D) Ponto de virada: disputas de poder sobre a narrativa
3.7. A montagem ou: sobre o exercício de poder da diretora
Aos vinte minutos de filme, tem início a terceira entrevista do documentário, na qual é possível perceber tanto uma tentativa de Carlos Henrique de entender o filme que está sendo produzido por Maria Clara, quanto uma postura adotada pela diretora de contrapor-se às ideias e sugestões dadas por seu pai. Nela, assistimos o personagem principal enquadrado em super close27, no entanto, o elemento que mais se destaca na cena são as folhas de papel localizadas na mão de Carlos Henrique que, apesar de figurarem enquanto objeto com o qual o personagem está interagindo, servem de alguma forma para obstruir a visão que a câmera tem de seu rosto.
Figuras 13 e 14 – Super close
27 Plano super close: uso aqui para descrever um enquadramento bastante fechado, no qual é possível ter acesso apenas a detalhes específicos do personagem sem apreender a totalidade do que está sendo representado. No caso da cena, é possível ter acesso somente a parte do rosto de Carlos Henrique.
Podemos realizar duas leituras distintas a partir do fragmento recortado acima. A primeira diz respeito a uma postura defensiva adotada por Carlos Henrique, expressa não somente através de suas falas, mas também a partir de elementos visuais como sua postura corporal e roupas utilizadas por ele, escolhidas consciente ou inconscientemente para a ocasião.
A obstrução de seu rosto pode figurar, então, como um recurso inconsciente de encobrimento de sua própria figura, de sua fala, de sua imagem perante a câmera, restando aos envolvidos na entrevista e filmagem se encaixarem nas possibilidades de filmagem da cena tal qual ela se apresenta. No entanto, é importante lembrar que em uma produção audiovisual a escolha do enquadramento é de inteira responsabilidade do diretor.
A segunda leitura possível é a de que a representação de Escobar enquanto pessoa que adota uma postura defensiva se dá, sobretudo, por escolha de Maria Clara, já que, ao utilizar este enquadramento, a diretora opta por posicionar a câmera em um ângulo tal que só lhe resta a possibilidade de ser feita a filmagem de forma a interpor obstáculos físicos (no caso desta cena, as folhas de papel) entre o aparato cinematográfico e o entrevistado, impossibilitando a visualização do rosto de seu pai por parte do espectador, e sugerindo uma posição distante adotada por ele, quando, na verdade, aqui entendemos que esta posição se trata muito mais da forma como a filha percebe a atitude de seu pai do que de outra hipótese interpretativa.
Esta leitura é reforçada em outros momentos do filme nos quais a diretora volta a captar Carlos Henrique da mesma forma, característica evidenciada também por Carla
Maia ao destacar os obstáculos físicos presentes nas cenas do dia a dia, conforme citado anteriormente. (MAIA, 2015, p.06).
Em relação à atitude de Carlos Henrique Escobar, podemos notar, ao contrário das cenas anteriores, uma resistência por parte do intelectual não só em relação à concessão da entrevista, mas também à instalação do dispositivo de captação de áudio, uma vez que, ao perceber uma aproximação de Maria Clara, a primeira frase pronunciada por ele é “o que é que você quer?”28, seguida pela resposta da filha “pôr o microfone”29. Neste momento o protagonista tenta mudar o foco da ação, não permitindo que a diretora instale o equipamento em si e ainda a questionando em relação à abordagem do filme que está sendo desenvolvido.
- Carlos Henrique Escobar: Olha, me diz o seguinte. Vai explicando pra mim uma coisa. Você tá fazendo esse filme, é como se fosse um filme sobre a situação sua nesse momento, né!? É seu, é de como você está. Me diz qual é o seu projeto dentro disso.
- Maria Clara Escobar: A ideia é mesmo uma reconstrução, ou uma construção, de uma memória que eu não tenho, da sua história e da nossa história, pensando um pouco na história do Brasil também, política.
- Carlos Henrique Escoar: Olha, eu te daria algumas ideias. Assim, estou inventando agora. Se você começa, sei lá, com alguns dados do passado e do presente do meu pai, da minha família, ou daqueles que eu memorizo. Pois bem. Agora, descendo uma avenida, ou qualquer coisa, uma banda militar muito barulhenta. Corta. Agora silêncio total. Corta para o tumulo do seu avô, o túmulo do Cristian, entende? Até agora você jogou com silêncios e aí você pode começar uma fala, eu acho que você tem que ter uma fala em off, com uma voz natural. E aí você fala “esse é meu avô” ou “esse é o meu pai”, perceber que o filme privilegia muito mais os aspectos relacionados a sua vida privada do que uma representação sua enquanto figura pública, fato demonstrado a partir da pergunta que este dirige a sua filha “Você tá fazendo este filme, é como se fosse um filme sobre a situação sua neste momento, né!?”.
28 OS DIAS COM ELE, 2013,00:20:24.
29 OS DIAS COM ELE, 2013,00:20:28
Maria Clara confirma a suspeita levantada pelo dramaturgo ao afirmar que sua ideia é não só uma reconstrução da história de Carlos Henrique, mas também de sua própria história de vida, expressa através da relação entre os dois. Outro aspecto perceptível na fala da diretora é o seu desejo em criar uma obra que extrapole os limites do privado, funcionando também como um registro do momento histórico vivido por Carlos Henrique Escobar no Brasil durante a ditadura militar.
No entanto, é a última fala que nos revela um pouco das técnicas utilizadas por Carlos Henrique para influenciar a obra realizada por sua filha. Nela, o protagonista sugere que a diretora realize uma montagem valendo-se de elementos contrastantes, alternando imagens do túmulo de seu pai, avô de Maria Clara, com imagens de uma avenida na qual estaria passando uma banda militar.
Este contraste seria notável também a partir dos elementos sonoros, apresentando ora momentos de intenso barulho, ora períodos de longo silêncio. Após esta etapa inicial, o intelectual sugere que a diretora pronuncie as seguintes frases em off “esse é meu avô” ou “esse é o meu pai”.
Neste trecho, Carlos Henrique utiliza a fala como ferramenta de edição tanto ao descrever com detalhes os planos que concebeu, quanto ao pronunciar a palavra “corta”.
Esta é a forma encontrada por Escobar para fazer uso da linguagem cinematográfica, com a qual tem intimidade dada sua atuação enquanto dramaturgo, interferindo também neste aspecto da obra. Vale lembrar que a edição proposta por ele se assemelha muito mais àquela analisada por Eisenstein em “O sentido do filme”, no qual, a partir da sobreposição de fragmentos que carregam ideias opostas (presente/passado, barulho/silêncio), é possível dar origem a um terceiro significado, que emerge da oposição entre as ideias e que é diferente dos significados individuais de cada um deles.
(EISENSTEIN, 2002, p.17).
Figuras 15 e 16 – Imagens de arquivo de pessoas desconhecidas