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Tomás, um arcaico?

1. A moral dupla: prostituição como mal necessário

Sem dúvidas, os principais aspectos relacionados à prostituição na Idade Média são as suas características como fenômeno social urbano e seu status ambivalente na literatura, nos tratados jurídicos e na teologia. Por ser sexo realizado fora do casamento, sem visar a procriação e fruto do desejo desordenado, trata-se de um pecado carnal. Como via de escoamento das energias sexuais masculinas, que preservava a integridade das “mulheres honestas, virgens, viúvas ou casadas”, era socialmente tolerada.

Mário Pilosu analisou diferentes formas discursivas sobre a prostituição e as representações das prostitutas em textos dos séculos XI ao XIV. Segundo o autor, a prostituta

435 LE GOFF, Jacques. “Métiers licites et métiers illicites dans l’Occident medieval”. In: Pour une autre Moyen Age… Op. cit. pp. 91-107.

é uma figura recorrente e veementemente condenada no Antigo Testamento. Entretanto, foi com o cristianismo que uma jurisdição sobre o ato, a prática e os praticantes tornou-se assunto de regulamentação na moral sexual, tendo como principal característica a promiscuidade. A ambivalência dessa moral, no entanto, pode ser percebida em Agostinho, por exemplo, o qual afirmara sobre a subversão pela paixão da luxúria caso as prostitutas fossem retiradas do gênero humano.436

Segundo Jeffrey Richards, as poucas referências sobre a prostituição nos penitenciais indicam que provavelmente este não tenha sido um problema no início da Idade Média.

Apenas com o redespertar das cidades nos séculos XI e XII que a prostituição entrou para o âmbito dos fenômenos sociais que deviam ser regulamentados.437 As prostitutas eram tratadas, no entanto, de modo similar aos leprosos: eram marcadas por uma prescrição de infâmia e segregadas. Usavam vestes distintivas e deveriam viver fora das cidades, como determinava o Concílio de Paris de 1213.

Aliado a esse movimento de segregação, outro traço predominante era a ênfase na perspectiva da regeneração. Para isso era necessário aos homens da Igreja criar precedentes de salvação e a base desse discurso estava na fuga do mundo e dos impulsos da carne. Na LA, por exemplo, as prostitutas que alçaram à condição de santas obedecem ao topos definido por Pilosu como o da pecadora arrependida do deserto.438 Trata-se de um conjunto de características que se repete nas vidas das santas: mulheres solteiras que praticam atividades reprováveis; tiveram vários parceiros e são convertidas num encontro com um santo. Daí seguem à reclusão como castigo para os pecados cometidos, à penitência e ao comportamento eremítico, na fuga para o deserto.439 Pilosu ainda argumentou que o Ocidente foi colonizado por esse tema oriental e que a partir dos séculos VI e VII as traduções e referências às pecadoras convertidas se multiplicaram, chegando à popularidade de Maria Madalena.

Iacopo da Varazze consagrou em sua compilação hagiográfica quatro capítulos a famosas histórias na liturgia cristã as quais estão perfeitamente alinhadas a essas características. Maria Egipcíaca, Maria Madalena e as Santas Pelágia e Taís. Suas vidas foram marcadas por encontros decisivos com homens religiosos os quais determinaram suas estadas

436 PILOSU, Mario. Op. cit. p. 76.

437 Este autor afirmou ainda que glossaristas de Agostinho repetiam aquela consideração no século XIII.

RICHARDS, Jeffrey. “Prostitutas”. In: Sexo, Desvio e Danação: as minorias na Idade Média. Trad. Marco Antonio E. da Rocha e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. p. 123.

438 PILOSU, M. op. cit. pp. 133-151.

439 IDEM. p.142.

no deserto.440 Maria Egipcíaca, no entanto, pediu à Virgem para entrar num templo e rezar.

Ela não conseguia porque uma “força invisível” a barrava na porta. Após a visualização de uma imagem da Virgem a barreira sumiu e a pecadora entrou. Arrependida de seus dezessete anos de meretrício e das formas pelas quais pagara sua viagem até ali comprou três pães e retirou-se para o deserto onde viveu quarenta e sete anos. Tornou-se santa pelas vitórias sobre as tentações da carne.441

Com Pelágia e Taís a história não foi diferente. A primeira, nobre e luxuriosa, ao arrepender-se doou os bens aos pobres e se retirou para um monte de Oliveiras.442 A segunda, ao arrepender-se, queimou o que ganhara com o meretrício e foi enclausurada por três anos e quinze dias para expiar os pecados.443

A história de Maria Madalena foi narrada com mais detalhes que as demais. Segundo Helena Barbas, o texto de Iacopo foi o primeiro a oferecer uma elaboração de todo o processo para a constituição e construção da personagem. A autora analisou cada uma das partes do texto e concluiu que, para construir a Madalena que melhor lhe convinha, Iacopo modificou e excluiu relatos anteriores e deu a ela uma excepcionalidade, inclusive, maior que a conferida às mártires.444 Uma questão relacionada a esta constituição é a junção de várias Madalenas numa única personagem. Madalena não é uma, e sim, três: Maria de Magdala (de quem Cristo expulsou sete demônios), Maria de Betania (irmã de Marta e Lazaro) e a pecadora que banhou os pés de Cristo na cena do jantar na casa do fariseu.445

Segundo Carolina Coelho Fortes, essas três figuras reúnem três aspectos: a que escolheu a melhor parte (Maria de Betania – quando ela e sua irmã Marta hospedaram Cristo em sua casa – ficou escutando as palavras do Senhor enquanto sua irmã reclamava que tinha ficado sozinha com os afazeres domésticos), a que testemunhou a Ressurreição (Maria de

440 O deserto pode ser caracterizado por qualquer aspecto que representa a fuga do mundo: grutas, cavernas, montes, ilhas, floresta, selas e, até mesmo, o deserto interior. No caso das vidas das santas prostitutas, o deserto ainda significa o oposto da cidade, local onde elas viviam e praticavam o meretrício. Sobre este aspecto, Cf.: LE GOFF, Jacques. “O Deserto-floresta no Ocidente Medieval”. In: O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Trad. António José P. Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1990. pp. 37-55.

441 De Sancta Maria Egypthiaca, pp. 1-2.

442 De Sancta Pelagia, pp.1-2.

443 De Sancta Thaysi, pp. 1-2.

444 BARBAS, Helena. Imagens e Sombras de Santa Maria Madalena na Literatura e Arte portuguesas. A construção de uma personagem: Simbolismos e metamorfoses. Tese (Doutorado em Estudos Portugueses – Literatura Comparada), 1998. On line em: http://www.fcsh.unl.pt/docentes/hbarbas/Tese.htm, consultado entre maio de 2006 e março de 2007. O texto não está paginado. As citações referem-se ao primeiro capítulo “A construção de uma personagem: Maria Madalena”, especificamente no primeiro tópico: “A invenção de uma hagiografia”. Este tópico pode ser acessado direto em: http://www.fcsh.unl.pt/docentes/hbarbas/Tese/T-1111LegAurea.htm.

445 DALARUN, Jacques. “La donna vista dai chierici”. In: DUBY, G. & PERROT, M. op. cit. p.41.

Magdala) e a que ungira Jesus.446 Esta autora afirmou ainda que foi da união dessas três personagens que se formou a Madalena, pecadora arrependida. As três aparecem no relato de Iacopo, que enfatizou, além da questão do arrependimento, a predileção dada por Cristo a ela, a sua atuação como pregadora e à sua retirada para o deserto.447

Para Aviad Kleinberg a Maria Madalena da LA não é a bíblica e nem o epíteto da pecadora arrependida é o aspecto mais enfatizado por Iacopo. O que estaria em evidência e que contribuiria, inclusive, para a originalidade do texto da LA são as viagens feitas por Madalena e por personagens que colocam o poder da Santa em primeiro plano.448

Segundo este autor, as viagens, principalmente a segunda, ocupam a maior parte do relato de Iacopo e propõem um desfecho cíclico para a história. A primeira viagem é a de Madalena e seus irmãos da Terra Santa para Marselha, na França. Neste lugar ela começa a pregar e a ameaçar os que honravam os deuses e não ao Deus dela. Dentre esses, o governador e sua esposa assumem importante papel na legenda. Pois é através deles que Iacopo desenvolve o poder de intercessão e a excepcionalidade de Madalena. O casal não conseguia ter filhos e a santa os disse que isso só aconteceria quando abandonassem a idolatria e acreditassem no seu Deus. Além disso, Madalena aparecia nos sonhos do casal, ameaçando-os, o que lhes fez renunciar ao culto pagão. Diante da renúncia Madalena orou incansavelmente pedindo que o casal então concebesse um filho e conseguiu. Mesmo assim, duvidando das palavras daquela mulher, o governador e sua mulher grávida saem em viagem para Roma em busca de Pedro para conferir se o que dizia Madalena era verdade. Durante a viagem a esposa do governador entra em trabalho de parto, dá à luz a criança e morre. Neste momento o marido conclui que tudo aquilo não aconteceria se ele não tivesse acreditado nas palavras de Madalena. Imaginando que seu filho não sobreviveria sem a mãe, deixou-os, acreditando estarem mortos, em terra firme e seguiu viagem. Retornando à Marselha avistou,

446 FORTES, Carolina C. Op. cit. pp. 216-218.

447 De Sancta Maria Magdalena. pp. 1-6. Segundo Carolina Fortes, a Ordem dos Dominicanos tem uma relação diferenciada com as mulheres. Em primeiro lugar, a patrona da Ordem em sua fundação, foi a Virgem. Além disso, no Capítulo Geral de Veneza (1297), Maria Madalena também recebeu este título. A autora defendeu ainda que essa relação dos Irmãos Pregadores é com as santas intelectuais, como Catarina de Alexandria.

Segundo o texto, a Ordem reconheceria nelas aspectos de sua missão: a erudição e a pregação. FORTES, C. Op.

cit. pp.228-229.

448 KLEINBERG, Aviad. Histoire des Saints: leur rôle dans la formation de l’Occident. Trad. par Moshé Méron.

Paris: Gallimard, 2005. pp. 299-300. Segundo o autor, “Le motif du voyage merveilleux est frequent dans les legends. Il permet d’introduire le héros dans un monde enchanté. Il permet au destin de le mener où il veut, souven sur une embarcation étrange (berceau, coffret de jonc, caisse en bois, poisson, bateau sans soiles). Arrivé miraculeusement à bon port, il est désormais libéré des lois qui régissent le commun des mortels”. p. 299. As relações entre hagiografia e relatos de viagem foram analisadas no primeiro capítulo.

no mesmo lugar em que deixara sua família, a criança e sua esposa. Vivos. Ao se aproximar, enfim, rendeu-se às palavras da Santa, pois somente ela poderia tê-los salvado.449

O aspecto cíclico seria expresso da seguinte forma: no primeiro momento, Maria Madalena se encontra com o governador e a situação dramática é criada; no segundo, eles se separam e é quando se dá a crise; por fim, no terceiro, eles se reencontram fechando o ciclo numa “catarse”.450

A terceira viagem é, na verdade, o período que narra os trinta anos de reclusão de Madalena no deserto. Aviad Kleinberg enfatizou que o sofrimento é totalmente ausente neste relato e que o relevante é a forma pela qual Madalena foi alimentada: ela subia aos céus sete vezes por dia – nas horas canônicas – para se alimentar com o coro dos anjos e, como a esposa e o filho do governador, parecia uma morta viva. E é neste aspecto que Kleinberg situou o efeito cíclico das viagens, principalmente com a do governador. Além disso, as palavras deste autor são suficientes para exprimir o significado da mensagem de Iacopo nesta legenda:

La mort et la vie ne sont qu’apparence. Celui qui semble mort est susceptible de se révéler vivant, celui qui paraît vivant risque de se révéler mort [...] Marie efface toutes les frontiers. Elle est pécheresse et sainte, fainéante et travailleuse, négligente et rigoureuse. Elle exprime, ou plutôt le récit exprime la fragilité de l’apparence, le fait que ce qui oppose les contraires (le péché et le salaire, la vie et la mort, la vérité et le mensonge) ne saurait arrêter Dieu et ses saints.451

Mas não foi somente nessas legendas que Iacopo escreveu sobre a prostituição. Alguns elementos simbólicos em outros textos indicam traços de uma tolerância que extrapolam a santidade das arrependidas: Santa Agnes foi conduzida a um bordel. Ao entrar, o lugar foi transformado num espaço de oração452; a Virgem de Antioquia, também conduzida a um lupanar, conheceu um soldado que a fez vestir suas roupas com as quais ela saiu travestida e não foi reconhecida. Iacopo, na verdade, apresentou o relato escrito por Ambrósio que, a respeito desta cena, escreveu: “quoniam mulieris caput vir, virginis Christus”, ou seja, sendo o homem a cabeça da mulher, Cristo o é das virgens.453 Há ainda o caso de Santa Daria que

449 De Sancta Maria Magdalena. pp. 1-6.

450 KLEINBERG, A. op. cit. p. 303.

451 KLEINBERG, A. op. cit. p.306. Tradução livre: “A morte e a vida são aparências. O que parece morto é suscetível de se revelar vivo, aquilo que parece vivo pode se revelar morto. [...] Maria [Madalena] apaga todas as fronteiras. Ela é pecadora e santa, indolente e trabalhadora, negligente e rigorosa. Ela exprime, ou quase todo texto exprime a fragilidade da aparência, o fato com o qual se opõe os contrários (o pecado e o salário, a vida e a morte, a verdade e a mentira) e que não separa Deus de seus santos”. O termo sublinhado, no dicionário francês, também pode ser traduzido como “vadia”.

452 De Sancta Agnete, pp. 1-3.

453 De Virgine Quadam Antiochena, pp. 1-3, citação na p.2.

também foi mandada a um bordel e que contou com a proteção de um leão, não sendo violentada.454

Para além desses exemplos, os pecados das mulheres na LA circunscrevem ao âmbito de duas situações: o corpo e a palavra. Neste sentido, dois traços caracterizam-nas: a mortificação da carne e a perspectiva da aproximação de valores do homem (vir) transformando-se em virago455; e a “tagarelice” associada ao uso das mulheres como instrumentos do diabo.456

Acredita-se que a tolerância à prostituição na LA está expressa, portanto, nos seguintes fatos: 1) os prostíbulos não são destruídos, e sim, transformados; e 2) as prostitutas que não se arrependem não são penalizadas, como é o cado das que tentam persuadir Santa Ágata.457

Segundo Mario Pilosu, o momento decisivo na transformação do discurso sobre a prostituição foi entre os séculos XI e XII, mas foi no século XIII que mudanças culturais atuaram de modo mais profundo nas possibilidades de salvação das meretrizes. Um dos motivos pode ser encontrado na valorização de um novo conceito de santidade inspirado em Francisco de Assis como símbolo do abandono dos bens materiais e da conversão de uma juventude repleta de vícios.458 Mas esta mudança não foi sentida apenas no plano litúrgico e das hagiografias. A sociedade se transformava, a cidade efervescia. Era necessário organizar e regulamentar a profusão dos vícios que se encontravam e se confundiam nesse espaço. Neste sentido, houve uma outra abertura para a transformação do discurso sobre a prostituição: o da moral sexual voltada para a administração do fim econômico visado nesta atividade.