou mesmo opor.
A “liquidificação” dos poderes fez com que estes se transferissem do “sistema” para a “sociedade”, da “política” para “políticas de vida”, em resumo, que venham do nível social de coabitação “macro” para o “micro”.
68 O afastamento e a intangibilidade de uma estrutura sistémica, associados ao estado fluido e desestruturado do contexto próximo das “políticas de vida” levaram a uma mudança radical na condição humana, assim como exigem o repensar de velhos conceitos que a enquadram. Há um traço da vida moderna e dos seus contextos que sobressai no meio dos restantes: a mudança na relação entre o espaço e o tempo, ideia também central na tese de Giddens. A modernidade começa quando o espaço e o tempo são separados da prática da vida e um do outro.
Saturday decorre, pois, num período a que Giddens (1992) chama “modernidade tardia” e Bauman (2004) apelida de “modernidade líquida”.
Henry Perowne, personagem principal de Saturday, descreve as linhas de força da pré- modernidade e da modernidade tardia ao refletir sobre o estado de espírito, as crenças e a tranquilidade experimentados por aqueles que viveram em épocas anteriores comparativamente com o que se vivencia na contemporaneidade.
How restful it must once have been, in another age, to be prosperous and believe that an all-knowing supernatural force had allotted people to their stations of life. And not see how the belief served your own prosperity – a form of anosognosia, a useful psychiatric term for a lack of awareness of one’s own condition. Now we think we do see, how do things stand? After the ruinous experiments of the lately deceased century, after so much vile behavior, so many deaths, a queasy agnosticism has settled around these matters of justice and redistributed wealth. No more big ideas. The world must improve, if at all, by tiny steps. People mostly take an existential view – having to sweep the streets for a living looks like simple bad luck. It’s not a visionary age. The streets must be clean. Let the unlucky enlist. (S, 74)