Ptolemeu XII Neos Dionisos Auleta
2. A monarquia e a corte ptolemaica: definições de poder
A monarquia ptolemaica é complexa de definir, principalmente por causa da junção de duas noções de monarquia: a egípcia e a macedónica. A monarquia egípcia
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Cic. Leg. agr. 2.42
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Cic. Sest. 57
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Atualmente, este assunto ainda provoca opiniões e interpretações diversaa entre os estudiosos. Autores como Stanley M. Burstein, Prudence J. Jones, Sally-Ann Ashton e José das Candeias Sales afirmam que a mãe de Ptolemeu XII era uma concubina do rei e assim Ptolemeu XI termina a dinastia fundada por Ptolemeu I e com Ptolemeu XII começa um novo ramo dinástico. Outros autores, como Mary Siani- Davies, afirmam que a mãe de Ptolemeu XII é Cleópatra Selene, a segunda mulher de Ptolemeu IX, e por isso os Ptolemeus só têm um ramo na sua dinastia durante todo o seu domínio.
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E. Badian, “The Testament of Ptolemy Alexander”, Rheinisches Museum für Philologie, Neue Folge, 110. Bd., H. 2, 1967, pp. 178-192. Apesar de esta hipótese já ter sido aceite por grande parte dos estudiosos, ainda existem várias perguntas por responder. Claude Nicolet afirmou que esta hipótese levanta mais problemas do que aqueles que resolve, mas é dos poucos que não aceitam a hipótese de Badian. David C. Braund, Royal Wills and Rome, Papers of the British School at Rome, 51, 1983, pp.24- 25.
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passou por várias dinastias, cada uma com as suas características próprias94. No entanto, a noção de um rei que era um deus ou tinha capacidades divinas era fundamental para os egípcios; esta condição tornava o rei todo-poderoso. Por outro lado, a monarquia não era obrigatoriamente hereditária e a corte era composta por uma elite culta e com méritos próprios. Os jogos de poder e os sacerdotes dominavam a sucessão e controlavam o destino da monarquia95.
A monarquia macedónica, que também conheceu várias fases, dependia, por um lado, da aceitação do rei por parte do povo. A democracia grega era uma base para a monarquia macedónica durante o período helenístico. O rei tinha de respeitar os direitos da população e velar pelos seus súbditos. Por outro lado, a ligação do rei com as diferentes famílias da aristocracia, que faziam parte da corte, e a sua influência sobre estas eram essenciais para conseguir governar96. Assim, os monarcas usavam as festas e os grandes banquetes para manter a corte e a população satisfeitas. As marcas gregas persistiam nesta monarquia, como, por exemplo, o gymnasium, que desempenhava um papel fundamental nas cidades97.
Os Ptolemeus nunca foram considerados reis egípcios, mas reis do Egito e dos territórios que mais tarde conquistaram98. O rei tinha origem divina, sendo a figura central dos ritos religiosos e era, também, o comandante principal do exército. A continuidade da dinastia era definida pela escolha do governante de um dos seus filhos varões. Os reis tinham vários filhos e, na maioria dos casos, várias mulheres. Este herdeiro deveria governar até à morte e seria chamado «Ptolemeu», como todos os outros reis desde o início da dinastia. Durante o reinado, a corte estava sempre sob o seu poder, seguindo e servindo o rei99. Na prática, existiam muitos conflitos políticos, provocados pela estrutura das relações de poder existentes na corte.
A corte já não era constituída pelos nobres greco-macedónicos, mas por vários grupos originários dos diferentes territórios sobre o controlo dos Ptolemeus, tornando- se, assim, verdadeiramente helenística. A definição de corte também é uma questão
94
Alan B. Lloyd (ed.), A Companion to Ancient Egypt. Oxford, Wiley-Blackwell, 2010, pp.xxxii-xliii.
95
Jaromir Málek, “Old Kingdom”, In Ian Shaw (eds), The Oxford History of Ancient Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2003, p.85.
96
Frank William Walbank, The Hellenistic World. Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press,1992, pp.79-80.
97
Rolf Strootman, “Kings and cities in the Hellenistic age”, in Onno M. van Nijf; Richard Alston; C.G. Williamson (eds.), Political culture in the greek city after the classical age. Paris, Walpole, Peeters Leuven, 2011, pp.144- 145.
98
José das Candeias Sales, Ideologia e Propaganda Real no Egipto Ptolomaico (305-30 a.C.). Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, p.43.
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complexa para o mundo helenístico, pois, para além da grande variedade de palavras usadas para descrever esta realidade, é uma noção muito ampla e que abrange vários cargos e grupos políticos. A corte servia de local para confrontos e debates políticos, de centro administrativo, de símbolo da monarquia e de palco para as representações do poder real100.
O rei contava com um grupo de homens para o auxiliarem nas diferentes áreas de governação. Designados como philoi, eram os conselheiros, ministros, funcionários, coletores de impostos, governadores de províncias e qualquer representante do rei nas cidades ou fora do território egípcio. No entanto, não eram empregados do rei, pois pertenciam a uma elite de famílias que conseguiam o seu rendimento através de vários recursos, exteriores à corte, não estando dependentes da riqueza real. Estavam organizados em hierarquias através dos títulos honoríficos da corte, como oficiais da corte e comissões militares101.
O monarca concedia os cargos e títulos honoríficos, decidindo quem ocupava cada cargo e a sua posição na corte. Assim, a corte era um lugar de competição entre os
philoi para conseguirem mais títulos ou cargos mais importantes. Os philoi tinham um
grupo de subordinados que dependiam deles, como seria necessário, pois muitos philoi possuíam terras ou outros negócios. Assim, era muito difícil para um rei retirar um
philos do seu cargo, porque estes passavam a gozar de muito poder e influência e a ser
apoiados por várias pessoas. Consequentemente, a corte ptolemaica sofria de um paradoxo: o rei dava as terras a estes homens e eram estas terras que os tornavam menos dependentes da coroa, conseguindo poder e influência sobre os seus subordinados. Por norma, os philoi uniam forças com alguém que tivesse um papel relevante na corte, seja o próprio rei, seja a rainha, príncipes ou princesas102.
O poder do rei poderia ficar extremamente fragilizado, porque, como os philoi não eram dependentes da coroa, mudavam a sua lealdade para quem lhes fosse mais conveniente e, com os philoi, mudavam também todos os seus subordinados. Para fortalecer o poder do rei, por volta do ano 200 a.C., aparece a figura do «favorito». Os favoritos são também escolhidos pelo rei, mas não têm qualquer base de poder prévia. Normalmente são pessoas sem filhos, podem ser exilados de um outro rei ou do rei
100
Rudolf Strootman, The Hellenistic Royal Court. Court Culture, Ceremonial and Ideology in Greece, Egypt and the Near East, 336-30 BCE. Utrecht, University of Utrecht, 2007, pp. 7-16.
101
Idem, Ibidem, pp. 120-121.
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antecessor e também podiam ser eunucos ou mulheres103. Durante o reinado de Ptolemeu XII, a corte não tem uma realidade muito diferente. Passaram a existir vários funcionários egípcios, quando anteriormente a corte era apenas grega, e existiam várias fações dentro da corte, agora reforçada devido à instabilidade vivida nos anos anteriores. O seu modo de funcionamento, porém, não tinha sido alterado.