4 DISCURSOS QUE MATAM: A DINÂMICA DO EXTERMÍNIO DA
4.7 A morte como parte das engrenagens do sistema
Toda essa carga de tecnicismo, ou de discursos técnicos com estatuto científico, discursos de verdade, discursos que matam, faz com que as violências e a morte de milhares de jovens tornem-se fatos naturais e banais. Inteligíveis e racionalizáveis dentro de um contexto de poder sobre a vida.
É por isso então que a morte presente nas engrenagens da justiça da infância e juventude é um elemento intrínseco ao seu funcionamento. A morte desses jovens vem corroborar com as práticas de normalização e preocupação com a vida deles. Quanto mais morrem os “anormais”, os envolvidos em “amizades criminosas”, os de “família desestruturada”, os “envolvidos com crime”, os “menores infratores”, os vulneráveis, os perigosos, mais se reforça a vida projetada como correta, saudável e segura. Mais os discursos de verdade ganham “razão”. Afinal, Foucault já enunciava que a morte dos degenerados, dos anormais, dos perigosos é que vai deixar a vida mais pura e saudável.
O paradoxo na era do biopoder é que o extermínio dessa juventude não será mais um elemento deslegitimador das práticas do sistema socioeducativo, mas sim um elemento justificador das suas intervenções racistas e mortíferas. A morte dos jovens considerados “irrecuperáveis”, dos que “não tem jeito”, contraditoriamente reforça os argumentos que - com a intenção de buscar a vida normalizada, invulnerável e segura - atuam produzindo recortes e estabelecendo limites entre a vida digna e a indigna de se viver, entre os jovens que merecem viver e os que merecem morrer.
521 BATISTA, Vera M. Adesão subjetiva à barbárie. In: Batista, V. M (org.). Loïc Wacquant e a. questão penal
Não há dúvidas e os operadores que movimentam a instituição estão cientes do caráter mortífero do sistema. A morte dos jovens que estão em cumprimento de medida de internação é tão “esperada” pelos operadores do sistema que em situações de fuga do jovem da unidade, por exemplo, observamos em diversos processos que não são expedidos apenas “mandados de busca e apreensão” para recapturá-los, mas também ofícios, mesmo sem ter notícias da morte, para o Instituto Médico Legal enviar “laudo necroscópico”. É o atestado do caráter exterminador do sistema.
O caso522 de M.M. se insere nessas representações. Apreendido em novembro de 2012
por “consumo de drogas”, fica sob cumprimento de medida socioeducativa até 01/03/2013. O juiz responsável pelo caso faz requisição direta ao Instituto Médico Legal. Afinal, o destino desse jovem já taxado como vulnerável e em situação de risco não seria outro senão a morte.
Os discursos de verdade que atravessam as práticas da justiça menoril, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que se colocam na condição de “protetores” da vida e dos direitos, escondem a cruel violência das práticas dessa instituição de controle social, produzem com seus jogos de verdade e tramas de saber/poder certa conformação sobre o destino de sua clientela. Conformação com o destino dado a maioria desses jovens: prisão ou vala. É o extermínio produzido cotidianamente, nas práticas “neutras” e “protetoras” dessas instituições.
O extermínio, através dos discursos que matam, vai se processando no momento em que assistimos as audiências de reavaliação da medida. Ao mesmo tempo os jovens eram “ouvidos” em relação ao cumprimento ou não de sua medida e obrigados a dizer que as práticas desse sistema são boas e que os defeitos estão neles próprios. Os laudos técnicos fazem um interrogatório cínico, em que só se espera uma resposta: os defeitos estão nos jovens. Eram esquadrinhados em suas vidas, eram chanceladas suas mortes, os familiares e operadores do direito são informados de suas “vidas infames” e conformados a aceitar seu destino, eram trilhados os caminhos a seguir: sujeição ou vala.
Essa “legítima conformação”, pois emanada de saberes científicos, foi verificada também por nós em diversas audiências assistidas no juizado da infância e juventude em Belém. É comum, diante dos discursos dos pareceres técnicos produzidos sobre o cumprimento das medidas pelos socioeducandos, os atores jurídicos fazerem considerações direcionadas aos jovens e aos pais que os acompanham nas audiências sobre os direcionamentos de suas vidas a partir dos “resultados verdadeiros” produzidos durante o
tempo em que ele esteve internado. As “sentenças extra-processuais” dadas pelos que possuem o poder de fala durante essas audiências são bastante esclarecedoras: ou o assujeitamento do jovem à disciplina de execução das medidas (constantemente acompanhadas de tortura), com sua remota inserção no mercado de trabalho nas posições mais subalternas; ou a continuidade da vida indigna de ser vivida no qual o resultado inevitável é a morte.
No cotidiano dos mecanismos e dispositivos dessa instituição percebemos como o
saber técnico/científico (recheado de “razões ardilosas”523) atua também na forma da
indiferença com as violências do cotidiano daquela instituição, na qual todas as violências se mesclam e são racionalizadas em torno da lógica da “proteção integral”, da defesa dos direitos e dos modos de subjetivação forjados pelos saberes hegemônicos para os sujeitos jovens no contemporâneo.
A tortura e a morte cotidiana daqueles jovens são fatos que se combinam com os demais acontecimentos e procedimentos daquela instituição. Transformam-se em insignificâncias, assim como o ato de juntar a certidão de óbito do jovem que estava em cumprimento de medida socioeducativa e arquivar o processo. A racionalização através dos saberes retira a “relevância de seu significado”, fazendo com que se suporte o insuportável e
se legitime o ilegitimável, justifique o injustificável.524Para os discursos de verdade ( pautados
em saberes hegemônicos da psicologia, pedagogia e medicina) e para a racionalidade jurídico- penal, assentadas na esquizofrênica estrutura do pensamento positivista/tautológico/etiológico simplificado, é o preço que se paga por levarem uma “vida infame” ou “vida loka”, infringindo o “império da lei” e os processos de normalização imprescindíveis à manutenção do sistema.
4.8 Biopoder e racismo de estado: o funcionamento de uma tecnologia de poder