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CAPÍTULO 2 – PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

2.2 A moral em Roma

celebração dos jogos, pois fazem parte dos códigos teatrais, i.e., formas ou dispositivos majoritários esperados pelo público, não se tratando, é claro, de normas137.

Mais da perspectiva da estudiosa pode ser visto no decorrer de toda nossa pesquisa, já que seus argumentos são base para a grande maioria das discussões que propomos.

Vaz (2002, p. 14) afirma que o vocábulo “moral”, tradução do latim moralis, apresenta uma evolução semântica análoga à do termo “ética”. Etimologicamente a raiz de moralis é o substantivo mos (mores), i.e., “costume(s)”, que corresponde ao grego ethos. Desde a época clássica, moralis, como substantivo ou adjetivo, passa a ser tradução usual do grego ethike e esse uso é transmitido ao latim tardio e, finalmente, ao latim escolástico, prevalecendo seu emprego tanto como adjetivo para designar uma das partes da Filosofia ou qualificar essa disciplina filosófica com a expressão Philosophia moralis, hoje vulgarizada nas diversas línguas ocidentais, quanto como substantivo, como “moral” em nossa língua corrente.

O que podemos notar é que a evolução semântica paralela dos termos “ética” e

“moral”, tendo como base sua origem etimológica, não expressa nenhuma diferença significativa. Por isso, é plausível definir que moral é o mesmo que ética (ABBAGNANO, 2012, p. 795). Os dois conceitos definem o mesmo objeto, seja o costume socialmente estabelecido, seja a conduta do indivíduo de agir de acordo com o costume legitimado pela sociedade. A distinção moderna dos termos iniciou com Kant e se deve principalmente a Hegel, na estrutura dialética da sua Filosofia do Espirito objetivo. Moral, na filosofia moderna, tende a refluir para o terreno das ações individuais, e ética passa a abranger todos os aspectos da práxis, das ações humanas. Considerando os termos em sua procedência etimológica, vejamos, por fim, o que nos diz Vaz:

Os dois termos são praticamente sinônimos e dado o seu uso indiscriminado na imensa maioria dos casos, talvez seja preferível manter essa sinonímia de origem e empregar indiferentemente os termos Ética e Moral para designar o mesmo objeto.

A tentativa de conferir-lhes acepção diferente está ligada (...) à separação moderna entre Ética e Política e, mais geralmente, à cisão entre indivíduo e sociedade ou entre vida no espaço privado e vida no espaço público (2002, p. 12).

Com frequência reiteramos em nossa tese que Plauto brincava com a moral140 romana em suas comédias; resta, então, esclarecer que moral estaria vigente à época de Plauto. Desde a Monarquia, os romanos cultivaram um conjunto de valores e práticas consuetudinárias que constituem a base da romanidade: o mos maiorum (LIMA, 2017, p. 77). De acordo com Pereira (2002, p. 359-360), o mos maiorum (literalmente, “costume dos ancestrais”) nunca chegou a ser um código deleis escritas, mas se instituiu como uma moral a ser observada pela nobreza, que legitimava e disciplinava as ações, orientando práticas políticas e religiosas romanas.

140 Sabendo que a distinção entre Ética e Moral é moderna, utilizamos os vocábulos indistintamente, mas privilegiando o termo de origem latina.

Esse ideal moral romano constituiu-se pelo fato de, nos fins do século VI a. C., Roma e a cultura romana terem sido submetidas a uma aristocracia de campesinos, de proprietários rurais explorando diretamente suas terras. Para Marrou (1973, p. 358-359) esse telurismo que fundamenta a mentalidade romana e que caracteriza a origem da educação em Roma, poderia ter sido obliterado com a influência etrusca, mas a expulsão dos reis e a implantação da República pode ter significado a vitória da aristocracia rural sobre os elementos urbanos, consequentemente acarretando a predominância campesina. Soma-se a isso também, ainda segundo Marrou, o apoio das famílias italianas que se integraram à velha nobreza romana, impedindo-a de se urbanizar em demasia.

Plauto escreveu entre os séculos III e II a.C., portanto durante a República (res publica)141. Segundo Corassin:

Os valores básicos nessa sociedade são transmitidos entre as gerações; é fundamental o respeito aos costumes dos antepassados ou dos ancestrais: o mos maiorum. Ensinar aos jovens esses costumes e o respeito a eles como um valor indiscutível é a principal função de quem educa. Educação entendida aqui no sentido mais amplo, da formação e não apenas da transmissão de conhecimentos por mestres escolares (2003, p. 273).

Esse princípio de vida era formador da consciência romana desde a infância, inculcando, nos jovens, valores morais rígidos, criando um estilo de vida baseado no sacrifício, na renúncia e no devotamento total do indivíduo ao Estado. Esse ideal nunca foi discutível, não há concepções adversárias a essa na tradição romana142. Ao longo da República, o homem romano, em seu exercício da vida pública, constituiu valores que estabeleceram modelo cívico que marcou toda a história de Roma.

Na República, participar da vida cívica significa tomar parte nas atividades da guerra e dos deveres militares, contribuir para a fiscalização dos recursos financeiros do Estado, receber eventuais distribuições públicas, ter parte nas decisões tomadas em comum nas assembleias; implica uma série de ações que conferem sentido ao conceito de cidadão. Ser

141 De acordo com Corassin (2003, p. 276), res publica significa literalmente “a coisa pública” e designa uma noção tanto jurídica quanto política, envolvendo uma organização institucional determinada por regras de direito, pela solidariedade e união dos cidadãos em uma comunidade; é a expressão política do povo em seu conjunto (populus). O interesse particular de cada um deve, portanto, estar normalmente subordinado ao interesse superior do conjunto, à res publica. O sentido desse termo pode ser, portanto, “Estado”, “administração do Estado”, “vida política”, “negócios públicos”. Além desses sentidos, pode-se utilizar República também para indicar o período em que Roma foi dirigida pelo Senado, pelos seus magistrados anuais e pelas assembleias populares. Abrange, aproximadamente, o período entre séculos V a.C. e meados do I a.C. Ainda nas palavras de Corassin, a res publica compreende, também, a res populi, os bens comuns e os interesses comuns do conjunto de cidadãos, o governo e a forma de Constituição.

142 Cf. Marrou (1973, p. 365).

cidadão é muito mais do que ter um simples status jurídico, é uma espécie de oficio e até um modo de vida143. A cidade engloba os espaços comuns aos seus homens: o fórum, os templos, pois a religião é parte integrante da vida cívica, os tribunais. Todos esses aspectos da vida cívica formam um todo, essencial à vida em sociedade. Para obter a adesão e o consenso dos cidadãos aos assuntos e interesses do Estado, é preciso atender às demandas de cada um, mediante uma moral coletiva, que os envolve desde a infância, transmitindo o espírito cívico, de sacrifício e resignação. Fundamentada nos mores, a cidade é, então, submetida a uma disciplina coletiva, livremente aceita, o que reforça a coesão social, dificilmente obtida apenas por repressão (CORASSIN, 2003, 277-285).

Catão, o Censor, defensor das tradições romanas, dizia que os antepassados, quando louvavam um homem honrado, chamavam-lhe de bom agricultor (bonum agricolam) e bom camponês (bonum colonum)144. Cícero, em Da República (V, 1), mesmo mais afeiçoado ao helenismo em Roma, também preserva o ideal moral romano e demonstra respeito a essas tradições, afirmando que nos costumes dos antigos romanos (mos maiorum) está assentada a glória de Roma e na ausência destes ou na sua pouca observância está a explicação para o fim de uma forma de governo que ele considerava a ideal. Além disso, essa é uma ideia corrente entre os autores aristocratas do século I a.C. que reaparece até na produção textual do século IV d.C. (LEMOS, 2010, p. 46).

Agora que sabemos que o ideal moral na República de Roma tratava-se de um princípio ancestral não escrito, que regulava as ações, inclusive as práticas políticas e religiosas, resta saber se Plauto estaria autorizado a utilizar desse princípio antigo e ainda vigente para promover zombaria durante o ritual dos ludi. Conduzindo o pensamento desse modo, à primeira impressão, seria possível pensar que os autores da palliata seriam moralmente condenáveis145. Ora, não seria razoável, em nosso entendimento, que a comédia romana ao mesmo tempo ferisse o ideal moral romano e tivesse sucesso em suas performances no ritual público. Quer nos parece, de acordo com Duckworth (1994, p. 304),

143 O modelo de cidadão ideal romano consistia em três pilares, sendo o primeiro a pietas que é traduzido como piedade para com os deuses, com a família e respeito aos vencidos (humanitas ou magnanimitas), o segundo seria a fides que pode ser traduzido como lealdade às questões políticas e militares, como também em relações particulares em que exista amizade ou firmamento de palavra, e por ultimo temos a gravitas que se traduz como dignidade e essa dignidade diz respeito à capacidade que cada um tem de enfrentar e resolver problemas. Essas virtudes levariam o cidadão a ocupar um cargo no exército e um espaço na República (FONTAN, 1957 apud NEVES, 2018, p. 9).

144 Cf. Agr., I, Praef., 1.

145 Quintiliano (Inst. 10.1.99-100), por exemplo, levando a visão de inadequação moral da Nova Comédia romana às últimas consequências, dirige a ela um ponto de vista amplamente negativo. Segundo o rétor, as comédias romanas são consideradas como extremamente falhas para os romanos, uma vez que seus autores não conseguiram alcançar o humor gracioso dos gregos. Para ele, as comédias podem ser qualificadas por meio da validade moral de seus temas, os quais seriam reflexo da moral de seus autores.

não havia nada na palliata que infringisse a moral romana ou que soasse como incentivo à má conduta.

A cultura romana inicial parece ter sido significativamente menos tolerante com a zombaria cômica, começando pelo menos com as Doze Tábuas (século V a.C.), que prescreviam a pena de morte para muito poucos crimes, mas entre eles: ‘se alguém cometer calúnia ou compor um poema que traga má reputação ou desgraça a outra pessoa’146. Não podemos saber com que consistência essa lei foi aplicada ou que análogo estatutário pode ter existido no meio da República, mas é interessante que o texto nos chega da boca de Cipião de Cícero (data dramática, 129 d.C.) como parte de sua crítica da antiga licença poética grega e seu contraste com a prática romana (GERMANY, 2019, p. 69).

Névio parece ter se envolvido em episódios com figuras públicas e teria sido preso pelas suas críticas. Tal acontecimento pode ter surtido como advertência para outros poetas cômicos daquele período que podem ter desejado brincar no palco com figuras políticas proeminentes. Isso provavelmente ajuda muito a explicar por que não há referência tópica mais direta de qualquer tipo em Plauto e Terêncio. Qualquer alusão a eventos atuais controversos na comédia romana teria que ser vaga o suficiente para fornecer uma cobertura de negabilidade plausível, mas essa imprecisão também pode tornar a referência ininteligível para nós147 (GERMANY, 2019, p. 71-72).

A moral romana dos tempos de Plauto, portanto, era um ideal baseado no costume dos ancestrais (mos maiorum). Tratava-se de um fundamento que guiava os valores do cidadão romano, e que o Estado também utilizava para garantir a coesão e a resignação da população em prol dos interesses da República. A palliata, ainda que não faça referências claramente críticas a eventos e a pessoas da época, utiliza temas, situações e tipos sociais que refletem tanto a moral da sociedade como a política romana148. As sententiae são, evidentemente, mais uma prova disso. São formulações didáticas de natureza popular ou literária, utilizadas frequentemente, como veremos no subcapítulo a seguir, como recurso retórico. Ao passo que, assim como eram usadas como um artifício nos discursos retóricos, na comédia também tinham sua função como uma técnica cômica.

146 Cf. Cícero (Rep., 4.12).

147 Há uma possível alusão indireta a Névio em Plauto (Mil., vv. 209-12).De acordo com Germany (2019, p. 71), Plauto geralmente se refere aos romanos como barbari, e a interpretação do poeta barbarus em Miles gloriosus como uma referência a Névio pode ser rastreada até a antiguidade, sendo aceita por quase todos os estudiosos modernos. Para uma análise detalhada acerca do significado da possível alusão a Névio e do seu objetivo na comédia plautina, cf. Germany (2019, p. 70-75).

148 Sobre como a comédia romana, porque baseada na vida privada, pode ser vista como um espelho da organização do Estado romano, ver Germany (2019, p. 78-79).