O princípio da moralidade administrativa
2.6. A moralidade e os agentes públicos
Em decorrência do conceito de moralidade institucional, o conceito de moralidade administrativa abrange a não-arbitrariedade dos universos individual e privado contra o estatal, e deste contra aqueles no âmbito da administração pública.
É a Constituição Federal31 que, ao cuidar da administração pública, impõe moralidade, porém, especifica sanções para os casos de improbidade, conforme o pensar de Rangel Júnior: “nulidade dos atos desobedientes àquela não exclui a reparabilidade dos bens e a prejudicialidade dos agentes ligados às lesões decorrentes desta.”32
Como são termos semanticamente afins – o sentido de probidade está contido na noção de moralidade, o que nos leva a dizer que moralidade administrativa já é, em si, a moralidade institucional aplicada à administração pública, enquanto probidade é o instituto de moralidade institucional público- administrativa, reparável política, funcional, civil e criminalmente.
Atualmente, a sociedade vem se tornando cada vez mais exigente quanto à conduta do administrador público na gerência dos interesses coletivos na expectativa de uma administração pública orientada por valores éticos onde não lhe baste tão somente a aprovação da lei, mas também o seu enquadramento nos valores morais da coletividade e que seja passível de punição específica por desvio da conduta ética, afastando a sensação de impunidade que permeia no seio coletivo.
31Constituição Federal de 1988 - Art. 15. - É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se
dará nos casos de: I - cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado; II - incapacidade civil absoluta; III - condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos; IV - recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do artigo 5º, VIII; V - improbidade administrativa, nos termos do artigo 37, § 4º (Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível.)
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Desta maneira, o aperfeiçoamento da conduta ética do servidor público depende da clareza das regras de comportamento e do desenvolvimento de uma estratégia específica para sua implementação e punição formando uma base ética do funcionalismo de carreira com uma estrutura sólida calcada nos valores tradicionais da classe média, onde ele é recrutado.
Para tanto, o governo elaborou um código de conduta da alta Administração Federal33 que vale como compromisso moral das autoridades integrantes da alta Administração Federal com o chefe de governo, proporcionando elevado padrão de comportamento ético capaz de assegurar, em todos os casos, a lisura e a transparência dos atos praticados na condução da coisa pública.
A conduta dessas autoridades ocupantes dos mais elevados postos da estrutura do Estado servirá como exemplo a ser seguido pelos demais servidores públicos, que, não obstante sujeitos às diversas normas fixadoras de condutas exigíveis, tais como o Estatuto do Servidor Público Civil, a Lei de Improbidade e o próprio Código Penal Brasileiro, além de outras de menor hierarquia, ainda assim, sempre se sentirão estimulados por demonstrações e exemplos de seus superiores.
Como ponto de partida, a tentativa de prevenir condutas incompatíveis com o padrão de moralidade desejado no serviço público passa pela identificação das áreas da administração pública em que tais condutas podem ocorrer com maior freqüência, dando-lhes especial tratamento.
Constitui-se tarefa de elevado grau de dificuldade, mas que deve ter início pelo nível mais alto da administração, não somente por conter o poder decisório,
33 Código de Conduta da Alta Administração Federal - Art. 1º Fica instituído o Código de Conduta da Alta
Administração Federal, com as seguintes finalidades: I - tornar claras as regras éticas de conduta das autoridades da alta Administração Pública Federal, para que a sociedade possa aferir a integridade e a lisura do processo decisório governamental; II - contribuir para o aperfeiçoamento dos padrões éticos da Administração Pública Federal, a partir do exemplo dado pelas autoridades de nível hierárquico superior;III - preservar a imagem e a reputação do administrador público, cuja conduta esteja de acordo com as normas éticas estabelecidas neste Código; IV - estabelecer regras básicas sobre conflitos de interesses públicos e privados e limitações às atividades profissionais posteriores ao exercício de cargo público; V - minimizar a possibilidade de conflito entre o interesse privado e o dever funcional das autoridades públicas da Administração Pública Federal; VI - criar mecanismo de consulta, destinado a possibilitar o prévio e pronto esclarecimento de dúvidas quanto à conduta ética do administrador.
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mas também por se constituir o paradigma ideal para a conduta dos demais servidores públicos.
Além disso, é de se notar que a insatisfação social com a conduta ética do governo - Executivo, Legislativo e Judiciário - não é um fenômeno exclusivamente brasileiro e circunstancial. De modo geral, todos os países democráticos desenvolvidos enfrentam o crescente ceticismo da opinião pública a respeito do comportamento dos administradores públicos e da classe política.
Essa tendência está ligada principalmente a mudanças estruturais do papel do Estado como regulador da atividade econômica e como poder concedente da exploração, por particulares, de serviços públicos antes sob regime de monopólio estatal.
Como forma de impedir a proliferação da corrupção no setor público a Lei 8.73034 de 10 de novembro de 1993 estabelece a obrigatoriedade da declaração de bens e rendas, bem como a indicação de suas fontes, no momento da posse, para o exercício de cargos, empregos e funções nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como no final de cada exercício financeiro e também no término do mandato.
Por conseguinte, a legislação nacional também prevê a possibilidade de demissão motivada por atos de improbidade administrativa, conforme determina de forma expressa o Regime Jurídico Único, Lei 8.112/90, em seu art. 132:
Art. 132. A demissão será aplicada nos seguintes casos: I - crime contra a administração pública;
34 Lei 8.730 de novembro de 1993 - Art. 1º. É obrigatória a apresentação de declaração de bens, com indicação das
fontes de renda, no momento da posse ou, inexistindo esta, na entrada em exercício de cargo, emprego ou função, bem como no final de cada exercício financeiro, no término da gestão ou mandato e nas hipóteses de exoneração, renúncia ou afastamento definitivo, por parte das autoridades e servidores públicos adiante indicados: I - Presidente da República; II - Vice-Presidente da República; III - Ministros de Estado; IV - membros do Congresso Nacional; V - membros da Magistratura Federal; VI - membros do Ministério Público da União; VII - todos quantos exerçam cargos eletivos e cargos, empregos ou funções de confiança, na administração direta, indireta e fundacional, de qualquer dos Poderes da União
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II - abandono de cargo; III - inassiduidade habitual;
IV - improbidade administrativa; (grifo nosso)
Mais recentemente, o advento da Lei de Improbidade Administrativa35
trouxe a regulamentação dos atos praticados por qualquer agente público, servidor ou não, contra a administração direta, indireta ou fundacional de qualquer dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios, de empresa incorporada ao patrimônio público ou de entidade para cuja criação ou custeio o erário haja concorrido ou concorra com mais de 50% (cinqüenta por cento) do patrimônio ou da receita anual, com previsão de sanções aplicáveis aos infratores no exercício ilícito ou imoral de mandato, cargo, emprego ou função na administração pública direta, indireta ou fundacional conforme disposição expressa do referido texto legal.
35Lei 8.429 de 1992 - Dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos casos de enriquecimento ilícito
no exercício de mandato, cargo, emprego ou função na Administração Pública direta, indireta ou fundacional e dá outras providências.
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