Capítulo I O Luto em Portugal: da Corte à Gente Comum (séc XV-XVI)
1. O luto do final da Idade Média ao alvorecer da Modernidade (1491-1521)
1.3. A morte de D Manuel e a viragem para a modernidade
D. Manuel voltaria a casar em 1518, desta feita com D. Leonor de Áustria, neta dos Reis Católicos e filha de Joana a Louca e Filipe o Belo. Mas o casamento durou pouco tempo. A 13 de dezembro de 1521 D. Manuel faleceu nos Paços da Ribeira, “de uma febre espécie de modorra, doença de que naquele tempo em Lisboa morria muita gente”89. Diz-nos Francisco de Andrada que “a nova da morte do Rei se espalhou logo por toda a cidade, que em todos geralmente causou tanta dor e sofrimento”. No entanto, o cronista salienta que a dor do príncipe teria sido ainda maior, mas que nem isso o fez descuidar de dar seguimento ao enterro e às exéquias em todas as igrejas e conventos, e que “em todas as cousas, que eram importantes ao bem de sua alma foi tão solícito e apressado, que todas fez dar execução com toda a brevidade possível” 90. Frei Luís de Sousa nos Anais de D. João III também afirmou que o príncipe demonstrou “com gravíssimo sentimento o muito que amava a el-rei seu pai”, mas que “como tudo dependia já dele, tratou logo de fazer dar cumprimento ao testamento, quanto à sepultura e exéquias e ao mais que tocava ao bem de sua alma, segundo o tempo dava lugar”91. A julgar por estes relatos (que não podemos evidentemente seguir à letra), Góis dá uma imagem de grande força interior do príncipe, uma vez que teve bem presente que o seu dever de futuro rei deveria sobrepor-se à dor que sentia. Damião de Góis, por outro lado, lembra as “muitas lágrimas, prantos e choros que cada um fazia pela perda de um tão bom Rei e tão amigo de seus criados, e vassalos como ele sempre foi”92.
As crónicas de Francisco de Andrada e de Frei Luís de Sousa informam-nos também que ao quarto dia da morte do rei teve lugar a cerimónia dos prantos, também conhecida como a cerimónia da quebra dos escudos. Não pretendendo aqui explicar o seu simbolismo político93, queria apenas deixar algumas considerações sobre a importância desta cerimónia e da sua descrição nas crónicas apenas na perspectiva do luto.
89 Góis, Chronica…, IV parte, fl. 104v.
90 Francisco de Andrada, Crónica de D. João III, introdução e revisão de Manuel Lopes de Almeida, Porto, Lello & Irmão, 1976, p. 14.
91 Sousa, Anais…, vol. I, p. 29. 92 Góis, Chronica…, fol. 105.
93 Sobre o assunto leia-se Ana Cristina Araújo, Cultos da realeza e cerimoniais de estado no tempo de D. Manuel I, separata de
“Actas do III Congresso Histórico D. Manuel e a sua Época, 24 a 27 de Outubro de 2001”, vol. IV, Guimarães, Câmara Municipal de Guimarães, 2004.
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As cerimónias da quebra dos escudos, de tradição antiga94, assim como a de levantamento do novo rei, adquiriram o estatuto de norma no Regimento de 1502, e revelam uma nova época cada vez mais virada para o ritual, e menos para as manifestações espontâneas95. Assim, a cerimónia do pranto público pela morte do monarca transformou os antigos prantos e lamentações em atos de grande rigidez protocolar, contribuindo para controlar as emoções dos enlutados e ritualizar o luto. O trajeto da cerimónia, os seus intervenientes e programa encontravam-se definidos previamente, repetindo-se em Lisboa e no Porto e sendo organizadas pelas câmaras. Nesta cerimónia “a ordem é saírem os vereadores da Câmara a pé, arrastando grandes capuzes de dó e com varas negras nas mãos, acompanhando uma grande bandeira negra, que indo nos ombros dos alferes da cidade, que a leva a cavalo, vai arrastando as pontas por terra (…) Nesta ordem passeiam as ruas principais da cidade, seguidos dos senhores e fidalgos mais nobres da corte. Param em três lugares notáveis, onde se quebram três escudos, que levam sobre as cabeças ministros honrados da Câmara. Os escudos negros, e ao quebrar de cada um soa uma voz alta e triste, lembrando ao povo que saiba sentir a falta de um senhor, que nos anos do seu governo foi valeroso escudo de suas terras e contra os inimigos delas trouxe sempre bandeiras levantadas”96. Tendo em conta estes relatos de Frei Luís de Sousa, mais sintéticos que os de Francisco de Andrada, vemos que a roupa e a cor do luto se mantiveram em relação aos tempos anteriores, embora os comportamentos de expressão de dor por parte das elites urbanas fossem notoriamente diferentes. Após a quebra dos escudos, seguia-se a cerimónia de levantamento do novo monarca, marcando, através do cerimonial, a passagem de um reinado a outro.
Logo após ter sido levantado e jurado Rei, D. João III pôde finalmente deixar a corte e isolar-se, como era costume em tempos de luto. Assim, passou dos paços da Ribeira para
94 A cerimónia dos prantos, conhecida também como a cerimónia da quebra dos estudos, era praticada desde finais do século
XIII, em certos lugares da Península e do sul da França, como Portugal, Galiza, Astúrias, Catalunha, Foix-Béarn. Ana Cristina Araújo diz-nos, no entanto, que a primeira referência explícita para Portugal à quebra dos escudos surge com D. João I (Araújo,
Cultos da realeza…, p. 86.) Na velha tradição, esta cerimónia consistia “em manifestar o luto por um chefe guerreiro através da danificação e destruição das suas armas e dos símbolos heráldicos: arrastamento das bandeiras, transporte dos escudos em posição invertida, quebra dos mesmos, aposição de sinais negros aos brasões, por vezes quebra dos mesmos” (Maria de Lurdes Rosa, “O corpo do chefe guerreiro, as chagas de Cristo e a quebra dos escudos: caminhos da mitificação de Afonso Henriques
na Baixa Idade Média”, Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães, Guimarães, Câmara Municipal de Guimarães-
Universidade do Minho, 1996, p. 95). 95 Araújo, Cultos da realeza…, pp. 86-90.
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Santos-o-novo, onde se aposentou nas casas de Francisco d’Eça97. A rainha, por seu turno, fez luto logo após a morte de D. Manuel. Quando este faleceu, a primeira determinação que tomou foi recolher-se no Mosteiro de Odivelas, “para poder melhor sofrer o grave peso daquele trabalho e daquele nojo”. Daí mudou-se com a infanta D. Isabel para as casas de Tristão da Cunha, em Enxobregas, onde se ocupava “em frequentar os ofícios divinos, e mandar socorrer a muitas necessidades, que então os pobres padeciam pela grande fome, que causara a esterilidade do ano 1521; e além do que tocava a seus criados; mandava também repartir muitas esmolas pelas freguesias aos mais necessitados”.98. Vimos atrás que uma das atitudes recomendadas às viúvas virtuosas era, para além de uma vida de reclusão, dedicar-se à prática da caridade. Depois do saímento por D. Manuel, “se passou o Rei para Santos o velho, que é da outra parte da cidade dos muros afora no caminho de Belém, e a Rainha com a infanta dona Isabel se passaram para as casas do duque de Bragança que são dos muros da cidade para dentro”99.
A crónica de Francisco de Andrada sugere uma contenção dos sentimentos de dor por parte de D. João III, que primeiro deu seguimento a todas as cerimónias essenciais à
97 Andrada, Crónica…, p. 19. 98 Andrada, Crónica…, pp. 43-44. 99 Andrada, Crónica…, p. 19.
Ilustração 2- Rainha D. Leonor (Lovaina, 1498 – Talavera, 1558) vestida de viúva, pintada por Anthonis Mor. Convento das Descalças Reais, Madrid.
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transmissão do poder, e só depois se recolheu entregando-se ao luto. O novo rei, tal como a rainha, não demonstraram sentimentos em público, recorrendo sobretudo ao luto em privado. O retorno da tradição da cerimónia da quebra dos escudos, além de ajudar a marcar a passagem de um reinado a outro, pode ser entendido como uma forma de ritualizar e sociabilizar o luto. Ao seguir um determinado protocolo e ritual, dava menos espaço a comportamentos espontâneos que poderiam incitar à violência ou à instabilidade da comunidade. Esta cerimónia ir-se-ia manter pelo menos até ao século XIX.
Com a morte de D. Manuel vislumbrava-se já uma nova atitude virada para a modernidade e para o controlo dos sentimentos, e que iria ser especialmente notória nos anos seguintes.
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