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A morte do acontecimento na Emissora Nacional

No documento THE MEDIA IN CONTEMPORARY PORTUGAL (páginas 40-50)

“Recomenzar la construcción del socialismo”: El periódico A Luta en la revolución de Abril

5. O acontecimento e a cobertura informativa do RCP

5.3. A morte do acontecimento na Emissora Nacional

Vimos que o RCP considerou, de imediato, que o acontecimento das inunda-ções tinha valor informativo. Não só deu notícia da tragédia como, através do PBX, fez uma emissão contínua, recebeu telefonemas dos ouvintes ao longo da madru-gada, e enviou repórteres para o terreno (Cristo, 2005, p. 23; Maia, 2009, p. 340). A EN optou pelo silêncio.

O crítico da Plateia Pedro Santos elogiou desta forma a cobertura das cheias pelo RCP:

33 Entrevista pessoal a Adelino Gomes, Lisboa (2015, 19 de junho)

34 Entrevista pessoal a João Paulo Guerra, Lisboa (2014, 07 de maio).

Choveu todo o dia. Havia alarme em toda a cidade. À meia-noite, em RCP, no seu inestimável serviço de noticiário, anunciavam-se tragédias em perspectiva. O programa PBX (…) desenvolveu uma notável actividade, inqui-rindo constantemente dos Hospitais, dos Bombeiros, da Polícia, em reporta-gens no exterior, enfim, procurando identificar-se com a extensão da catástrofe, para logo lançar no ar os elementos conseguidos. (…) Os rapazes da Rádio, em RCP. entregaram-se totalmente à sua profissão, ao serviço da humanidade.36 Por oposição, diz o crítico, a EN demitiu-se da sua obrigação informativa: “Deu-nos um noticiário de ‘Últimas Notícias’, em que nem uma palavra se referiu aos aconte-cimentos! E fechou, tranquilamente!”37

O vazio deixado pela EN no tratamento desta catástrofe não significou apenas o calar do acontecimento. Se, durante esta catástrofe, os “rapazes” do RCP foram ca-pazes de estabelecer uma ligação próxima com os ouvintes, a ação da rádio oficial traduziu-se numa manifestação de indiferença face aos atingidos. O testemunho de populares da região de Loures, no dia a seguir à tragédia, reflete esta atitude da EN e denuncia-a na sua inação e falta de empatia:

Começámos a pedir socorro às dez da noite, para toda a parte, mas ninguém fez nada, ninguém podia fazer nada. (…) Falámos para a Emissora, mas de lá disseram-nos que não podiam interromper a emissão, nem sequer correr o risco de alarmar o País…38

5.4. Os sons nos locais do acontecimento

Entre os registos sonoros que sobreviveram à erosão do tempo e aos constran-gimentos da preservação do som, encontram-se pequenas peças de reportagem39 que introduzem vozes que vão além das personagens que, de algum modo, detêm poder. É nestas reportagens que ouvimos vítimas diretas da tragédia, estudantes que foram em seu auxílio, e bombeiros que estão no terreno.

Dayan e Katz (1999, p. 25) salientam, para os acontecimentos cerimoniais, a im-portância do direto a partir do local do acontecimento. No caso da rádio em Portu-gal, na década de 1960, os sons de arquivo mostram que os repórteres do RCP se deslocaram aos locais afetados, mas sem transmissões em direto a partir do local. Essa possibilidade estava-lhes tecnicamente vedada. João Paulo Guerra, que naque-la madrugada se deslocou a Linda-a-Velha para cobrir o incêndio no paiol do Forte do Carrascal40, explica:

36 Plateia (1967, 12 de dezembro).

37 Plateia (1967, 12 de dezembro).

38 Diário Popular (1967, 26 de novembro).

39 Arquivo Sonoro da RTP, Fundo RCP, AHD9119-8, Reportagem no Forte do Carrascal (1967, 26 de novembro); 11, Reportagem no Carregado (1967, 27 de novembro); AHD9119-12, Reportagem em Odivelas (1967, 29 de novembro).

40 Arquivo Sonoro da RTP, Fundo RCP, AHD9119-8, Reportagem no Forte do Carrascal (1967, 26 de novembro).

Só existiam diretos previstos. Pedia-se antecipadamente uma linha aos CTT. Os CTT montavam uma linha no sítio, eu ia lá com um telefone, li-gava aos fios, dava à manivela e falava. Mais tarde apareceu o radiotelefone no carro. Até onde desse, conseguíamos, pelo menos, relatar. Mas em 1967 ainda não havia. Portanto, eu fui com um gravador, falei com as pessoas e gravei. Vim rapidamente para o Rádio Clube, dei os elementos para darem a notícia atualizada. E, entretanto, montei uma peça sobre aquilo41.

Na segunda feira, Fernando Quinas desloca-se à aldeia de Quintas, que foi, talvez, o caso mais emblemático da tragédia42. No posto da Polícia de Trânsito do Carrega-do, o repórter fica a saber que no terreno, no auxílio às vítimas, apenas estão esta corporação, os bombeiros e as pessoas locais. Elementos do exército ou da marinha, apesar de solicitados, “ainda não chegaram cá”, diz um agente.

No Hospital de Vila Franca de Xira, o presidente da junta de freguesia do Carrega-do transmite a dura realidade de uma aldeia submersa, em estaCarrega-do de sítio:

Admitimos que se fala num cento e meio de mortos. Já temos no hos-pital cerca de 20, e estamos a todo o momento a transportar. Vai agora mais outro carro buscar mais mortos e, por aquilo que vimos, nas casas que (…) estivemos a abrir e a arrombar, ainda se supõe que haja um número de ca-dáveres e outros arrastados pelos campos e pelas vinhas.

Em Odivelas43, na terça feira, Luís Filipe Costa entrevista um bombeiro sobre os corpos que continuam a ser encontrados e a necessidade de ferramentas que ajudem a limpar Odivelas da lama. O repórter enfatiza a presença espontânea de estudantes nos locais onde a tragédia mais se faz sentir. Uma estudante fala-lhe dos prejuízos materiais encontrados e do número de mortos que continua a crescer: “Ainda ali está um corpo por retirar e retiraram esta manhã outro”.

Num outro ponto de Odivelas, Luís Filipe Costa fala na “voz do medo e do pânico”, que ali se fez ouvir. Um popular faz um relato comovente:

A gente abria uma janela ali daquele lado e só ouvia gritos de socorro em cima dos telhados. A gente não tinha quem nos salvasse à gente como é que podíamos ir salvar os outros?

O património sonoro do RCP, ainda que escasso, mostra-nos repórteres em bus-ca de testemunhos à margem das vozes mais institucionais. A escuta de bombeiros, de estudantes e das populações mais desprotegidas – mesmo sem a possibilidade do direto nos locais – refletem a vitalidade do acontecimento, o alargamento do es-pectro das vozes que são notícia em rádio, e uma ligação estreita entre quem faz e

41 Entrevista pessoal a João Paulo Guerra, Lisboa (2014, 07 de maio).

42 Arquivo Sonoro da RTP, Fundo RCP, AHD9119-11, Reportagem no Carregado (1967, 27 de novembro).

43 Arquivo Sonoro da RTP, Fundo RCP, AHD9119-12, Reportagem em Odivelas (1967, 29 de novembro).

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